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RIOetc entrevista O Alfaiate Lisboeta

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: do blog O Alfaiate Lisboeta / Texto: Isadora Barros

Sociólogo e de sensibilidade apuradíssima, o português José Cabral conta em seu blog – O Alfaiate Lisboeta – histórias de encontros na Terrinha e nos quatro cantos do mundo. Esse ano, aliás, ele lançou o primeiro livro com uma seleção espertíssima de quem desfilou pelo site. Folheando as páginas com carinho, dá pra se deliciar com crônicas que embalam o clima de cada foto. ” Um livro sobre pessoas”, ele define. E é isso: sobre pessoas e momentos!

Logo que o livro chegou aqui no escritório – presentão! – a equipe ficou curiosa pra saber quem é, afinal, José Cabral – e como surgiu e sobreviveu a ideia do site que nasceu como hobby e hoje já inspira tanto por aí. Então pega um chá – ou café, milkshake, água de coco, chocolate quente e até vinho do Porto ♥ -, reclina aí no sofá e vem com a gente nesse bate-papo!

Quem é José Cabral, o Alfaiate Lisboeta?

O José Cabral é um tipo normal que estava a viver uma altura menos excitante no seu trabalho e que, como tantas outras pessoas, encontrou na blogosfera a oportunidade de levar a cabo aquilo que, muito provavelmente, não conseguiria fazer em nenhum outro lado – assinar uma página pessoal.

Qual o perfil do público que acesa o blog?

No início tinha a sensação de que era um público essencialmente jovem. Aos poucos, com o maior reconhecimento público, acho que essa faixa etária acabou por se alargar. Para ser sincero gosto de pensar que o meu blog é como o jogo “Monopólio”… dos 8 aos 80 (risos)

O que você busca nos personagens que aborda? 

Em bom rigor a minha postura é essencialmente reactiva. Não procuro ninguém, eu simplesmente abordo aquelas pessoas que me cativam visualmente. No fundo falo com aqueles que, mesmo antes de sonhar ter um blogue ou andar com uma máquina fotográfica na mão, já despertariam a minha atenção.

Qual sua relação com a moda? Vê alguma ligação com a Sociologia, que você estudou?

Em rigor eu não tenho, do ponto de vista formal, uma relação com a moda. Ou pelo menos não tinha quando tudo isto começou (eu trabalhava num banco). Era o último tipo de pessoa de quem se poderia esperar um projecto desta natureza. E continuo a dizer, de forma genuína, que não percebo nada de moda. A minha ligação com ela parte das pessoas. E, respondendo à tua pergunta, foi também por via delas – das pessoas – que dei por mim a estudar Sociologia. Sempre me senti fascinado pelos factos sociais e dinâmicas de índole sociológica. E a Moda, não nos esqueçamos, não é mais do que isso mesmo, um facto social.

Como você definiria o modo de viver lisboeta?

Lisboa é uma cidade que se está descobrindo a si mesma. Em Portugal padecemos de uma coisa meio tonta. Talvez por sermos um país pequeno parece que só reconhecemos valor a nós próprios em função daquilo que os outros, de fora, nos fazem sentir. E, nos últimos 10 anos, acho que os lisboetas sentem que todo o mundo fala (e bem) de Lisboa. É uma cidade encantadora com um patrimônio histórico, cultural e humano incrível, um clima ameno e uma luz insuperável.

Quais são os hotspots de Lisboa? Onde sempre tem gente bacana pra puxar um papo? 

O Chiado ocupa, de forma incontornável, uma espécie de ponto central de onde todos vêm e para onde todos se parecem dirigir. Dali pode-se descer até ao rio, subir até ao Príncipe Real, a encosta do Castelo ou a Avenida da Liberdade. Há um leque intermináveis de bares, esplanadas, terraços, miradouros onde um carioca se pode perder.

E nas suas andanças pela Europa, o que viu de mais especial?

A Europa é um continente com um charme muito particular. Podia falar-te de Paris, Londres, Florença, Madrid, Estocolmo, Budapeste, Praga ou Istambul. Mas as minhas experiências mais inesquecíveis foram quando passava os verões viajando de comboio de mochila às costas. Acho que é uma experiência inesquecível e conheci imensos brasileiros nessas minhas viagens. Aliás…conheci muita gente de muitos sítios nessas minhas viagens. É a melhor forma de conhecer os lugares e as gentes. E quando se viaja assim é como se experimentássemos a toda hora aquela sensação libertadora de sentir o vento na cara, sabes?

Como foi a reação do público ao livro? Quando ele cruza o Atlântico? 

O feedback tem sido muito bom mas – talvez me arrisque a ser mal interpretado – eu encaro o meu trabalho de forma muito pessoal. O livro – à semelhança de qualquer outro projecto relacionado com o blogue – foi algo que fiz por paixão. Qualquer motivação mais comercial esteve sempre subordinado a um sentido conceptual cuja realização não está dependente do volume de vendas ou de qualquer outro indicador financeiro. Eu não larguei director de arte da Leya em Portugal, o Rui Garrido, durante todo o processo. Eu ia ter meu nome gravado num objecto e não podia viver com a ideia de não me sentir identificado com ele. No fundo, essencialmente, eu quis dar um corpo ao meu trabalho. Um corpo bonito. Fiquei muito contente no momento em que toquei aquele objecto cujas propriedades (formato, textura, conteúdos e capa) haviam sido decididas e escolhidas por mim. Eu não comecei O Alfaiate Lisboeta para mudar minha vida profissional ou ter pessoas me reconhecendo na rua. Eu iniciei este blogue porque achei que poderia ser mais feliz tendo essa ocupação. E é esse o sentido que encontro nela. E é na felicidade que encontro em cada um desses momentos que encontro o sentido para continuar fazendo isto. Espero que, em breve, o livro possa estar também disponível no Brasil e, para além da equipe do Rio etc, haja mais gente daí podendo tactear o meu livro. Ia ficar muito contente.

Logo no início do livro, você diz que sua vontade sempre foi a de escrever um livro de crônicas. Depois é que a fotografia entrou na história. Afinal você se rendeu à ideia de que uma imagem vale mais do que mil palavras, de fato?

Eu acho que me rendi a algo que ainda não tinha sido completamente evidente para mim. Que a estética está tão presente na minha forma de estar e olhar o mundo que, profissionalmente falando, dificilmente lhe poderia escapar. Minha experiência literária se reduzia a algo tão simples quanto os postais que eu sempre gostei de enviar à família e amigos quando viajava. E sempre me deu um prazer um acrescido pensar que, do outro lado, estava alguém me era querido vibrando com minhas aventuras ou se rindo de meus disparates. Por outro lado eu sempre fui muito sensível ao que me rodeia. No fundo, este trabalho de fazer fotos de gente a quem me acabo de apresentar é, tão simplesmente, a continuidade daquilo que eu fiz toda a minha vida: reparar nas pessoas. Eu simplesmente dei um outro passo. Comecei a gravar e a partilhar essas imagens que eu já guardava para mim. Só com o tempo me vim dando conta do quão sentido tudo isto fazia afinal.

A inspiração pras crônicas vem na hora do papo ou de frente pra tela do computador? 

Já me ocorreu de tudo. Posso estar a fotografar-te e sentir, naquele preciso momento, o entusiasmo infantil de quem já sabe o que vai escrever ou, dias mais tarde quando estou à beira de publicar a tua foto no blogue, sentir ali uma inspiração repentina que me leva a querer acrescentar algo ao teu retrato.

Qual é a sua rotina? Sempre anda com a câmera a tiracolo e a mente atenta nas ruas ou reserva dias específicos pra isso? 

Não tenho propriamente uma rotina. A ideia é que minha câmara me acompanhe para, caso eu me cruze com uma dessas pessoas pelas quais me sinto inspirado, poder abordá-la e fazer um retrato.

Quando é que os cariocas vão posar pras suas fotos? 

Na verdade eu já fotografei cariocas há uns três anos mas, juro-te, não deve haver muitas cidades onde tenha tanta vontade de regressar como o Rio.

Olhando as fotos do RIOetc, na internet ou no livro impresso, você vê algum diálogo entre os estilos daqui e daí? 

A forma como nos vestimos não é, afinal, mais do que uma forma de nos comportarmos e, no limite, uma forma de comunicarmos com os outros também. O que senti quando visitei vossa página pela primeira vez e, de forma mais sublime, quando folheei vosso livro, foi precisamente esse “salero” carioca. No fundo, essa representação exótica e charmosa que todo o mundo tem do Brasil e, de forma particular, do Rio de Janeiro. Lisboa é, de alguma forma, uma representação relativamente tropical num continente como a Europa. Há, seguramente, muitos pontos em comuns entre as duas cidades. Sabes que um dia fotografei um casal de namorados turco em Lisboa (chamei ao post “Istambul no Rossio”) e houve uma moça me pedindo que corrigisse o título do post porque, insistia ela, aquela era a calçada de Ipanema? Dizia ela que estava vendo por trás o Hotel Copacabana Palace. O que ela não sabia é que essa calçada de Ipanema é precisamente, aquilo a que se chama de calçada portuguesa e que aquilo que ela julgava ser esse hotel era afinal a Pastelaria Suíça, no Rossio, uma das mais conhecidas praças lisboetas. Se precisasse de prova maior de semelhanças entre as duas cidades… (risos)

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