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Comendo tinta: uma década de graffiti

Fotos:
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Texto: RIOetc

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Fotos: Tiago Petrik

[Bruna Velon]

Um jovem de 21 anos com disposição para entrar em favelas, desenrolar com traficantes, ficar à espreita no Centro do Rio durante a madrugada e até a pular muro de manicômio para se esconder da polícia. De 2005 a 2010, o cineasta Douglas Clayton (Filme Ibiza) registrou sua saga sobre a arte urbana carioca, ostentando uma irresponsável ousadia característica dos 20 e poucos anos. Hoje, mais prudente, ele diz que “não teria coragem de fazer nada daquilo de novo”, mas vai retomar tais histórias para o documentário Comendo Tinta,  que promete ser um dos mais completos filmes sobre o tema.

“Não é um documentário sobre o graffiti. É a história do Rio de Janeiro pela ótica da arte e da vida dos grafiteiros. A cidade sofreu muitas transformações nos últimos dez anos e eles serão o fio condutor dessa narrativa”, revela Douglas, na esperança de lançar o filme até o fim de 2016. A produção agora está em fase de captação de recursos para recomeçar as gravações “com equipamentos de gente grande”.

O jovem diretor estava sempre onde o spray estava. Nas favelas antes da pacificação, nos mutirões de graffiti, nos encontros de MCs, no Complexo do Alemão, em Caxias ou na Zona Sul.  Entre os personagens estão os veteranos Acme, Bobi, Kajaman, Eco, Ment e Akuma, além dos depoimentos de artistas, antropólogos e políticos como Marcelo Yuka, Luiz Eduardo Soares e o ex-governador Sérgio Cabral.

“O ponto de partida será a transformação na vida dos entrevistados, tanto no lugar onde moram, quanto na carreira. Pegamos o boom do graffiti no Rio, de 2008 a 2010. O interessante é que não havia uma disputa egoísta pela fama. Os precursores do movimento estavam sempre levando algo de volta para a comunidade e para os próprios artistas”, pontua Douglas, tomando como estudo de caso o Meeting of Favelas, que chegou à sua décima edição no fim de semana passado – e onde fizemos as fotos deste post.  E o que mudou de lá pra cá?

“A primeira geração de grafiteiros do Rio veio da pichação. Aliás, no filme a gente não quis focar nisso, mas filmamos de madrugada, um cara escalando um prédio de 15 andares e outro com cordas na extinta Perimetral. Era ego, perigo. Mas, hoje em dia, há os artistas de escolinha também. Há muitos jeitos de se começar e muitos caminhos a seguir, cada um com uma motivação diferente ”, define.

As políticas públicas também  influenciaram o graffiti de maneira decisiva. “Antes das UPPs, se não tivesse invasão de outra facção, era seguro. Hoje em dia, você pede autorização para filmar para a associação de moradores, mas no fundo continua sendo o tráfico, só que de maneira menos explícita”, revela o diretor do filme, também fazendo referencia à questão da legalidade. “Todos os políticos se mostram a favor, desde que haja uma autorização. Arte de rua e vandalismo têm diversas nuances, mas acredito que os artistas também prefiram fazer de forma legal”.

Agora é aguardar para ver o Rio e os artistas em momentos diferentes, nessa década que marcou a arte urbana carioca. É como diz uma das falas das mais de 100 horas de gravação até o momento: “o negócio é comer tinta”.

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