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Paixão que vem de berço

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Texto: RIOetc

[DJ Galalau]

Wilson Simonal, Jair Rodrigues e Tim Maia são, indiscutivelmente, sólidos pilares da Música Popular Brasileira. Em diferentes momentos, absorveram referências da black music para construir trajetórias particulares, deixando um enorme legado para toda a nossa cultura musical. E esta herança, aliada à paixão pela música, segue impressa no DNA de cada um de seus filhos.

Simoninha, Max de Castro, Luciana Mello, Jair Oliveira e Léo Maia saúdam esta privilegiada hereditariedade com o projeto Os Filhos dos Caras, que acontece entre os dias 9 e 18 de abril, no Teatro Rival Petrobras. No repertório, canções dos seus trabalhos solos acompanhadas de sucessos que marcaram a carreira destes três baluartes da música brasileira.

“A gente queria produzir algo além do tributo, porque já existem excelentes projetos neste sentido. O diferencial foi pensar em qual seria o legado dos três para a música brasileira através dos seus herdeiros, observando como eles aprimoraram este caminho, modernizando e construindo suas próprias trajetórias”, explica Tuka Villa-Lobos, que é sobrinha-neta do maestro Heitor e idealizadora de Os Filhos dos Caras.

“Quando começamos a formatar o projeto em 2008, existia uma alegria muito grande em prestar esta homenagem e ainda contar com a participação de Jair Rodrigues. Ele gostava de brincar dizendo que “iria bagunçar o coreto”. Mas, infelizmente, não deu tempo. A notícia do falecimento chegou dois dias depois de o projeto ser aprovado”, comenta, Tuka, lembrando da morte de Jair Rodrigues que completará um ano no mês de maio.

Por telefone, conversei com Jair Oliveira, que abrirá a série de shows no Rio, seguindo depois para São Paulo. Ele falou sobre a estreia do projeto há poucas semanas, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, que teve ingressos esgotados em menos de três horas. “É legal mostrar para as pessoas como a música deles se perpetua através de nosso trabalho porque é natural esta ligação com nossos pais. O show é baseado nos meus discos, mas sempre tive uma influencia muito grande do Jair, sempre que posso canto canções do repertório dele, pra mim foi muito simples mostrar esta referência”, explica, Jair Oliveira, que interpreta “Disparada”, vencedora do Festival de Música Popular Brasileira em 1966, ao lado de “A Banda” de Chico Buarque, “A Majestade, O Sabiá” e “Deixa Isso Pra Lá”, com o refrão falado que transformou Jair Rodrigues no precursor do rap brasileiro.

Perguntado se a canção “O Sorriso”, que ele fez em homenagem à Jairzão, vai estar no repertório do show no Rio, Jair Oliveira explica que escreveu a música na mesma noite do velório do pai. “Eu cheguei em casa esgotado. Mas mesmo naquele momento de profunda dor, senti a necessidade de dar adeus lembrando de como ele me ensinou que é importante sorrir para a vida. Esta música não está no programa, mas confesso que não é má ideia. Quem sabe não incluo no show do Rio?”

Jair Oliveira fala da grande amizade entre seu pai e Simonal, mesmo quando este foi acusado, injustamente, de colaborar com a ditadura e de como isto aproximou sua irmã, Luciana Mello, que faz show dia 10, Max de Castro e Simoninha (de quem Jair é sócio na produtora S de Samba), que sobem ao palco do Rival nos dias 17 e 18, e Léo Maia que “está sempre por perto” e se apresenta na sexta-feira, dia 16.

Por fim, Jair lembra de um momento trivial com seu pai que demonstra toda a paixão que ele tinha pela música e que, naturalmente, foi herdada pelos filhos. “Era madrugada e voltávamos de um show com minha irmã em Milão, na Itália, naquele esquema bate-volta. Chegamos ao aeroporto esgotados e ele não parava de cantarolar. Até que minha mãe virou brava e disse ‘Jair, pelo amor de Deus, estamos exaustos, para de cantar!’. Ele ficou chateado. Daí, perguntei: ‘pai, se você não fosse cantor o que você seria?’. Ele devolveu cheio de energia: ‘ah, eu daria um jeito de cantar’. Ali, ficou claro que não existia outra opção, ele era um apaixonado pela música e pela profissão. E este sentimento está, com certeza, em mim e na Luciana, nunca tivemos dúvida disto.

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