Ir para conteúdo

O sacolejo de Florence + The Machine!

Fotos:
|
Texto: RIOetc

[Leo Gadelha/Pitada]

“E das trevas, fez-se luz”: assim, nestes termos que bebem de fonte bíblica, pode nascer um genuíno trabalho esculpido na argila sombria da voz de uma vocalista de carisma assustador. “Ceremonials”, escultura delicada e agressiva da banda inglesa Florence + The Machine, confronta a maldição do hype que atormenta a curta (porém promissora) carreira de Florence Welch e seus comparsas. Das trevas, não só fez-se luz, com este segundo álbum, como também foi iluminada a consciência de que “Lungs”, álbum de estréia do grupo, sofre de uma irregularidade atroz.

“Dog Days are Over”, hit nato e carro-chefe de Florence até este determinado instante, ofusca a falta de consistência do primeiro álbum, que termina por usar a voz reconhecidamente espetacular de Welch como muleta. O que, felizmente, não acontece em “Ceremonials”, cuja potência eleva cada nota alcançada pela cantora a um patamar de excelência, cujo valor vem das letras extremamente soturnas e melodias costuradas pela agulha da delicadeza.

De forma grandiosa, o disco dá boas vindas a todos nós com “Only If For a Night” e o estupendo single “Shake it Out”: a grandiosidade a serviço da música, sem firulas ou Julia Roberts de bicicleta passeando por templos budistas. Mas logo as trevas convocam nuvens para o céu de Florence. Uma tempestade, aliás, já pendente desde o primeiro álbum, perdido entre a fábrica de hits, a construção de uma personagem ou a formação de uma banda estruturada em um vocal eloquente e instrumental orquestrado. Chegam, então, “What The Water Gave Me”, “No Light, No Light” eSeven Devils”, melhor faixa de todo o álbum e resumo perfeito do espírito que a banda carrega em “Ceremonials”: pop obscuro sem cair no clichê do gótico.

Na segunda metade de “Ceremonials” é mantida a energia entre o dark intimista e a catarse vocal de Florence Welch guiada pela banda furiosa. Com destaque para “Heartlines” e “Strangeness and Charm”. Mas, repare bem, especificamente, em “Remain Nameless”, canção que flerta levemente com um universo eletrônico ainda novo na trajetória do grupo. Jogada certeira que coroa esta segunda jornada da ruiva mais cool do momento, demonstrando que há muito além do hype no som oriundo da máquina chamada Florence Welch.

 

Comentários