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Kandinsky: tudo começa num ponto

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Gabriela Dore]

Hoje abriu para o público a exposição “Kandinsky: tudo começa num ponto”. Fomos convidados pela produtora Arte A para visitar a exposição e ver todo o processo de montagem ao lado do diretor geral e responsável pela concepção do projeto, Rodolfo Athayde, e dos curadores russos Joseph Kiblitsky e Evgenia Petrova.

O nome “Tudo começa num ponto” foi retirado do livro de Kandinsky. “Ponto e linha sobre plano”, de 1926, enuncia a atmosfera e ambientação da exposição: as origens e raízes de Kandinsky, suas inspirações e sua relação indissociável com a cultura russa, apesar de ter morado grande parte de sua vida no exterior.

Rodolfo contou que a frase remete à ideia de que tudo possui um caminho para seu desenvolvimento, um processo, e é dessa forma que a exposição se constrói de forma didática e autoexplicativa. Evgenia relembra que a frase que faz parte de sua teoria da composição artística obtém aqui um sentido alegórico e simbólico, do qual tudo possui um começo e um fim.

A exposição está dividida em cinco temáticas de forma cronológica, cada uma representando as origens e influências em seu trabalho como pioneiro do abstracionismo: sua relação com a cultura popular e o folclore russo; o universo espiritual do xamanismo russo e suas interpretações estéticas; sua vida em Murnau, na Alemanha, e as atividades do Grupo Cavaleiro Azul, primeiro grupo reunido em torno do expressionismo abstrato; o diálogo entre música e pintura e sua relação com o movimento da música dodecafônica, por exemplo, no uso da cor e a criação de ritmo nas composições pictóricas; e por fim os caminhos abertos pela abstração e artistas contemporâneos a sua obra.

Estar na montagem e ter acesso a essas obras fora da parede aproximam o espectador desse universo íntimo e mais real de seu trabalho. Não só pelos objetos que complementam a exposição – como peças de rituais xamânicos que serviram de fonte de inspiração pra Kandinsky e outros objetos tradicionais russos -, mas também porque fora do pedestal pode ser enxergada e lida como objeto saindo do seu status de obra de arte e analisada como uma pintura produzida por alguém com muita sensibilidade e estudo, atrelado a todo um universo e contexto pessoal.

Rodolfo lembra que Kandinsky foi um grande teórico de arte, fato não muito comum entre pintores. Era escritor assíduo sobre seu trabalho, além de um eterno estudioso das questões plásticas, estéticas, cromáticas, simbólicas e espirituais. Longe de ser demasiadamente intelectualizado, Kandinsky acreditava no ideal da arte como fator transformador da sociedade. Foi assim que passou a desenvolver pintura em louças e cerâmicas – presentes na exposição -, pois acreditava que dessa forma a arte poderia ser acessível aos mais humildes e desfavorecidos de uma educação artística.

É a partir desse princípio que Evgenia Petrova desenvolve o projeto curatorial: com a organização de objetos do seu cotidiano é possível estabelecer relações entre o que Kandinsky pintou e de onde vêm suas influências, tornando a exposição quase autoexplicativa. A arte deve ser acessível, e é também a partir dessa premissa que Rodolfo fala sobre a exposição com muita emoção e carinho pelo seu trabalho como diretor e, sobretudo, de sua paixão pela arte.

Tudo começou quando Rodolfo realizou a exposição Virada Russa, também no CCBB. Rodolfo, que é fluente em russo, pegou um avião e bateu na porta de Evgenia com uma ideia e o sonho de trazer arte russa para o Brasil. “Acho que ela foi com a minha cara”, confessa. Para ele, a exposição de Kandinsky é uma continuação dessa parceria e também dessa história que ele escolheu contar. Afinal, existe uma ligação clara entre os primórdios da abstração e o desenvolvimento da arte concreta no Brasil. E alguém precisava fazer esse paralelo histórico. Não à toa, “artistas como Marcos Chavez ficaram de joelhos, quase como uma performance, ao ver obras do Malevich pela primeira vez no CCBB há seis anos atrás”, relembra Rodolfo.

Evgenia lembra que a própria existência e conservação de muitos quadros de Kandinsky só foram possíveis pela dedicação de museólogos em preservar esse legado durante os anos mais controversos e autoritários da ex-URSS.  Os artistas mais vanguardistas tinham suas obras consideradas “degeneradas” destruídas e eram punidos. Foi com o objetivo de salvar as artes de vanguarda que os museus resolveram não catalogar as obras no inventário com a sigla G de pintura, mas com G+B (no quadro representadas por AC), sigla designada a obras de 3ª categoria e entendidas como “lixo” (é possível ver esse detalhe na parte de trás de cada quadro). Sendo assim, catalogaram e colocaram em armários trancados de forma que a comissão de fiscalização não tivesse acesso e apenas checasse a partir do inventário. Atrás de algumas obras também é possível ver o histórico de vida de todos os lugares por onde o quadro passou – cada lugar é identificado por uma etiqueta.

Foram emprestadas para a exposição obras de países como Rússia, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Suiça, Itália e França, um feito difícil pela duração de dez meses da exposição. “Kandisnky: tudo começa num ponto” conta com mais de 100 obras, sendo 40 de Kandinsky e outras de seus contemporâneos que possuem relação direta com seu trabalho em termos conceituais e estéticos.

A exposição é um convite a mergulhar nas raízes do abstracionismo e do expressionismo abstrato, o universo pessoal de Kandinsky e sua explosão de cores.
Então dá o play na seta e deleite-se.

Kandinsky: tudo começa num ponto fica exposto no CCBB do Rio de Janeiro até 30 de março.

Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro
Funcionamento: de quarta a segunda, das 9h às 21h.


Fotos:Juliana Rocha

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