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Um São Jorge sem pressa

Fotos:
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Texto: Tiago Petrik

[Ilustração e texto de Daniel Gnattali]

Comecei esse São Jorge em 2014 e volta e meia sentava na frente dele querendo seguir, mas sentia que me faltava estofo. Determinado a não deixar a obra no hall dos trabalhos inacabados me propus a terminar até dia 23 de abril (que é dia de São Jorge) de 2015. Não deu. Tudo bem, não queria fazer com pressa, então adiei para 2016 e ganhei mais um ano de prazo.

Decidido a cumprir meu próprio prazo, me isolei por 3 dias no mato e adiantei bastante a parte do desenho, mas chegando novamente em 23 de abril (de 2016) ainda estava longe de terminar. Visivelmente desolado, mais uma vez abdiquei de entregar a obra e adiei para mais um ano.

Com o tempo aprendi a não sofrer tanto por conta desses prazos, tendo entendido que quando isso acontece é porque a expressão não está madura. E não estava mesmo.

Nesses 3 anos, não só a aparência do meu trabalho mudou, como as motivações também. Não queria apenas desenhar São Jorge, mas fazer uma homenagem, com estudo e embasamento, para que a representação remontasse à sua história, de um ponto de vista antropológico, além, claro, do religioso.

Poucos sabem a história de São Jorge e vou contar um pouco dela aqui. Mas nesse processo não pude deixar de reparar que, assim como outras personalidades da nossa cultura religiosa, como Jesus, Moisés e Budha, Jorge foi um homem que caminhou na Terra. O tempo distante e a cristalização das percepções fazem com que os enxerguemos apenas como ícones ou mitos, de uma substância etérea e quase fantasiosa. Creio que para que uma história dure mais de 2.000 anos seja necessário um pouco de fantasia, sim, mas não se deve esquecer o valor histórico dela.

Segundo os registros, Jorge, da Capadócia, serviu ao exército de Roma oriental no século III, nos princípios no cristianismo. Alcançou um alto posto no exército do imperador Diocleciano, mas, sendo devoto de Cristo, se opôs à perseguição aos cristãos iniciada pelos romanos, que defendiam a crença em seus deuses antigos.

Destituindo-se de todos os seus bens e pertences, Jorge abandonou o exército e entregou-se à vida de difusor da palavra de Jesus. Logo foi preso e, sendo querido ao imperador, a ele foi dada a chance de se redimir  admitindo publicamente a soberania dos deuses romanos. Jorge negou-se e, então, foi submetido aos mais tortuosos sofrimentos após os quais, diz a lenda, ele amanhecia completamente são e intacto, protegido pela graça de Cristo. Assim foi até o dia 23 de abril de 303 d.C., dia do seu martírio.

É plausível que as histórias lendárias ganhassem extrema força nestes tempos primórdios, onde o oculto e o desconhecido ainda pairavam em grande parte das planícies terrestres. Assim, a história de Jorge se espalhou e sedimentou-se em diversas sociedades, desde a remota Turquia, passando pela Igreja Ortodoxa Russa, cavalaria da Inglaterra e chegando ao Brasil, onde foi agregado como símbolo sincrético de dois orixás do candomblé: Oxossi, na Bahia, e Ogum, no Rio de Janeiro.

Ao Santo Guerreiro foram atribuídos feitos como a derrota do dragão e mitos como a sua presença na lua. Não soa estranho que seja tão adorado, já que suas virtudes são a força e a coragem, qualidades tão necessárias para enfrentar os desafios terrenos (sejam os de um cristão do século IV ou de um trabalhador do século XXI).

Esse ano terminei a obra na madrugada do dia 24, com apenas 1h35 de atraso. Gostaria de ter terminado antes, mas o tempo que leva é o tempo que leva. Além disso, escrevi este texto agora e talvez não tivesse tido o tempo ou a inspiração ontem.

Agradeço a dois Jorges pela força e coragem que precisei para terminar este presente: São Jorge e Jorge Ben Jor, que diz que São Jorge “mostrou que, com uma rosa e o cantar de um passarinho, nunca nesse mundo se está sozinho”.

Domingo 23 é dia de Jorges. Salve Jorges!

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