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No ArtRua 2013: Joana Cesar

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Tiago Petrik

[Tiago Petrik]

Era uma vez uma menina de 12 anos que adorava escrever. Como todas as da sua idade, alimentava um diário com as coisas que afligiam seu coração. Mas a menina tinha um irmão mais velho, que jamais poderia saber o que se passava ali dentro. Aliás, ninguém poderia saber. Por isso, ela criou um código.

E aí, se identificou com a história? Já fez isso também?

Pois foi assim que começou tudo para a artista Joana Cesar. A grande diferença é que em vez de desenhar uma lua para substituir a letra A, uma estrela para substituir o B, e assim por diante, Joana criou praticamente um novo alfabeto. “Eu tinha pretensões literárias, escrevia e lia sem parar. Mas sempre tive dificuldades de mostrar o que produzia. Me tornei uma figura fechada, tinha dificuldades em me relacionar com as pessoas”, conta Joana. Essa casmurrice virou uma marca: “Tive que fazer terapia, e faço até hoje. Descobri que, em vez de tentar melhorar esse defeito, ele poderia virar um caminho. Eu mostro o que sinto. Mas só a casca”.

Joana sustenta a tese de que seu trabalho só acontece, de fato, porque ela não gosta dele. A autocensura é tamanha que ela sobrepõe várias camadas de colagens, em que conta tudo sobre si mesma, mas deixando escondidinho. Tem pedaços de cartas, do diário, de fotos, misturados a papéis que muitas vezes ela acha nas ruas. “Se a pessoa tirar essa casca, está tudo lá. Acharia sensacional receber a notícia de que alguém descobriu tudo”, diz.

E não é que alguém descobriu? O código de Joana, aquele dos diários, tinha ido parar nas ruas. Ela passou a escrever frases sobre o que sentia em grandes muros, como o do Jockey e o do CAp/UFRJ. Coisas como um recado bravo para um menino com quem estava saindo, e uma bronca nunca dada de verdade no pai. “Encontrei uma maneira de não enlouquecer”, avalia. Um dia, foi procurada por um matemático, Paulo Orenstein, que havia decifrado seu alfabeto particular. “Fiquei amarradona”, confessa. Joana foi visitar Paulo numa sala de aula, onde viu o quadro-negro totalmente preenchido por fórmulas numéricas indecifráveis para ela. “Senti o que as pessoas devem sentir pela minha arte, e convidei o Paulo para pintar”. Os dois fizeram um painel no Casa Cor, cheio de equações (de Paulo) e aflições (de Joana).

Mais uma vez, agora ela se põe à mostra do público. E duplamente. Joana terá obras suas expostas tanto no ArtRio como no ArtRua, de 5 a 8 de setembro. A feira de arte acontece no Píer Mauá, enquanto o evento paralelo vai rolar nos galpões da Vila Olímpica da Gamboa. A gente se vê lá!

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