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Hoje o Rio morre um pouco

Fotos:
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Texto: RIOetc

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Pra quem não é daqui, talvez seja difícil entender. Mas hoje o Rio morre um pouco. Foi às ruas a última edição impressa do “Jornal do Brasil”. Tá certo que há tempos já não era o velho JB. Mas, como a esperança é a última que morre, a gente sempre aguardava uma reviravolta que fizesse, enfim, tudo ser como antes. Agora o jornal só vai “sair” online. Os atuais donos da empresa tentam vender a idéia de que essa é uma atitude alinhada aos novos tempos. Chegam a argumentar que fazem isso em respeito ao meio ambiente. Sem forças, a gente nem ri da piada. Por isso, aqui estão duas sugestões de leitura – quem quiser pode tratar como prece. A primeira é a coluna do Joaquim Ferreira dos Santos publicada ontem, no Globo (aqui para assinantes). E a outra é o poema “A casa do jornal, antiga e nova”, do Drummond, que durante décadas emprestou sua pena ao falecido JB. Foi escrito em 1973, quando o jornal se mudou do antigo prédio da Avenida Rio Branco para o da Avenida Brasil, vislumbrando um futuro glorioso.

“Rotativa do acontecimento
Vida fluindo
pelos cilindros,
rolando
em cada bobina.
Rodando
em cada notícia.

No branco da página
explode.
Todo jornal é explosão.

Café matinal
de fatos
almoço do mundo
jantar do caos;
radiofoto.

Restruturam-se os cacos
do cosmo
em diagramação geométrica.

A cada méson
de microvida
contido
na instantaneidade do segundo
e vibração eletrônica
da palavra-imagem
compõe
decompõe
recompõe
o espelho de viver
para servir
na bandeja de signos
a universalidade
do dia.

A casa da notícia
com degraus de mármore
e elevador belle époque
alçada em torre
e sirena
chama os homens
a compartir
o novo
no placar nervoso
dos telegramas.
Olha a guerra,
olha o reide,
olha o craque da Bolsa,
olha o crime, olha a miss,
o traspasse do Papa,
e o novo cisne plúmbeo
do Campo de Santana.

Fato e repórter
unidos
re-unidos
num só corpo de pressa,
transformam-se em papel
no edifício-máquina
da maior avenida,
devolvendo ao tempo
o testemunho do tempo.

Na superfície impressa
ficam as pegadas
da marcha contínua:
letra recortada
pela fina lâmina
do copydesk;
foto falante
de incrível fotógrafo
(onde colocado:
na nuvem? na alma do Presidente?);
libertário humor
da caricatura
de Raul e Luis
a — 50 anos depois —
Lan e Ziraldo.

Paiol de informação
repleto, a render-se
dia e noite
à fome sem paz
dos linotipos,
casa entre terremotos
óperas, campeonatos
revoluções
plantão de farmácias
dividendos, hidrelétricas
pequeninos classificados
de carências urgentes,
casa de paredes de acontecer
chão de pesquisa
teto de detetar
pátria do telex infatigável
casa que não dorme
ouvido afiado atento
ao murmulho mínimo
do que vai, do que pode
quem sabe? acontecer.

Um dia
a casa ganha nova dimensão
nova face
sentimento novo
diversa de si mesmo
e continuamente
pousa no futuro
navio
locomotiva
jato
sobre as águas, os caminhos
os projetos
brasileiros
usina central de notícias
cravada na estrela dos rumos
N S L O
em cobertura total
da vida total:
conhecimento
comunicação.
Todo jornal
há de ser explosão
de amor feito lucidez
a serviço pacífico
do ser.”

PS: Pra quem quiser uma terceira sugestão de leitura: hoje, às 18h, tem lançamento do livro “Jornal do Brasil – Memórias de um secretário – Pautas e Fontes”, de Alfredo Herkenhoff, editor do blog Correio da Lapa. Será no Nova Capela e terá distribuição do último exemplar impresso.

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