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Experiência Acidum: o realismo fantástico

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Juliana Rocha]

Perguntei por Tereza e Robézio a um senhor sentado na entrada do prédio no Rio Comprido. Ele me apontou uma rampa larga e cinza e disse que era só subir.

Olhei pela fresta da primeira porta. Trajando um jeans colorido organicamente pelo seu trabalho de todo dia, meu conterrâneo – cearense! – veio em passos apressados abrir caminho pra que eu entrasse no ateliê. O espaço, gigantesco, é a residência temporária do casal de Fortaleza que integra o coletivo de arte urbana Acidum. Convidados pelo Instituto Rua, eles estão no Rio experimentando e produzindo sua exposição individual no Art Rua, que se inicia na quinta, 11 de setembro.

Tudo começou com Robézio e quatro amigos, em 2006. Inspirados por coletivos musicais, como Massive Attack e Daft Punk, seu objetivo era a experiência mais livre e híbrida da arte, que escapasse a definições limitadoras. Seus fluxos de produção enredavam entre xilogravura, pintura, performance e videoarte, e a autoria de cada trabalho era omitida. Daí Acidum, a diluição de estéticas e ideias distintas numa nova linguagem. Os cinco anos do coletivo foram celebrados com um livro, o Entregue às Moscas.

No meio disso apareceu Tereza. Estudante do IFCE – Artes Visuais – ela participava do Selo Coletivo, e os dois projetos acabavam sendo convidados juntos pra várias ações. Ela foi ficando cada vez mais presente, enquanto os integrantes iniciais foram se afastando… Daí que esse casório no amor e na arte fez bem pra proposta de mobilidade do grupo – entre São Paulo, Olinda, Salvador, Cabo Verde e outros intercâmbios a que têm sido convidados nos últimos anos, dá pra dizer que a casa deles mesmo é o mundo. E um e o outro.

E como faz pra criar junto?

Ele diz que arriscam sempre e não têm medo de quebrar e reconstruir infinitamente o próprio estilo. Ela me mostra um caderno onde jogam entre si em desafios de desenhos e aponta uma tela onde cada um fez um personagem e depois interferiram um no do outro… Não existe uma fronteira, e isso que é o importante a ser transmitido. Eles agregam a energia de tudo que envolve a produção de seus trabalhos, desde objetos dos locais onde estão, até a vivência com trabalhos de outros artistas que encontram no caminho. A obra começa na vivência.

Entre orgânico e geométrico, regular e irregular, spray, acrílica, bordado, pigmento, serigrafia, metal, madeira… o Acidum estuda a matriz que criou a nossa história, a tradição visual do folclore, a influência africana, árabe e indígena. Eles dividem seus trabalhos em fases, como por exemplo Os Cariris, em que cores mais sóbrias aproximam os desenhos à estética das xilogravuras; Os Caretas, recuperando a carga histórica de uma festa tradicional e do arquétipo da máscara; e Os Bufões e Brincantes, trabalhando a desconstrução do corpo e a relação entre linha e movimento.

Seus personagens voadores planam numa desproporção lúdica, misturando histórias pessoais, imaginário e temas contemporâneos. Nesse momento, Robézio e Tereza estão mergulhando em pintores expressionistas abstratos, como Rothko, discutindo cor e textura. Mas Tapies, Basquiat, Bispo do Rosário, Frida Kahlo, Zerbini e Oiticica são algumas das referências que eles citam.

Já reparou num painel colorido ali na rua do Ouvidor com a rua do Mercado? É o Tezeu, que pintaram este ano a convite da Galeria Progetti. Dá pra ver mais um pouquinho do trabalho deles nas fotos do Henrique Madeira, que já apareceu aqui também, com quem estão fazendo a vivência aqui no Rio. Deixo vocês com esse video do projeto #NightGraffiti e nos encontramos na viagem do Acidum no próximo fim de semana, no Art Rua. Inté!

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Fotos: Juliana Rocha

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