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Além do umbigo de Maria Rezende

Fotos:
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Texto: RIOetc

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Fotos: Tiago Petrik

[Tiago Petrik]

Maria Rezende adora pau mole, e publicou isso há 13 anos, em “Substantivo Feminino”, seu primeiro livro (hoje já são três).

Ela adora pau mole “pelo que ele expõe de vulnerável / e pelo que encerra de possibilidade”. Antes de publicar seu primeiro livro, Maria “sempre quis escrever poesia, mas tinha medo de não ser boa”. Venceu essa fase vulnerável depois de um curso com Elisa Lucinda. Primeiro, convenceu-se de que era boa “dizendo” poesia – e ainda se considera uma “dizedora”, e não uma “declamadora”, que soa tão mais formal –, para depois se encorajar a arranhar no papel os primeiros versos, abrindo possibilidades.

Por garantia, já sabendo-se boa dizedora, publicou junto um CD em que lia os poemas. “Eu pensava: “não sei se isso é bom escrito, mas falado é”. Eu me garantia falando”, conta.

Ainda hoje Maria adora pau mole “porque tocar um pressupõe a existência de uma intimidade / e uma liberdade que eu prezo e quero sempre”.  Quando publicou o segundo livro, cinco anos depois do primeiro, já se sentia íntima e confiante de sua poesia. “O primeiro é basicamente um livro de poemas de amor. Tinha um medo de só saber escrever sobre isso, mas quando veio o segundo vi que conseguia olhar mais pra fora e falar de outras questões”.

– Então o primeiro livro é mais mulherzinha? – pergunto, pra provocar.

– Sou feminista demais pra concordar com essa frase – ela responde rindo, mas falando sério.

No segundo livro, manteve a ideia do CD acompanhando o impresso. E, depois que Ana Carolina recitou seu “poema-hit” numa entrevista, ainda por cima bombava no Youtube. “Se eu fosse ganhar dinheiro com poesia, seria com ele. As pessoas me dizem: ‘Você é a mulher do pau mole’. Sim. Ele é a minha ‘Ana Júlia’”, diverte-se, sem nenhuma vergonha.

E aos poucos Maria virou show-woman. Começou a dizer poemas na Laura Alvim, e para se fazer acompanhar, editava vídeos que lançava nas performances – daí descobriu a montagem cinematográfica, sua profissão “oficial”. “O George Lucas disse uma vez numa entrevista, e eu concordo, que a montagem parece poesia. Parece, não, é. Tem a ver com ritmo, com escolhas muito sutis”, compara. Começou a frequentar outros palcos também, como o do CEP 20.000. E os amigos que se casavam passaram a chamá-la para dizer poemas antes do “sim”. Virou uma segunda profissão. “Hoje recebo três pedidos de orçamento por semana”, espanta-se. E, sim, já pediram para que ela dissesse o poema do pau mole na frente de pais e avós e amigos. (Maria cora só de lembrar da cena).

Maria também se casou. “Dos 23 aos 32 fiquei casada. Fui descobrir o que eu era sozinha no mundo depois de um tempão. “Carne do umbigo” (2014), o terceiro livro, é depois dessa fase”, que tem entre outros “Pulso aberto”, dedicado a Eduardo Galeano, “um cara com um olhar feminista sobre o mundo”. A publicação já estava na rua quando ela se descobriu feminista. “Foi uma redescoberta, uma nova camada de olhar pra dentro. Eu jamais me diria feminista antes de outubro do ano passado. Essa palavra carregava um peso. Com a história das manifestações contra o Cunha e toda a possibilidade de retrocesso em relação aos direitos das mulheres, fui pra rua e descobri que sou feminista. Numa passeata, falei um poema e pensei: ‘Caraca, escrevi sobre isso, sou isso’.”

Assim que tiver Maria dizendo por aí, avisamos aqui na nossa agenda. E olha que ela diz… Maria adora pau mole, mas porque “é uma promessa de felicidade sussurrada baixinho ao pé do ouvido. É dentro dele, em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar, que mora o pau duro e firme com que meu homem me come”.

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