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As viagens da Ana

Fotos: Tiago Petrik
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Texto: RIOetc

Dia 13 de maio, na Kalimo, teremos o workshop de Crônicas de Viagem com a Ana Schlimovich. Ela vai apresentar ferramentas de comunicação para contar uma viagem. Conversamos sobre as aventuras e destinos da Ana por esse mundão afora!

Como você começou a fazer crônicas de viagens?

Ana: Eu estudei publicidade e comecei a trabalhar como redatora publicitária. Sempre gostei de escrever e, com meus primeiros salários, eu aproveitava pra viajar e comecei a escrever sobre as viagens, pra mim mesma. Até que um dia resolvi enviar pra revista Lugares, a principal argentina de viagens, um relato de uma viagem que fiz para o Equador. Isso em 2001. E a revista publicou em uma seção que se chama “Conto a minha viagem”, para amadores. Entrou inclusive com as minhas fotos, eu tinha acabado de começar a estudar fotografia. A segunda publicação também foi nessa revista, na mesma seção, sobre a Tailândia. E um dia eles me chamaram pra viajar, pra fazer um teste. Fui pra esse lugar que se chama Los Esteros del Iberá, na Argentina. Fiz uma prova e um relato e me contrataram como freelancer. Começou a ser um trabalho de repente. Depois eu comecei a oferecer pra outras mídias. Quando entrou a Embaixada do Brasil na Argentina, por exemplo, eles viram uma reportagem que tinha saído sobre o Belém do Pará e me chamaram pra ser a fotógrafa das viagens de jornalistas que a embaixada organizava. Nessa época, as pessoas ou escreviam, ou fotografavam, não era como agora. E isso me ajudou bastante, pois eu fazia as duas coisas, então já tinha a matéria completa. Outras publicações começaram a chegar até mim. A Time Out fez um guia do Rio e me chamou pra fotografar. Fiquei no Rio três meses fazendo esse guia e pra mim foi uma viagem. Foi nesse momento que decidi morar aqui.

Você que escolhe seus destinos ou as publicações que determinam?

Ana: Depende. Às vezes a revista chama para ir pra algum lugar, como um convite, mas cada vez mais são propostas minhas. O sonho era justamente esse: eu falar “eu quero ir pra Alter do Chão” e a partir daí oferecer pra revista, eles dizerem que têm interesse e então eu começo a produzir a viagem pra vender.

E como você escolhe esses lugares?

Ana: Palpite! Sempre foi assim, uma vontade. A primeira, do Equador, foi assim. Eu morava na Argentina e ninguém ia pro Equador, não sabíamos nada, mas eu sentia. Depois ainda voltei duas vezes. A Tailândia também, ninguém ia. Eu fui na época do filme A Praia e depois daquilo explodiu. Hoje já não deve ter nada a ver com o que eu conheci. E geralmente funciona, quando eu sinto que é ali… Eu gosto de lugares menos conhecidos, que ainda mantém os costumes, lugares pequenos, não tão turísticos, mesmo que depois eles comecem a ser. Eu inclusive tenho um conflito com isso, porque não quero que o lugar perca as características próprias que o turismo acaba engolindo. É um conflito. Por isso cada vez mais eu tento fazer relatos menos turísticos e mais sociológicos ou sobre um assunto particular: cultural, gastronômico etc, pra dar uma virada, senão acaba sendo muito do mesmo.

Algum lugar você não gostou de ir?

Ana: É raro não gostar. Bangkok eu tive uma péssima experiência, clonaram meu cartão de crédito e fizeram muitas compras. Foi horrível, fiquei assustada. Mas eu acho que, mais do que gostar ou não, valem as experiências que eu tive. Sempre tento achar algo interessante.

Você tem algum lugar especial?

Ana: Um monte! Rs Cada vez mais. Ultimamente, como eu escolho os lugares, são todos especiais pra mim. Por exemplo, Alter do Chão, eu já vinha ouvindo sobre e realmente foi incrível. A vivência, tudo! Dá vontade de morar.

Você já foi pra uma viagem planejando um certo tempo e acabou ficando muito mais?

Ana: Sim! Ultimamente acontece bastante. No Chile, eu ia ficar um mês e fiquei três. A do Equador também. Foi uma viagem que eu comecei a trabalhar como tradutora dos tours na Floresta Amazônica. Em Boipeba eu quero voltar pra morar de fato. Conheci tarde já, em 2013, fui fora de temporada e bateu. Já voltei  4 vezes e da última fiquei  4 meses. E lá eu tive uma experiência diferente. Eu sempre sentia que eu ia aos lugares pra tirar fotos e depois essas pessoas não as viam. Quem consumia era um público de fora que não tem nada a ver com eles. E eu me sentia mal por isso, mesmo tentando enviar as fotos. Então eu decidi fazer um projeto que era dar uma foto no lugar de tirar uma foto. Fiz uma exposição deles pra eles mesmos, porque a sensação que eu tenho é que as pessoas às vezes não se enxergam e não têm ideia do quão bonito é o lugar. Hoje eu quero muito mais preservar o lugar do que divulgar. E acho que preservar é também conscientizar quem mora lá. Porque as minhas viagens mais interessantes, mais do que a paisagem e a beleza, tem a ver com as trocas que eu tive com as pessoas.

Qual foi sua última viagem?

Ana: São Pedro de Atacama, no Chile. Fui em altíssima temporada, no meio de janeiro, cheio de gente, lotado. Mas aconteceu uma coisa louca: lá existe o inverno antiplânico, que é a estação de chuvas que dura uma semana. Geralmente é em fevereiro e março, mas, dessa vez, foi em janeiro, na semana que eu fui. Então no deserto mais árido do mundo eu peguei uma chuva pior do que o Rio em março. E, no fim, a matéria toda girou em torno da forma de ser das pessoas no deserto. Em um dos passeios, em uma 4×4, como tinha chovido muito, o caminho tinha sido destruído. Achamos que teríamos que voltar, mas o cara da caminhonete, com uma pá, começou a fazer outro caminho. A sensação foi que lá você tem que ser muito guerreiro. Ou você faz seu caminho, ou fica pra trás. Essa é a filosofia do deserto.  Aí que eu enxerguei a alma das pessoas. Isso acabou sendo o eixo do relato: a luta permanente por sobreviver no deserto.

E a próxima viagem? Já sabe?

Ana: Olha, minha próxima viagem vai ser um filho, que é A viagem. Tô grávida de 3 meses! Rs Por enquanto fico no Rio, estou terminando um livro e depois vou morar no Chile. O livro é uma seleção de crônicas e relatos do Rio de Janeiro que eu publiquei pro blog do jornal argentino La Nación durante 4 anos. É uma viagem pelo Rio, pelo olhar de um estrangeiro, mas que mora aqui, com coisas que um turista não pega de primeira.

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