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Um muro entre nós

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Juliana Rocha

[Rachel Souza]

Apagaram o muro do Jardim Botânico. Todo cheio de grafites. Notícia velha. Foi semana passada. Propriedade do Jockey o muro em questão. Decidiram pintar de bege sob alegação de revitalização e manutenção do patrimônio, exigência do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, da prefeitura do Rio de Janeiro. Desde o anúncio do ocorrido até agora não consigo pensar na notícia senão em tópicos, talvez porque não tenha ainda conseguido compreender com abrangência a real importância do mural.

Óbvio que, como pesquisadora de arte pública que sou, entendo e respeito à importância geral de qualquer expressão artística que se dê nas ruas, mas no sentido local, o das vivências cotidianas, não. Pelo simples fato de viver na zona norte e não acompanhar a evolução do mural em si, não presenciar com frequência as mensagens postas pelos artistas e a recepção dos passantes. Só sei que o apaga-apaga é parte do processo do grafite. É um dos gêneros de arte efêmero, para o bem e para o mal.

Até 2011 o grafite era criminalizado, a lei 12.408 estabeleceu direitos e deveres àqueles que utilizam a cidade como tela. Nesta lei está disposto que, o grafite, quando com intenção de valorizar o patrimônio público ou privado é considerado manifestação artística. Falta esclarecer o conceito de valorização. Acredito que uma cidade com arte pública, seja ela qual for, é mais rica, mais viva. Grafite é conversa e possibilita que a rua seja um lugar de conexão entre mundos distintos. Acredito ainda que, ter uma propriedade que proporciona esse tipo de coisa através de um pedaço de parede, que em nada interfere em sua atividade principal, valoriza a humanidade, o patrimônio e o patrimônio da humanidade. Para ampliar a percepção e o debate e, entender o posicionamento do poder público, conversei com Marcelo Duguettu, presidente do Instituto EixoRio, recentemente criado para discussão de políticas de arte e urbanidade.

RIOetc: Como um instituto criado como núcleo para fomento da cena urbana vê os desafios e conquistas desde a criação, em 2013?

ER: O EixoRio enquanto instituto… (…) é identificar iniciativas que falam com a galera, articular as exigências da rua com as possibilidades do poder público.  O GaleRio surgiu com a ideia de aproveitar os muros da linha 2 do metrô, com o foco mesmo voltado para zona norte e oeste. A gente fala da zona sul, há coisas acontecendo, mas a gente sabe que a grande demanda por cultura e equipamentos culturais está do outro lado da cidade. E o GaleRio vai nessa direção, levar o que a gente considera como corredor cultural pra uma área da cidade que está precisando dessa movimentação. Sentimos a necessidade de oficializar esse entendimento da rua para dentro do poder público, aí surgiu a história do decreto (que funda o EixoRio).

Quando o EixoRio foi estruturado, foi para que os órgãos públicos entendessem o que representa o grafite pra cidade.  O que autoriza ou desautoriza [a feitura de grafite] é a condição daquele imóvel, se for patrimônio, não pode. Se alguém for tentar fazer uma obra numa casa tombada, não consegue. Tem que preservar fachada, às vezes a estrutura…

A comlurb segue uma rota de conservação da cidade, o cara tem que conservar. Limpar e pintar. Se necessário.  A Comlurb comprou uma tinta anti-grafite, que é muito cara, para começar um trabalho em lugares que estavam sendo constantemente pixados. Falo de pichação, não de grafite.  Todos gostam de grafite e acham bacana, inclusive a Comlurb. Só que não dá pro cara chegar e pixar a estátua do Drummond ou um viaduto que acabou de ser reformado. Não dá pra transformar a arte numa ditadura artística, senão todo mundo acha que pode tudo e aí acabou, né?! E pra mim isso é até complicado, porque sou um cara da rapaziada.

Rioetc: O EixoRio é apenas para as artes visuais urbanas ou para todas as manifestações públicas?

ER: Todas elas. Tem a lei do artista de rua, temos conversado com algumas iniciativas, como por ex. o Visão suburbana. A gente vem discutindo o empoderamento dos jovens. Tem uma série de pautas que o Instituto está tratando. O inst. Foi lançado em de novembro.

Olha aqui, o presidente de boné! Estou de boné pq eu sou a rua. As pessoas estão aqui porque acreditam que podem interferir na mudança da cidade. Então o elenco que montei aqui, é a galera que tá afim de mudar o RJ.  Mais do que executar um plano, elas querem desenvolver planos para que o RJ seja uma cidade melhor.

RIOetc: Quem é o curador do GaleRio?

EixoRio: São 2 artistas. O Acme, que fez o primeiro museu de favelas lá do pavão pavãozinho e o Airá, um grafiteiro muito tradicional no Rio de Janeiro. Ele é do complexo do alemão e tem um trabalho de curadoria há tempos e é muito o próximo nosso. Me perguntaram uma vez quais foram os critérios para escolher as pessoas. Não teve critério, escolhi as pessoas que eu quis. Não teve seleção, headhunter, concurso público. Só duas pessoas aqui são do poder público, porque tinha que ter alguém que conhecesse o trâmite. Nada acontece no poder público com menos de 6 meses…

Estou satisfeito com o primeiro ano do instituto e a gente tem desafios muito grandes pros próximos anos. Tem os 450 anos em 2015 e os jogos olímpicos, onde a festa é na nossa cidade,assim como a copa e é uma puta oportunidade pra gente fazer(…) Porque cobrar é parte do processo, o carioca nunca está satisfeito com tudo. Mas fazendo uma análise fria, fazendo um recorte, a gente conseguiu evoluir pra caramba. Só a maturidade da cidade discutir temas que não discutia, já é um ponto de evolução. A gente quer 500 anos em 5,né? Não é o prefeito(…). Uma professora disse uma frase interessante semana passada. Algo assim, as pessoas ficam o tempo todo esperando o prefeito fazer alguma coisa. Se continuar esperando o cara(…) o que que vocês como comunidade está fazendo pra mudar a escola? Qual a cota de participação? Parece que você projeta a mudança no outro e fica sentado esperando. Vai ficar esperando sempre. Se não entrar no miolo pra brigar por isso…

RIOetc: Como o EixoRio se posiciona diante da notícia do apagamento do muro do Jardim botânico?

EixoRio: (…)  Eles não vão apagar, na verdade vão recuperar o muro. Os grafites que estão ali estão escondendo as condições reais que o muro tem. O muro tá com reboco caindo. E como o muro do Jockey é tombado pelo patrimônio [histórico] é isso que garante pro Jockey isenção de IPTU, coisa que viabiliza o funcionamento. Os custos operacionais ali são muito altos. Acabei na conversa com o presidente, entendendo um pouco mais a lógica da polêmica. Quando as pessoas falam dessa história, geralmente é do ponto de vista dos artistas, que é super legítimo, aqui estamos conectados com isso. Mas a gente também tem que olhar o outro lado da história. Não é uma decisão de pintar por pintar, até porque o presidente se amarra nos grafites e sabe que eles têm um impacto muito positivo ali, mas tem o aspecto estrutural do muro que precisa ser revisto. Hoje alguém pode fazer um comentário negativo sobre a pintura e amanhã dizer que caiu um reboco na cabeça enquanto estava passando. Fizemos então um trabalho de mediação para tentar esclarecer não só pros artistas o que estava acontecendo, como para o Jockey o desconforto em relação ao tema da pintura.

RIOetc: Como você sintetiza o cenário da arte urbana no Rio de Janeiro? Aí falo tudo, todas as categorias de arte pública.

ER: 1.Autoconhecimento. Acho que a cena está começando a se perceber como cena, não tinha isso acontecendo de maneira conectada, a galera agia de maneira muito isolada. 2. Articulação. A galera está percebendo que articulação é o caminho pras coisas efetivamente acontecerem . Diria que o terceiro ponto (…). Acho que esses dois definem bem, cara. Acho que se a galera perceber que, de alguma maneira está mais ligada e procurando agir um pouco mais em bloco, a gente vai pro terceiro ponto que acho que é Transição. O Rio de Janeiro está passando por um processo de transição. Já teve uma característica um pouco caricata, figurativa, quando se fala de baile funk, de carnaval, de favela e hoje tá começando a ter um processo de conhecimento, uma transição mesmo. Tem uma nova geração chegando com bases e conceitos (…) Tenho 35 anos, meu irmão com 25 anos viveu coisas diferentes. A gente tá tratando de pautas como o homossexualismo, drogas, a liberação da maconha, relações interaciais, a coisa da pista se misturar com as favelas, coisa que acontece muito na zona sul e que é tendência ir se pulverizando por outras partes da cidade. O Vidigal foi o lugar cool da cidade, né? O leme, o Santa Marta, as festinhas. Carol Sampaio fazendo baile funk cobrando 500 reais a entrada. É isso que está acontecendo no Rio e eu acho isso bacana. Porque se não tivesse existido esse movimento da Carol Sampaio, talvez não tivessem surgido nem o Naldo nem a Anita. A gente é funk pra caralho, o Rio de Janeiro é isso. Tem uma nova classe C que emergiu e quem praticamente manda no Brasil hoje. Essa divisão de classe A/B é uma esquizofrenia, a classe A do Brasil é minimalista, tem conceito europeu e não tem nada a ver com classe B. A classe B é mais próxima da classe C, é a estética da academia, a panicat, a mulherada de pernão, o cabelo… Comportamental mente, são classe que estão muito mais próximas e as marcas ainda não entenderam isso. Tenho participado em reuniões com agências de publicidades em São Paulo e está todo mundo enlouquecido, tá todo mundo batendo aqui na minha porta (risos).  Tive três reuniões com a Nike, com a Oi e com a Rio de Negócios aqui. Eles querem saber como falar pra galera que tá do outro lado do túnel e não é mais um comercial com o Roberto Carlos dizendo que come Friboi, que vai fazer o cara comprar mais carne. O cara não acredita mais nisso, entendeu? A gente tá vivendo a era da verdade, só que quem está por trás das marcas não consegue acreditar nesse movimento. Barra Music é um exemplo disso. É uma casa do mesmo dono do Via show. A casa que mais vendia Red Bull no Brasil era a Via show. Aí tem gente que diz que vendo porque é volume. Não tem essa! A galera tá com poder aquisitivo e quer consumir. Existe uma questão comportamental que não é só dinheiro. O que é o rolezão? O cara não vai fazer um rolezão porque ele tá puto ou porque tá duro. Ela vai fazer porque quer entrar na loja e ser bem tratado, quer ser respeitado. Quer inclusão.

Hoje, Marcelo Duguettu estará participando de uma mesa chamada Música e Mercado, na casa do Grupo Cultural AfroReggae, na Lapa, às 20h. Vamos?

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