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Ele vê letras

Fotos:
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Texto: Haydée Lima

Fotos: Tiago Petrik

[Bruna Velon]

Marcio SWK entrou numa com o alfabeto. O grafiteiro desenvolveu uma espécie de Transtorno Obsessivo Compulsivo: “vejo letras dentro de letras”, confessa. O diagnóstico é agravado pela adicção a cores fortes e formas geométricas. E um quê de psicodelia. Seus impulsos criativos começam com A, de arte abstrata. “Mano, teu piece tá muito doido”, ouvia dos amigos. Passa por F, de “arte é foda”, sinônimo de difícil. O W é de wildstyle ou de What the fuck?, as pessoas perguntavam sobre suas obras. Mas ele resolveu encarar os sintomas e começou uma terapia: pintar telas. Neste 20 de março, às 18h, ele dá um grande passo em seu tratamento prescrito com substâncias tarja-preta, como spray, tinta, verniz, giz, entre outros.  SWK vai à Galeria  Homegrown para assumir publicamente: “Eu vejo letras”.

Esse é o nome da sua primeira exposição individual, recomendada sem restrições, que conta com 14 telas (de R$ 250 a R$ 8 mil) pintadas em seu QG, no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. SUK, da época de pichador, é cria do bairro – que por sinal virou um dos hotspots da arte urbana carioca graças a ele e seus comparsas do FBC e SantaCrew. E, assim, ele dá um descanso pra Dona Maria e vira o orgulho da família. “Quando eu era moleque dava muito problema pra minha mãe com a pichação, onde me envolvi por muito tempo”, conta ele aos 36, com viagens a Europa, Estados Unidos e até a Abu Dhabi no currículo, lugares onde participou de eventos ao lado de figurões do graffiti mundial.

“Quando vi que através do graffiti podia continuar assinando meu xarpi (sic) de outra forma, foi amor à primeira vista. Aqui no Rio poucos fazem letras. Fui pro exterior e lá vi o que significa mesmo essa cultura, o respeito e a admiração dos verdadeiros escritores pelo wildstyle. Só quem é entende!”, orgulha-se o artista.

Para entender o que parece ilegível: essa vertente do graffiti é um megadesafio para os escritores urbanos, uma das mais complexas e difíceis maneiras de se fazer letras e que está na raiz da história da arte de pintar muros. E são quase indecifráveis para um olhar desatento. Letras e formas, até em 3D, se misturam numa trama de muitas cores. Por isso, os artistas que conseguem se destacar nesse estilo podem bater no peito e dizer: Respeito é pra quem tem!

SWK é saudoso ao falar de quando começou, há 14 anos, época em que mal se falava bem do graffiti. As redes sociais não eram protagonistas, também, no fazer arte. O postar- curtir-compartilhar mudou bastante a maneira como a arte urbana passou a ser feita e difundida mundo afora (vale essa leitura).

“Isso mudou muito. Se fazia graffiti sem imaginar se iria sair no jornal, se ganharia dinheiro, quantos likes teria a foto. Muitos esquecem do verdadeiro sentimento de ir pra rua. Quando faço um rolé, faço pra mim, pra minha satisfação e o que acontecer de bom é fruto do meu trabalho. Eu pintava por pintar, nunca imaginei sobreviver de arte e viajar pelo mundo. Às vezes penso que é um sonho”, diz SWK.

Como divulgou o amigo e artista urbano Guga Liuzzi no Facebook: “A exposição do Marcio SWK vai ser braba! Além de fazer uma das melhores letras do graffiti, conseguiu passar da rua pra tela tranquilo, sem ficar um leão do zoológico”. Aparece lá!

Serviço:
Homegrown
Rua Maria Quitéria, 68 sobreloja – Ipanema. Tel: 2513-2160
Abertura: 20 de março, 18h
Horário de visitação: Seg-sex, 10h-20h; Sab, 12h-18h
Até 11 de abril
Grátis

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