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O mais paulista dos baianos no Rio

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Galalau/Pitada]

Nas minhas andanças mensais pela capital paulista, acabo circulando – por hobby ou trabalho – numa área que os próprios paulistanos citam como a preferida dos cariocas. Seja começando pela Vila Madalena, Pinheiros, Perdizes ou Higienópolis, acabamos sempre na Augusta.

Dividida pela Avenida Paulista em duas áreas bem distintas – clubs, bares e saunas do lado mais central; butiques de alto luxo, restaurantes, teatros e cinemas, no sentido dos Jardins – a Augusta foi uma grande referência para a juventude transviada, a Jovem Guarda e o Tropicalismo, durante os anos de chumbo da ditadura. Além de referência, também foi inspiração para muitos.

“Rua Augusta” (1963), de Ronnie Cord, filho do maestro Hervé Cordovil – de “Um Biquíni de Bolinha Amarelinha” – fez grande sucesso ao apresentar a loucura dos “pilotos” que atravessavam a rua em possantes a mais de 120 por hora. A canção foi regravada pelos Mutantes anos depois. Mais recentemente, os gaúchos do Cachorro Grande dedicaram um álbum inteiro ao reduto do “Baixo Augusta” (2011) e o rapper Emicida, que escancara a realidade da prostituição na área com o torpedo “Rua Augusta”, também do ano passado.

Mas passeando por ali, a canção que sempre me vem à cabeça é “Augusta, Angélica e Consolação”, do baiano Tom Zé. O “maldito” dos tropicalistas liderados por Duprat, Caetano e Gil, em fins dos anos 60, prestou algumas homenagens à capital paulista em suas canções. “São São Paulo” (1968), por exemplo, foi a feliz ganhadora do IV Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, no seu disco de estreia. O disco “Todos os Olhos” (1973), que criou enorme polêmica em tempos de censura ao sugerir “outros olhos” na capa do disco, inclui minha doce lembrança “Augusta, Angélica e Consolação”. A genialidade de Tom Zé enreda a suposta vaidade da Augusta com a maldade da Angélica para encontrar salvação na Consolação. Ironicamente uma das vias mais tumultuadas da cidade.

Em 2012, Tom Zé faz homenagem às origens tropicalistas em seu novo disco “Tropicália Lixo Lógico”, uma espécie de libertação em tocar no tema que lhe “metia medo”, nas palavras do próprio. Em 16 canções originais e de próprio punho, Tom Zé recebeu convidados como Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante, Emicida e o jovem músico pernambucano Washington. No próximo sábado, dia 4, Tom Zé apresenta o novo trabalho aos cariocas sob a sagrada lona do Circo Voador, que está completando 30 anos de história. Promessa de verborragia e música fora do lugar comum.

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