Ir para conteúdo

Identidade: Lucas Vasconcellos

Fotos:
|
Texto: RIOetc

Fotos: Tiago Petrik
[Galalau/Pitada]

O RIOetc Musical  inaugura, esta semana, uma nova seção que vou chamar arbitrariamente de Identidade. A proposta é identificar, traçar um perfil, fazer um raio X e coisas afins e não tão arbitrárias (tsc) de personagens que movimentam a paisagem cultural, estética e, principalmente, musical desta nossa querida e tão particular cidade. Mas já adianto que a carioquice aqui prometida não precisa estar na certidão de nascimento e sim na identidade adquirida em alguns anos de praia.

E este start não poderia ter começado melhor. No último fim de semana, fiz uma visita ao multiinstrumentista, compositor, cantor e também professor de música Lucas Vasconcellos. Ele acaba de lançar – por enquanto somente em formato digital – o primeiro disco solo intitulado “Falo de Coração” – Bolacha Discos (2013) e faz show nesta quinta, dia 5, no Studio RJ.

Lucas me recebeu na sua casa/estúdio no Rio Comprido onde instrumentos, pedais de efeitos, amplificadores, o novo “brinquedo” loop station e também o toca discos estão ligados full time. “É que quando a inspiração chega não quero perder tempo ligando tudo”, adianta Lucas. E a inspiração está intimamente ligada às memorias de infância na cidade serrana de Petrópolis onde o ritmo é mais lento e a noite é repleta de muito silêncio, um período bastante produtivo que Lucas costuma canalizar para além da música, moldando suas memórias em múltiplas ilustrações. Em algumas noites ele chega a produzir 80 desenhos que ganham forma a partir de uma decupagem muito particular com a ajuda de caneta preta, pilot, um papel de grandes dimensões e tesoura. “Ela serve para, literalmente, editar os desenhos que chegam a um resultado final a partir de sobreposições e colagens. E no fim, se não curto, nunca tenho pena de jogar fora.”

E foi justo a noite o ponto de partida para a composição de “Morfina”, um dos carros-chefes de “Falo de Coração”. “Enquanto produzia o último disco da Kátia B, saía do Jardim Botânico à noite e olhava a cabine do segurança da rua, já apagada e em calmaria. Isto me conectou as memórias de infância em Petrópolis. “Morfina” está ligada a este momento de anestesia da noite, a este tempo mais lento, tranquilo e me fez compreender que esta é uma droga utilizada para aplacar a dor e aliviar o encontro com a morte”.  E Lucas se expressa com muita sinceridade a todo tempo.

Questionado sobre as comparações de “Falo de Coração” com “Sábado”, de Cícero, e “Cavalo”, de Rodrigo Amarante, pelo tom melancólico das composições, desolador, sufocante e mesmo hermético, ele concorda. “Acredito que são discos verdadeiros para os cariocas que somos além do oba-oba, cerveja, Carnaval e alegria. Fui muito direto nas minhas composições para este disco, beirando o sentimental e pra balancear construí arranjos mais dissonantes e não tão harmônicos”.

“Eu não vou chorar por fora” é, ipsi literis, a tradução de sentimentos sem rodeios que remetem diretamente a separação de Lucas de Letícia Novaes, sua companheira no Letuce, que segue parceira na composição de “Seven Laughs”. “A Letícia tem o dom de equilibrar lindamente as palavras e foi a primeira a me dizer que eu estava direto demais nas músicas, quase piegas. Mas é isso, eu curto”. Em seguida, pega o violão e percebe que a letra pode se transformar, facilmente, num samba. “Não sou erudito, aquele que segue a ordem do maestro, sou da música popular e me sinto mais livre desta forma, seja para compor, ouvir música ou trabalhar com diferentes artistas”.  Ultimamente, Lucas se divide entre o Letuce, como integrante das bandas de apoio de Rodrigo Amarante e Dado Villa-Lobos, e , eventualmente, a Orquestra Imperial.

“Meu Seu”, composta em parceria com o ex-psicanalista dele, Ronaldo Marinho, conecta se às memórias em família, mais uma nota deste mundo particular. “Meus pais sempre gostaram de curtir o verão na praia e alugavam um apartamento em Cabo Frio. Me lembro dos animais que o mar trazia pra areia da Praia das Conchas”. E a memória de infância persiste em “Leal”, uma homenagem em forma de fado ao cantor português do vira, Roberto Leal, que Lucas adorava ouvir no Dodge Dart do avô. “É uma canção sem refrão, uma história linear em que vou reinventando imagens em sequência. Este foi o caminho das minhas composições, curtas e diretas”.

Há 12 anos, Lucas saiu de Petrópolis para morar nos arredores da praça Seans Peña, numa fase pré-UPPs onde a Tijuca era ainda “longe” da Zona Sul. Afinado com sua escolha inicial, Lucas tem participado das reuniões do grupo chamado de Novo Rio, articulado pelo mineiro César Lacerda e que conta com a participação de Ava, Negro Léo, Marcela Vale, jornalistas e produtores culturais, que buscam ocupar novos espaços em diferentes regiões da cidade para dar vazão a produtividade artística dos músicos que esbarram na escassez de palcos e boas condições para se apresentar.

Sobre o Rio, Lucas diz se sentir ainda como um turista na cidade, seja no prazer de curtir o mar de Copacabana ou as cachoeiras do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. “Sempre prestei muito a atenção na forma de expressão do carioca e adoro este jeito de aproximação, que puxa papo e não se intimida pensando se está incomodando ou não o outro”. Estilo que ele define como “blasé amoroso”. E pra completar o que seria o ETC do site (estilo, tendência e comportamento), Lucas entende que o caos produtivo é um traço de comportamento do carioca em geral e que seu disco é indicativo de uma nova tendência na expressão musical da cidade. “Percebo que existe uma reflexão a respeito do que é ser feliz vivendo no Rio de Janeiro. E uma das grandes armadilhas é repetir o clichê de que esta cidade é, totalmente, maravilhosa”. E se define em poucas palavras. “Sou um cara prático, tenho enorme tendência à franqueza e meu estilo é incansável, buscando sempre novos desafios”.

E “Sol de Meio-Dia”, que fecha o disco, é fruto deste questionamento que desemboca em canções embebidas em inseguranças, angústias e solidão. Sentimentos bem condensados nas palavras do jornalista Márcio Bulk, que descreve “Falo de Coração” como um retrato mordaz e desconfortante do nosso tempo.

Comentários