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RIOetc Musical: O reinado de Lamartine

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Texto: RIOetc

Imagem: reprodução

[Leo Gadelha/Pitada]

Uma nota publicada numa edição da VEJA, ano passado, dizia: “Muito se falou do “Rebolation”, mas, entra ano, sai ano, a febre do Carnaval são mesmo as marchinhas. Levantamento realizado pelo Ecad mostra que, das 20 músicas mais tocadas em fevereiro nas casas de festas e eventos de rua país afora,18 eram do gênero. As duas exceções são o frevo Vassourinhas, na 14ª posição, e, aí sim, o intragável Rebolation, em 20º. O pódio ficou para Mamãe Eu Quero, Cabeleira do Zezé e Me Dá um Dinheiro Aí. Entre os compositores, os cariocas João Roberto Kelly, Braguinha e Lamartine Babo foram os mais tocados.”

Autor de alguns dos maiores sucessos do Carnaval, Lamartine fez escola, criou um estilo de música carnavalesca que durante décadas dominou as ondas do rádio, o mercado fonográfico e os salões da folia. Foi parceiro de Noel Rosa em músicas como “A-B-Surdo”, “Menina dos Meus Olhos” e “A, E, I, O, U”, de Assis Valente em “Jeannette”, e de Ary Barroso em “Grau Dez”, “Amor de Mulato” e na dolente “No Rancho Fundo”, gravada em 1931 por Elizinha Coelho (uma das primeiras divas do rádio, mãe do jornalista Goulart de Andrade) e regravada infinitas vezes, uma das mais recentes pela dupla Chitãozinho e Chororó.

Outro parceiro constante de Lamartine foi Braguinha – o João de Barro – com quem fez sucessos como “Cantores do Rádio” e “Eu Queria Ser Ioiô”, gravada por Carmen Miranda. Mário Reis gravou da dupla “Uma Andorinha Não Faz Verão”, sucesso estrondoso no carnaval de 1934. Muitas de suas marchinhas venceram o tempo e ainda hoje são cantadas durante os festejos de Momo, tais como “O Teu Cabelo Não Nega” e “Linda Morena”.

O auge se deu nos anos 60 e 70, quando o dinheiro começou a fluir pesadamente nos cofres das sociedades arrecadadoras, que intensificaram a fiscalização sobre salões de bailes e emissoras de rádio, engrossando os proventos dos autores. Como disse o maior intérprete de marchinhas de todos os tempos, Joel de Almeida: isso atraiu muita gente gulosa. Associada ao jabaculê pago para que suas músicas tocassem nas rádios, esses bicões deixaram a velha guarda das músicas carnavalescas para trás. Só não contavam que as marchinhas antigas, como as de Lamartine, se imporiam imortalizadas na voz dos foliões.

Lamartine não fazia só marchinha carnavalesca: compôs outros gêneros com grande competência e inspiração, como o foxtrot “Canção Pra Inglês Ver”, gravado por Joel e Gaúcho, e canções juninas, que ainda hoje animam as noites frias de São João, como “Chegou a Hora da Fogueira”. É ainda autor dos hinos alternativos dos times cariocas de futebol – aliás, ninguém canta os hinos oficiais, só os seus – e torcedor fanático do América, para o qual reservou a melodia mais bonita. Foi fantasiado de diabo que ele comemorou o último campeonato do time, em 1960.

Oswaldo Sargentelli, sobrinho de Lamartine, prestou-lhe uma homenagem em 1983, com o musical “Olê, Olá”, na boate Oba Oba, no Rio, onde 20 mulatas escolhidas a dedo rebolavam e cantavam os antigos sucessos de seu tio famoso, cujas marchinhas e sambas, tão célebres e respeitados, nunca deixarão de ser cantados, enquanto houver Carnaval.

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