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Som & Pausa em 50 faixas

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Texto: RIOetc

[Tiago Petrik]

“O Rio de Janeiro continua lindo, mas não continua sendo. O público carioca é um dos menos curiosos, as suas casas de show são cada vez mais restritas. Mas por que só reclamar? Eu preferi inventar, abrir espaços, criar projetos… e foi delicioso”, conta o produtor Thiago Vedova. Seu parceiro à frente do Dia da Rua (entre outros projetos), o músico Qinho completa: “Quem nos guiará? Ninguém. Pavimentar a estrada com a própria mão, esta será a graça. Esta seria a liberdade, a independência real. Inventemos, pois.”

Os dois, e mais 48 personagens da cena musical carioca contemporânea, em maior ou menor grau de afinidade, compõem um mosaico afetivo/reflexivo sobre quem somos e para onde vamos neste palco. Uma coletânea (com direito a lados A e B) que forma o livro “Som & Pausa” (Ed. Guarda-chuva), organizado pela jornalista Fabiane Pereira, locutora da MPB FM. O lançamento é amanhã, às 19h, na Casa Ipanema. Um encontro que não se pretende definitivo, nem só de melhores ou mais importantes. Mas relevante para a compreensão da direção em que damos play.

Como diz a apresentação – e Thiago, Qinho e tantos outros ao longo do livro –, “o Rio de Janeiro vitrine que existiu no século XX não é mais o centro do jogo (…) Todos sabem que é necessário reinventar a cidade, e recriar as formas de estar juntos.” A publicação, que reúne artistas, criadores, jornalistas, pesquisadores e todo tipo de gente que respira música, tem textos “em forma de pequenos relatos, que vão do confessional ao fabulador, passando por parábolas, pela autoficção, por microensaios críticos, homenagens, entre outras  abordagens”. Como diz BNegão em sua página dupla, “existe uma frase, cunhada por amigos de geração, da qual eu gosto muito e com que me identifico: “Só som salva”. Eu não concordo com o “só”, mas enfim, que salva, SALVA. E eu sou uma das milhares de provas vivas disso”.

Outros também o são. Mas a cidade une os depoimentos, tornando o livro algo coerente como álbum; cada faixa é uma faixa, mas tudo junto faz mais sentido. Como lembra o pernambucano Jam da Silva, no Rio desde 2004, “a ginga e calor das ruas da cidade, as pessoas se encontrando, a proximidade com a natureza, tudo isso é fonte de inspiração. Alguns personagens especiais, como o simpático dono da loja de pianos da rua Arnaldo Quintela, 106, que me deixava tocar por horas, também me abriram horizontes e mostraram outras belezas do Rio.” Ou, como lembra Lucas Vasconcelos, “a música me levou pra transar em praias desertas e me enturmou em rodinhas de baseado em praias lotadas. O Rio é encontro e pura sorte. O Rio é o amor que eu sinto por quem cruza o meu caminho na Haddock Lobo às 2 da manhã depois de um ensaio que não rendeu nada.” Transitando de Marechal Hermes ao Arpoador, Marcela Vale declara que “o Rio de Janeiro pra mim é o ponto máximo de inspiração. Ele não é o único, mas acaba sendo a raiz dessa coisa toda.”

Mas certo é, como diz Márcio Bulk, do blog Banda Desenhada: “todos nós estamos lançando amadoramente nossas cartas, nossos dados. Sem grandes gravadoras, sem grande mídia, sem nada ou quase nada que nos resguarde e, por conta disso, meio marginais à la Sganzerla, meio malditos à la Macao, estamos fazendo um trabalho do caralho. E ponto final.”

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