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Justice: corajoso e divertido

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Texto: RIOetc

[Leo Gadelha/Pitada]

Quem pode fazer mais barulho que o Justice? Essa foi uma das perguntas mais frequentes do mundo da música nos últimos 4 anos, desde o lançamento de “†”. A dupla francesa formada por Xavier de Rosnay e Gaspard Augée acabou virando o padrão pelo qual se media a intensidade de qualquer disco lançado nesse período. E de fato, praticamente ninguém falou tão alto nesses últimos tempos quando a dupla. A violência crua de “Waters of Nazareth”, “Phantom” e “Stress” chegaram a níveis estratosféricos ao vivo, em uma apresentação que seria impossível de esquecer por todos que estiveram lá, ungidos na coletividade do barulho evangélico. Como falar mais alto que isso?

A dupla deve ter coçado muito a cabeça para responder essa pergunta. Na realidade, nem o Justice consegue falar mais alto que o Justice de “†”. Inteligentemente, os franceses mudaram de tática. Xavier e Gaspard compuseram um disco que prima pela composição em primeiro lugar. A experiência com barulho sintetizado e distorção entra na história como mais um dos elementos da paleta sonora dos dois produtores. Sai o electro banger, entra prog-rock com timbragens eletrônicas, em faixas com influência de bandas como King Crimson, Yes, Emerson, Lake & Palmer, Led Zeppelin e Black Sabbath.

Em “Audio,Vídeo,Disco”, Xavier e Gaspard se posicionam como músicos, acima de tudo. O miolo do disco traz várias faixas instrumentais que funcionam como um display brilhante de neon das capacidades de composição da dupla. Arranjos rebuscados em escalas barrocas (a música de câmara tradicional europeia é uma outra grande influência da dupla que salta aos ouvidos no disco), solos de guitarras e sintetizadores que não perdem em nada para grandes clássicos da história do rock, produção cristalina, harmonias vocais, a capacidade de juntar diversos tipos de sonoridades, tanto analógicas e tradicionais quanto digitais e inovadoras, em composições com início, meio e fim… Enfim, um banho de técnica.

Há quem diga que isso tudo é uma grande masturbação e, de fato, frente ao arroubo pop e electro de “†”, pode até se dizer que sim. O disco tem até seus momentos mais imediatos, como “Newlands” e a faixa título, mas fica uma ligeira sensação de que falta um outro par de hits, um pouquinho mais daquela descarga elétrica de 220v que foi “†” e a apresentação ao vivo. Para os desavisados, pode até parecer outra banda.

Se “Audio,Video,Disco” diz alguma coisa sobre o Justice é que a dupla definitivamente não é um embuste. Os dois franceses já haviam subvertido a fórmula em 2007 e se distanciam novamente de toda a legião de artistas seguidores com um disco corajoso e divertido. Talvez os próximos shows não sejam tão inflamados quanto os anteriores, mas falar mais alto não significa ter mais o que dizer.

Justice – Helix by Xavclaire

Justice – Newlands by FranklinP

 

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