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Vivian Maier – uma fotógrafa de rua

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Tiago Petrik]

Eu andava fascinado com a descoberta de Genevieve Naylor. A fotógrafa foi trazida ao Brasil pelo governo americano em tempos de “New Deal”, para retratar o país amigo. O resultado de sua passagem por aqui, entre 1940 e 42, foi editado por George Ermakoff, que no livro composto por mais de 200 imagens ainda nos brinda com um interessante relato biográfico da artista. Naylor foi a primeira mulher a expor no MoMA novaiorquino, em 1943, mas só no ano passado chegou às livrarias brasileiras. Isso, pra mim, era uma espécie de achado arqueológico ao alcance das mãos. Foi pra prateleira.

Pouco depois, ouvi do fotógrafo Beto Pestana uma história que me pareceu inverossímil: algo sobre uma tal Vivian Maier, uma babá de Chicago que, durante décadas, rodou por aí com sua Rolleyflex a tiracolo, produzindo maravilhas loucamente, entre uma troca de fraldas e um passeio pela vizinhança com carrinhos de bebê. Beto me contou que milhares de negativos da insuspeita artista haviam sido localizados, depois de sua morte, numa venda de garagem. Na hora, anotei o nome dela no celular, uma daquelas notas que têm como destino praticamente certo o esquecimento eterno. Meses depois, me deparo na Livraria da Travessa com um livro novo na minha prateleira preferida da loja de Ipanema. “Vivian Maier – uma fotógrafa de rua”. Corri no bloco de notas e lá estava: sim, era a mesma. Sem sequer folhear a obra (ed. Autêntica), fui direto ao caixa. E passados mais alguns meses, este continua sendo meu livro de cabeceira. Praticamente todos os dias recorro a Vivian Maier.

Sua história improvável – sim, era basicamente o que o Beto havia me relatado – já seria suficientemente impressionante se Maier fosse uma fotógrafa mediana. Mas ela é espetacular. Sem desmerecer outros grandes nomes de mulheres fotógrafas, Cartier Bresson enfim ganhou uma versão em saias para se comparar. Com uma diferença fundamental: Vivian (permimtam-me a intimidade), como lembra o prefácio de Geoff Dyer, não teve qualquer treinamento formal, e muito menos conviveu ou trocou ideias com outros fotógrafos. Como se fotografar fosse um ato absolutamente banal, natural, intuitivo apenas.

Sua câmera quadrada, trazida à altura do peito e utilizada olhando de cima para baixo, através do jogo de espelhos, era discreta num tempo em que a fotografia de rua não era acessível a qualquer um – hoje, num só dia, com celulares, a humanidade produz centenas de vezes mais imagens do que Vivian produziu em toda a vida – e olha que foram cerca de 100 mil, em quarenta anos de atividade. Seu olhar perspicaz aborda crianças, é claro (era uma babá, afinal), mas é inumeravelmente ampla, com especial ênfase na crueza do pós-guerra e nos tipos anônimos das ruas, mas também com enquadramentos refinadíssimos (alguns deles, de dentro de ônibus (!), dirigindo o olhar para dentro ou para fora) e composições de luz e sombra calculados com maestria. Seus autorretratos teriam servido de escola a Cindy Sherman. E tudo soando como o mais descomplicado acaso, como se fotografar (n)as ruas fosse a coisa mais fácil do mundo. Acreditem, não é.

“Vivian Maier – uma fotógrafa de rua” é obra essencial. Genevieve Naylor continua com seu lugar de destaque na estante, mas o grande achado arqueológico-fotográfico que foi parar em minha prateleira, em 2014, se chama Vivian Maier. Acima reproduzo algumas das páginas do livro, que você confere se der play nas setinhas, mas recomendo que se adicione à barra de favoritos o site criado pelo descobridor e editor da fotógrafa, John Maloof, para difundir seu trabalho.

 

Reproduções do livro “Vivian Maier – uma fotógrafa de rua”

 

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