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Na cabeceira: Vida e obra de Terêncio Horto

Fotos:
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Texto: RIOetc

Foto: Juliana Rocha

[Gabriela Dore] Foto de Juliana Rocha

Na história mundial o nome Terêncio é referente a um escravo que foi vendido ao senador romano de mesmo nome. O primeiro virou poeta e dramaturgo e é conhecido na literatura clássica por livros como “O punidor de si mesmo” e “Eunuco”.  O segundo, enquanto teve o primeiro como escravo, lhe deu educação e depois o alforriou. A personalidade de Terêncio Horto pode ser relacionada a essa dubiedade, por vezes tirano, irônico, sarcástico; por vezes escravo, no papel de vítima ou vitimando o mundo.

André Dahmer não poupa ninguém. Se sua popularidade se solidificou com seu trabalho de ilustrador – ele é o autor dos Malvados -, como criador de Terêncio Horto ele amadurece e se dedica à narrativa, explorando o texto e os assuntos pelos quais permeia de forma mais profunda e crítica: arte, literatura, pintura, música e vida em geral.

O personagem é um escritor ranzinza e frustado que escreve seus mais profundos pensamento eternamente sentado em frente de sua máquina de escrever. Há pouca variação de traços e expressões na montagem dos quadradinhos que compõem cada tirinha, o que permite ao leitor uma análise complementar ao pensamento do personagem que se mostra apático. Os assuntos não têm juízo de valor, são questionamentos sobre a natureza humana. É através do recurso da impessoalidade visual desse escritor que a gente pode se reconhecer em cada situação e atribuir sentimentos e análises pessoais.

Levando em consideração que Dahmer sempre se apropriou da internet em seus trabalhos, o mundo virtual é retratado na maioria dos assuntos abordados. Esse questionamento é visível: os dois mundos se permeiam, se misturam e se confundem. O mecanismo atualiza a plataforma dos quadrinhos e a traz pro mundo contemporâneo, conectado, “online”.

É mais do que um verdadeiro livro de cabeceira, é um livro de mesa, daqueles que se mantém por perto, para abrir e ler uma página e adicionar uma dose de humor nas mazelas do dia-a-dia; uma dose de ironia nos nossos dramas pessoais; e saber olhar pras “ordinariedades” do cotidiano e achar graça através de uma postura crítica. O esforço de transformar essas tirinhas em um livro faz a gente perceber a consistência da trajetória do autor. Reconhecemos que essa mente não só desenha, mas escreve, reflete e possui, sobretudo, autocrítica para podermos ter também. É como “punidor de si mesmo” – para não esquecer de Publio Terêncio Afro – e dos outros, que Terêncio Horto reinventa os quadrinhos e a forma ordinária de olhar pro mundo.

Serviço:Vida e obra de Terêncio Horto

Ed. Companhia das Letras, 256 páginas, R$ 52.

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