Ir para conteúdo

Muito prazer, Filipe Costa

Fotos:
|
Texto: RIOetc

Fotos: Juliana Rocha
[Fernanda Cintra]

 

Filipe Costa é fotógrafo, mas pera lá que nem sempre foi assim. Apesar do riso solto e do jeitão de bon vivant, foram necessários seis períodos de Direito e 53 dias em Martim de Sá para que, finalmente, assumisse uma carreira que fizesse seu coração bater mais forte. Daí foi contar com o apoio de uma tia querida de Brasília, e transferir a matrícula da Cândido Mendes para o Ateliê da Imagem, a vida do Centro para a Urca. Parece que o “drama” valeu a pena: atualmente Filipe é dono de nada mais, nada menos, que um premiado endless summer carioca.

“Terra do Verão”, seu primeiro e talvez mais importante projeto autoral até então, é um registro íntimo de quem vive a praia em seu dia a dia. Não à toa, Filipe senta nas areias de Ipanema como quem chega no sofá de casa e reclama da altinha alheia como quem fala mal de um vizinho de muito tempo. “Não aguento esse joguinho murrinha que não deixa a bola no ar”, resmunga. A gente deixa, porque afinal são 24 anos de praia e 8 só de Posto 9. Nesse meio tempo, incontáveis altinhas e uns tantos amigos, hoje registrados na série de fotografias, colocando a bola pra cima, tomando uma chuveirada, observando o mar. Uma delas, inclusive, é campeã mundial do concurso Metro Photo Challenge 2012; recebeu “menção honrosa pelo trabalho superior” da revista americana especializada Photographer’s Forum e será, muito em breve, publicada no livro “Best of Photography 2013”; além de exposta na Califa que um dia Hugh Holland fotografou seus z-boys com o mesmo misto de brejeirice e paixão.

A verdade é que na cabeça do rapaz a tal terra do verão sempre existiu. Desde lá de trás, quando fotografava o 9,5 jogando bola munido apenas de uma tímida power shot, já sabia: esse contraluz de Ipanema é mesmo de tirar o fôlego. E, sem neuras, pedia pra galera dar o melhor passe, uma bicicleta, um voleio, pra que então conseguisse o melhor clique.

Ao fim da etapa nacional do concurso, Filipe recebeu como prêmio um destino à sua escolha dentro do país. Reservou passagens para o Acre já planejando emendar a viagem no Peru, onde viveu um dos momentos mais fortes desde a mudança profissional. Nada como caminhar sozinho pelas ancestrais ruínas de Machu Picchu para agradecer ao universo conspirando a seu favor. Ironicamente, tanta expertise em verão o levou para dois dos lugares mais gelados do planeta: Islândia e Groenlândia. Recém-premiado internacionalmente, fez as malas e foi assistir a outro céu emocionante, num frio de doer. Certo dia deixou que todos fossem dormir em suas cabanas, e ficou lá, esperando o famoso fenômeno óptico aparecer. Era quase dia seguinte quando finalmente, eis que surge em toda a sua força uma inesquecível aurora boreal.

Mas nem só de aeroporto e mochila nas costas é feita a vida de fotógrafo. Filipe teve “belíssimas” experiências profissionais aqui no Rio, como gosta de dizer. A primeira, na  Reserva +, fotografava, entre outras coisas, as ruas do Arpoador e seus personagens, do jeito que o RIOetc gosta. E como boa concorrência é sempre bem-vinda, taí o registro pra quem se interessar. Em seguida, assistiu a outro fotógrafo, Calé, com quem aprendeu a administrar vontades diferentes, ora mais comerciais, ora mais autorais. O fato é quem com o tempo tanto os freelas quanto a vontade de se expressar tomaram corpo, e não demorou muito para que seguisse sozinho.

Para tanta determinação taurina, haja trabalho, referência e inspiração. O interesse pela pintura, por exemplo, chegou intuitivamente, e apesar de ter largado uma faculdade na metade, Filipe gosta de estudar. Dia desses, no famoso Bar da Cachaça, ali na Lapa, arrematou um catálogo sobre Manet por apenas R$ 2. O Cachaça, aliás (intimidade é fogo, ele chama só pelo segundo nome), mais dia menos dia deve virar personagem. Nada tão chegado quanto Ipanema, vai, mas parece que o vento virou para imagens mais pesadas, que submergem de cenas sobre as quais o fotógrafo já não tem tanta proximidade. Nan Goldin, Diane Arbus e Walter Firmo são outras grandes referências.

O mais importante é encher o quadro de gente: dá uma olhada no portfólio, é uma multidão. Em uma série de retratos, por exemplo, ele indica “Nada humano me é estranho”; e em outra, “Babylon by Bus”, faz um clique discreto para captar um flagra espontâneo de quem pega a condução todos os dias. Coisa de quem já ocupou a cidade toda: Barra, Leblon, Copacabana, Flamengo, Tijuca, Grajaú, e se Deus quiser, futuramente, Santa Teresa.

Falando em Santa, há uma lista entusiasmada por novos projetos que tem o bairro como protagonista. O título “Temquêsubirparachegar” pede, além de uma nova série, um “samba enredo” – é, Filipe também escreve e toca violão. E ainda que siga procurando “Por onde anda minha Teresa?”, mais um título de projeto que está por vir, a gente sabe: nunca vai deixar de frequentar o 9 com a câmera nas mãos.

Comentários