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RIOetc Musical Yamandu Costa

Fotos:
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Texto: Isadora Barros

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Fotos: Juliana Rocha

Na véspera da estreia do Festival do Chorona Gamboa, batemos um papo com o grande mestre chorão Yamandu Costa, responsável pela curadoria dos talentos que se apresentarão o MAR até domingo. O evento tem peso pra entrar para o calendário cultural da cidade e trará apresentações históricas com parcerias inéditas. Logo no primeiro dia, Yamandu divide a apresentação de abertura do lado de Penezzi. No mesmo dia também se apresentam o grupo Trio Choro Rasgado e Rogério Caetano Trio. Yamandu defende que há tempos o choro não é tão tocado Brasil afora e comemora a safra de qualidade que vem surgindo na nova geração de músicos do gênero.

Como foi formar o time de chorões que se apresentarão no mar? Como foi essa curadoria?

Quando nos chamaram pra fazer essa curadoria, as pessoas já tinham certeza que iríamos primar pela categoria dos músicos. Além de ter uma coerência, pelo lugar ser aberto, não ser uma sala fechada, tentei misturar as formações pra que o Festival ficasse um pouco mais festivo. O choro é uma música muito séria e essas formações que eu convidei aqui, sempre encerrando a noite, são formações que têm essa característica mais festiva, que combina mais com o espaço.

Qual o panorama atual do choro? Você vê alguns traços de renovação? 

A importância do choro é enorme na música brasileira. O choro identificou de alguma maneira a nossa música. A mistura da tradição da música africana com a música clássica e indígena do Brasil de alguma forma fez um retrato do povo brasileiro. O choro sempre teve seus altos e baixos e a gente tem a sorte de uns dez anos pra cá estarmos vivendo uma renovação desse gênero tão importante pra nós. A cada lugar que eu ando pelo país percebo que não para de nascer novos chorões, gente jovem querendo tocar o gênero. É uma época muito promissora pra gente que leva a bandeira dessa música ver que isso não tá morrendo. Muito pelo contrário!

Que novos nomes apontaria?

Tem tanta gente boa! É até complicado falar de pessoas especificamente. Há acordeonistas incríveis… Samuca do Acordeão, lá no Rio Grande do Sul; Mestrinho do Acordeão em São Paulo; o grupo que tá vindo tocar aqui, o Aeromosca, um quarteto de jovens músicos de São Paulo também. Em Brasília também tem um bocado de gente tocando bem. Acho que o Brasil nunca teve em número tanta gente nova tocando e querendo aprender essa linguagem. Acho que muito por conta também da internet, que ajuda a espalhar essa cultura tão rica.

“Brasileirinho” é provavelmente uma das músicas obrigatórias em qualquer apresentação no exterior, não? Como costuma ser a reação do público com essa música? Que outros choros estão entre os mais pedidos?

Brasileirinho é um clássico, que tem uma força popular incrível! Tem um apelo enorme. Mas também tem outras músicas que são muito pedidas e que são hinos, principalmente as músicas do Pixinguinha, que foi um compositor que a cada ano que passava foi ficando melhor. Ele era de uma genialidade ímpar… Tenho pra mim que um grande hino do choro é “Carinhoso”, uma canção incrível, que tem uma construção melódica e de composição única. Outro choro que eu adoro é o “Odeon”, que é do Hernesto Nazaré, que também foi um craque, pai dessa linguagem de alguma forma. Ele namorava com a música erudita. Fazia música popular com alma de música erudita. A gente fica muito feliz de tocar esses clássicos que as pessoas pedem, porque é uma oportunidade de mostrar músicas de altíssima qualidade. No fundo é isso o que importa.

Quais os melhores lugares no Rio pra ouvir choro?

Normalmente num quintal se você encontra a roda certa! Mas, falando sério, temos muitos lugares bons no Rio. Tem a Casa do Choro, que foi inaugurada há pouco mais de um mês aqui na Rua da Carioca. Ela tá com uma programação incrível toda semana, num horário superflexível. Temos o Semente, que é o embaixo dos Arcos da Lapa. De certa maneira ele foi o propulsor da nossa geração toda, como um laboratório que a gente se encontrava pra tocar. Carioca da Gema, Rio Scenarium, Feira da General Glicério… O Rio tá cheio de lugar pra se ouvir choro. Cada vez mais temos rodas que são marcantes e que colorem a nossa cidade! Um dia eu tava na França e o táxi e passou na frente da Torre Eiffel e tinha um grupo de ciganos tocando uma música típica da região. Então você olha a paisagem, escuta a música e vê uma coisa que combina, né? E quando você vê isso no Rio é a mesma coisa. Uma coisa vesta a outra e tem tudo a ver!

E sobre essa experiência nos pilotis do museu. O que esperar?

A expectativa é sempre muito grande. Se tratando de lugar aberto eu fico um pouco apreensivo de saber como vai ser a dinâmica, o silêncio, o nível de concentração das pessoas. Mas a gente tá aqui pra fazer o melhor possível e a programação foi toda pensada para ter coisas mais elaboradas, mas também opções mais festivas. Acho que vai dar pé! O importante é que a intenção de fazer boa música tá aí e vamos presentar o Rio de Janeiro com a sua própria música que é a tradição linda do choro.

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