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Sou dessas: diferente das outras

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Tiago Petrik

[Elis Vasconcelos]

“Neguinha de cabelo enrolado”. Era isso que os estudantes do ensino médio Anna Paula Bloch, Kelly Cristina, Leander Leão, Leandro Santos e Nayara Nogueira queriam ver nas revistas voltadas para o público jovem que compravam. Cansados de procurar e não encontrar, resolveram eles mesmos colocar a mão na massa e criar sua própria publicação. E assim nasceu a “Sou Dessas”, que terá sua segunda edição lançada dia 17 de agosto.

A primeira edição, de acordo com Anna Paula, foi sucesso absoluto: “Vendemos bastante, e a revista nem está em muitas comunidades. Na próxima edição vamos colocar para vender em outras favelas, como Rocinha, Cidade de Deus e Cantagalo. Teve gente que queria comprar e não encontrou, acho que essa edição vai esgotar!”, comemora a futura estudante de Jornalismo.

Para a segunda edição, o grupo está preparando matérias sobre a Dança do Passinho, a volta do cabelo “Black Power” entre as meninas e um editorial especial sobre os looks da favela: “o pessoal acha que aqui na favela só tem gente com aquele estilo mais abusado, mas aqui tem gente de todos os estilos: hippie, rock, patricinha… e é isso que a gente vai mostrar.”

Falar sobre a moda e o comportamento dos jovens moradores de favelas cariocas é o objetivo principal da Sou Dessas. Embora os idealizadores da revista sejam moradores do Borel e do Salgueiro, o quinteto rompe as barreiras de suas próprias comunidades para encontrar pautas e personagens com comportamentos e ideias interessantes. “A gente não se sente diferente dos outros jovens, para nós não existe certo e errado, a gente vive a realidade do nosso território, e é isso que as outras revistas não mostram e a gente quer mostrar. O slogan da revista é ‘diferente das outras’, tem gente que acha que é porque nós somos diferentes, mas a gente não é diferente de ninguém, a revista que é”, defende Leander.

E foi essa busca pela representação e pelo direito de circular na cidade, como qualquer cidadão, que os levou a escolher a escadaria Selarón, na Lapa, como cenário para o editorial da primeira edição da revista. Um dos modelos convidados para participar do ensaio nunca tinha ido até lá, pois achava que era um lugar frequentado apenas por estrangeiros e pessoas ricas, e que não teria dinheiro para chegar até o ponto turístico. Acostumados a frequentar a Lapa para fazer as reuniões de pauta da revista no escritório da Agência RJ, Anna, Kelly, Nayara, Leander e Leandro convenceram o rapaz de que “a cidade é para todo mundo”, e que ele conheceria o local em grande estilo: sendo fotografado lá.

Conhecer os criadores da Revista Sou Dessas nos fez perceber que existe uma juventude da favela que tem consciência do seu direito de ir e vir pela cidade, e que, embora o Rio ainda seja uma “cidade partida” em muitos aspectos, as fissuras que separam a cidade estão ficando cada vez mais estreitas. Em tempos de disputa de territórios, Copa do Mundo e manifestações, fica claro que está emergindo entre os jovens um novo tipo de carioca, que busca transitar por toda a cidade, que tem um enorme desejo de romper fronteiras. Essa nova geração que sonha com uma cidade onde não exista a hierarquia das representações sociais, onde um lugar não seja considerado melhor que o outro. Afinal, como disse Pedro Luís, “zona sul ou zona norte, seu ritmo é preciso”.

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