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É shock de monstro!

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Texto: RIOetc

[Galalau/Pitada]

Domingo passado, discursava sobre o quente, o calor do verão, que até deu uma amenizada nos últimos dias da semana. Mas o Rio Shock, projeto do DJ João Brasil, tá aí na área pra não deixar a pista esfriar!

O video de “Moleque Transante”, o primeiro hit do EP de quatro músicas que sai pela Som Livre, ainda em janeiro, foi lançado no YouTube, mês passado, com um típico cenário carioca, o Arpoador, ao fundo. Em destaque uma lontra (?), um pinguim (?!) e o bailarino Safadin Dancy arrebentando no passinho com referências ao break, um dos pilares do movimento hip hop americano na virada dos anos 80 pros 90.

Aliás, no release do projeto e em algumas entrevistas, João Brasil afirma que o funk carioca dos anos 90, principalmente as montagens compiladas nos volumes “Espião Shock de Monstro”, e as recordações das matinês no Resumo da Ópera, ao som de nomes como Corona e Black Box, são as grandes referências do Rio Shock. Mas, segundo ele, a coisa toda só passou a fazer sentido e ganhar forma após ouvir o excelente Settle (2013), do duo Disclosure e que já foi tema da coluna, ano passado.

Daí em diante, João em parceria com o amigo e DJ Filipe Mustache  (com quem tive um bate-papo online que você lê abaixo), começou a lapidar a estética sonora e visual do projeto. Em seguida, um puxou o outro: João, que do papo com Mãozinha (produtor musical de Anitta) chegou na vocalista Dannie, que sugeriu o MC Sabará também para os vocais, que o aproximou de Safadin, fechando com o percussionista Junior Teixeira, companheiro de gigs. E ainda tem a stylist da Rio Shock, a suíça Raquel Alvarez (mulher de Mustache).

O resultado é uma boa mistura de house, freestyle, deep funk e garage que sacode a poeira do menos bailante dos mortais. De cara tem “Quebrete”, surgida de um papo engraçado com um motorista de táxi, estas figuraças que encontramos, aqui e ali, e resumem, maravilhosamente, o nosso típico humor malandro carioca. Duvida? “Vou te levar pro meu quebrete, te mostrar o que é real, lugar onde separa o menino do animal”. É ou não é sensacional?!

Em “Sensualizar”, o título já diz muito: letra quente e bem humorada em ritmo de deep house que encaixa certinho no clima do verão. Na sequência, tem “Moleque Transante”, que rendeu uma apresentação, ao vivo, no palco do Caldeirão do Huck, semana passada, e, fechando o EP, “Surreal”. Aliás, esta poderia ser a trilha sonora da campanha da “nova moeda carioca”, o Surreal, em substituição ao Real, tirada bem humorada que circula nas mídias sociais para os preços exorbitantes e nada engraçados de tudo que consumimos na cidade.

Certamente, uma ou mais faixas do EP Rio Shock vai estar no set list da F*DASSE (João Brasil, Mustache e Paulo Sattamini), que participa da festa de encerramento do concurso Carioca 2014, ao lado de Cix, Yasmin, Fernando Schlaepfer e o escriba aqui, domingo, na Cave.

Nota: pra esquentar ainda mais o clima de alto verão, aperte o play da Rádio RIOetc, que tem algumas novidades no set!

BATE-PAPO ON AIR

Filipe Raposo, a.k.a, DJ Filipe Mustache, fala um pouco das influências pessoais do funk e a já longa discussão sobre as propriedades do ritmo, embate de classes e a personalidade expressa pelo funk que molda e personifica o estilo de vida dos legítimos cariocas.

Galalau – Quais foram os primeiros contatos com o funk?

Raposo – Há 20 anos, quando tinha meus 18, morava em Niterói e namorava uma menina cuja a família era da Zona Norte do Rio. Eu estava cercado pelo funk. Os primos dela eram viciados no estilo e o prédio onde morava possuía uma área de lazer que fazia fronteira com o famoso morro do Cavalão. Lá, soltava pipa com a galera da comunidade ao som de funk que naquela época ainda era chamado de rap e era feito com poesia.

Gala – A seu ver, qual a relação do batidão e o lifestyle carioca?

Raposo – Eu gosto de pensar que o funk tem sofisticação. Sua batida nasceu do Miami Bass, que foi uma evolução do Freestyle e que veio de um sample do KRAFTWERK. Base eletrônica pura. Somada à base, a necessidade das comunidades carentes se expressarem através da voz, algo parecido com o rap norte americano porém com mais punch na batida. Sendo assim, temos a sofisticação de um som eletrônico unido a letras e vocais fortes, muito “crus”. É a fusão entre o “roots” e o sofisticado. Para mim, nada mais carioca. Uma cidade que consegue ser primitiva e sofisticada de uma só vez.

Gala – O funk é, como parece, um ritmo que já contaminou outros pelo Brasil, sendo perceptível em gêneros como o sertanejo ou o forró/brega?

Raposo – O estilo já está de pé há mais de 20 anos e é natural que ele tenha começado a influenciar muitas outras produções. Porque é impossível ficar indiferente ao ritmo, gostando ou não. É um estilo musical de personalidade forte.

Gala – Há ainda muito preconceito em relação ao funk?

Raposo – Com certeza. Funkeiro, muitas vezes, foi usado como termo pejorativo, até para substituir a palavra “negro”. Nossa sociedade é racista. Por isto, temos muito orgulho da nossa banda, pois ela é o Rio que gostaríamos de existir. Há integrantes de todas as partes da cidade, comunidade, morro, zona sul, zona oeste, todos em perfeita harmonia.

Gala – Como foram os primeiros shows da Rio Shock e a resposta do público?

Raposo – O grande primeiro show será no dia 24, no Rider Weekends, com a festa F*DASSE onde eu, João Brasil e Paulo Sattamini somos produtores. A primeira apresentação experimental foi na última edição da festa, em formato pequeno para 250 pessoas. O público respondeu de forma muito positiva e saímos de lá bem felizes.

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