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Arte urbana com crowdfunding analógico

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Tiago Petrik

[Bruna Velon]

Subindo a Rua do Riachuelo, passando o ponto de ônibus, na altura do hipermercado, na esquina da lanchonete, você vira à direita. O olhar que desviava do tráfego intenso de gente é captado pela calmaria. A luz do dia, demasiadamente clara para a vista preguiçosa da manhã, ganha uma aura verde das árvores e está mais fresco. Apesar de ser chamada de avenida, a via principal do Bairro de Fátima tem alma de ruela, de vila. Tem um vovozinho passeando com o cachorro, o dono do bar conversando com a moça da floricultura, tem passarinho cantando. Lá do fundo, vem uns sons animados de criança brincando. É uma praça, rodeada de Santa Teresa, onde termina o bairro que não é bairro.

“É o Bairro Peixoto do Centro”, define a ex-moradora mas sempre frequentadora Bruna Messina, ao comparar o oásis de Copacabana com o da Lapa.

Ramique Mello mora lá há vinte anos e cansou de olhar para aqueles intermináveis degraus cinzas das escadarias que dão no bairro vizinho. Foi há três, quatro anos, que ele teve a ideia de fazer a subida de 127 graus menos sofrida e tediosa: “vamos pintar as escadas!”. Mas ninguém tinha dinheiro. Ideia pra gaveta. Mas em janeiro deste ano foi hora de botar a mão na massa e pintar uma notável Carmem Miranda, degrau por degrau (quem der play nas setinhas, sobre a imagem, vai ver também esta obra).

“Fiz um trabalho grande e resolvi desenbolsar o dinheiro para fazer a pintura. Nessa época a gente já tinha criado o site SerHurbano, então resolvemos lançar tudo junto. Em duas semanas já tínhamos pintado a escada, organizado um evento com DJs, banda, convidamos os amigos e tudo aconteceu, até uma jam session com os moradores ”, relembra orgulhoso.

A ação repercutiu, ganhou total empatia dos moradores e os nove “sereshurbanos” se empolgaram: Bruna Messina, Bruno Eppinghaus, Danilo Pena, Fabio Fantauzzi, Fernando Botafogo, Juliana Arruda, Maycon Almeida, Ramique Mello e Tallys Moreno começaram a expandir os projetos na área. Por isso, a história toda começa com a relação de pertencimento ao habitat deles, a rua, o bairro, para depois partir para as tantas interseções que criou – e para a próxima escada.

“Sugeriram que a gente pintasse o Silvio Santos. Sabia que ele já morou aqui?”, diz Bruna. Mas o morador da vez foi o grandíssimo Otelo, e a inauguração é este sábado (falamos disso também no RIOetc Musical desta semana). Numa forte articulação, todo mundo foi abraçando a causa. Os grafiteiros Mancha e Bony, a Coral Tintas, o primeiro apoio que o coletivo recebeu, os amigos e os amigos dos amigos. Foi um trabalho feito à muitas mãos. Fora a galera que vai passando e deixa pizza, engradado de cerveja gelada, nota de R$ 20, a economia de uma vida inteira em duas garrafas PET lotadas de moedas e até um modesto cigarro.

“Colocamos uma caixinha escrito “ajude aqui”. É o nosso crowdfunding analógico”, brinca Ramique, quase um relações públicas do Bairro de Fátima. “Eu escuto da janela de casa o pessoal comentando sobre a escada. Outro dia falaram que era uma pintura pra Copa. Eu respondi: não é da Copa, não! É uma pintura atemporal!!!”.

O resultado de tanta gente empolgada unida pela ideia de intervir e ocupar não podia ser diferente: o Serhurbano é um projeto que tem alma e é a longo prazo. Agora, além de Carmem e Otelo, todos os moradores se sentem ilustres e querem ajudar.

“As pessoas deixaram um papelzinho com nome e telefone pra gente entrar em contato, caso a gente precisasse. E já surgiram vários convites pra fazer o mesmo em Santa, no Grajaú e no Méier. O que estamos fazendo aqui é um protótipo para a gente saber como chegar nesse outros lugares, onde somos um corpo estranho. Mas precisamos também que os projetos sejam incentivados”, diz Bruna, já pensando na realização da próxima escada, na reforma do chão do parquinho do Bairro de Fátima, na vaga de carro para deficientes físicos, na faixa de pedestres colorida e na feira de trocas que vão promover entre os moradores.

Que sejamos todos mais Seres Hurbanos.

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