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“Sou uma mulher negra criada pelo mundo”

Fotos: Tiago Petrik
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Texto: RIOetc

@diaspora009

Ela não sabe de onde vieram seus ancestrais. Essa lacuna na árvore genealógica é comum aos descendentes da diáspora africana. Mas, em Guiné-Bissau, foi reconhecida como integrante de uma etnia local, devido aos dentes incisivos superiores separados, muito visíveis no sorriso constantemente aberto.

De certo, mesmo, é que Lia Maria, brasiliense, tem origem no Morro do Querosene, Vila da Penha, Rio. Foi lá que viveu Quintino, seu avô. Ele servia cafezinho no Itamaraty. Nos anos 60, com a transferência da capital, lá se foi seu Quintino para Brasília. Seu filho – pai de Lia – conseguiu a vaga de auxiliar administrativo no Ministério das Relações Exteriores, e foi crescendo lá dentro. A mãe, Gorete, foi a primeira da família a se formar, em Administração, e também era do Itamaraty.

– Mesmo não sendo diplomatas, meus pais faziam parte do corpo diplomático, e aí a gente foi viajando por vários lugares. Fiquei entre o Togo, Senegal e Costa do Marfim na infância. Depois a gente foi pra Cuba, onde morei por sete anos e comecei a fazer Economia Marxista-Leninista; voltei pra Brasília, durei pouco tempo, três ou quatro anos na Universidade de Economia, e fiz novo vestibular, desta vez para Artes Plásticas. Nas férias na UNB eu sempre ia pra Holanda, onde meus pais estavam – lembra Lia. Esse nomadismo a define (e por isso foi convidada para ser uma personagem inaugural de Reserva Go):

– Sou uma mulher negra criada pelo mundo.

Formada em Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raças, especializou-se em Culturas Negras do Atlântico, trabalhou para as Nações Unidas, conheceu 19 países – nove deles africanos. E faz da cor da pele o motivo de sua militância.

– Tive pouquíssimos colegas negros na universidade. Na minha turma éramos três pessoas negras: um angolano, uma moçambicana e eu. Eu era estrangeira naquele espaço, me identificava com os estrangeiros e até hoje eu sou um pouco estrangeira nesses espaços também, espaços de poder político, poder financeiro, estes ainda são espaços muito embranquecidos. Por mais que a gente vá se apropriando de vários conceitos, de várias ferramentas, vários idiomas, vários títulos, andando na rua eu sou uma mulher negra – eu sempre vou ser, antes de qualquer coisa. Antes de uma gestora em políticas públicas, eu sou uma mulher negra. Antes de designer e criadora de minha marca, que é a Diáspora 009, eu sou uma mulher negra. Antes mesmo até de ser mulher, eu sou um corpo negro, então a negritude sobrepõe todas as nossas identidades na sociedade, Pra pessoa negra isso é muito pungente, isso é muito constante. É dai que vem a minha vontade de criar minha marca, de criar uma marca para pensar. Meu slogan é “corpo-manifesto”. Quando a gente veste uma roupa, a gente tá contando uma história, a gente tá fazendo um discurso. Então existe um manifesto. Todo corpo negro altivo, vivo, em qualquer espaço, seja ele de maioria branca ou negra, só o fato de você estar altivo e orgulhoso, isso já um manifesto, isso é uma vitória. 

Nas duas últimas edições do Veste Rio, maior evento da moda carioca, a Diáspora 009 foi convidada para desfilar entre os novos talentos. No último desfile, em outubro, todos os modelos calçaram o modelo Hero, cedidos pela Reserva.

– Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, as diásporas negras são sempre compreendidas como tráficos negreiros. A população negra necessita de uma reconstrução de memórias positivas, a gente precisa falar de onde a gente vem, como a gente vem, de uma maneira mais altiva e mais positiva – afirma Lia. – Costumo dizer que cada tecido é um livro, porque conta uma história.

E, no que depender dela, a história terá um final feliz.

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