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Muito prazer, Nin

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Tiago Petrik]

Nunca antes, tão merecidamente, esta seção teve tantos motivos para dizer “muito prazer” para uma novidade. Com uma entrevista com Cicciolina na capa, chegou à Livraria da Travessa na última sexta-feira a revista “Nin”, especializada em arte erótica. A publicação é filha de uma relação de amor sem sexo entre Letícia Gicovate (formada em Publicidade e Moda) e Alice Galeffi (formada em História da Arte e Comunicação). A gestação durou longas madrugadas de suruba mental na casa de Alice, no Horto, onde foram feitas as fotos – propositalmente bem comportadas – que ilustram este texto.

A ideia é anterior ao encontro entre as duas. Letícia morava em Berlim, em 2009, e se impressionava com a quantidade de novas publicações que via surgindo por lá. Independentes, supernichadas, interessantíssimas, quase orgásticas. Naquela ocasião colocou na cabeça que um dia teria uma revista para chamar de sua. Alice teve praticamente a mesma revelação em Nova York, quando conheceu a Printed Matter, loja especializada em zines. Pirou.

Como as referências originais, a “Nin” tem muito de gringa, num certo sentido: vem com o subtítulo “Naked for no reason”; o número 1 conta com a colaboração de diversos amigos espalhados pelo mundo; e os textos têm tradução para o inglês. Na contracapa, uma citação de Anaïs Nin também é feita no idioma de Shakespeare – e de Suzanne Danielle. “Anaïs Nin foi a primeira a escrever contos eróticos. Estava num rolo com Henry Miller, que foi contratado por um mecenas anônimo a escrever. Como ela estava dura, ele repassou o job para ela. O mecenas nunca ficou sabendo, e começou a fazer novas encomendas, ainda mais vorazmente. E ela foi se libertando sexualmente através do que escrevia”, conta Letícia.

Palavra e imagem sempre andaram juntas, para as duas criadoras da revista. Alice editou, entre outros, “Este é um livro sobre amor”, de Paula Gicovate, irmã de Letícia, que atualmente produz conteúdo digital para marcas de moda. “Mas a Nin tem outro timing. Não queremos velocidade”, diz Letícia. “A revista é um objeto, e por isso é semestral”, conta Alice, que reforça a sensação da parceira ao lembrar que o mercado editorial voltado para adolescentes é um dos quem mais crescem, talvez porque já nasceram na frente do computador e agora precisem de uma pausa digital. Aliás, é importante dizer: a revista, embora muito elegante tanto nos textos como no aspecto gráfico, é para adultos.

E mesmo muitos jovens adultos provavelmente jamais ouviram falar da “garota da capa”, Cicciolina – e muito menos de Ilona Staller, o nome real da personagem que marcou o cinema pornô nos anos 80. Natural da Hungria, foi para a Itália ainda jovem, para trabalhar como modelo, e acabou tornando-se espiã da KGB antes de estrelar seus primeiros filmes. Mais tarde, com uma plataforma que não ia muito além dos grandes seios, que ela exibia na campanha, elegeu-se deputada. “[Era] uma forma de propagar minha ideologia e mostrar um símbolo do amor – o peito é o símbolo da mãe e, assim como uma mãe amamenta seu filho, eu queria amamentar a minha ideologia de amor, os que me apoiavam e os meus projetos políticos para a Itália. Eu frequentemente mostrava meu peito esquerdo, sublinhando e enfatizando a ideologia de esquerda do meu partido”, diz na entrevista. Além de falar do passado, a musa – hoje aos 63 anos – dá notícias sobre os projetos a caminho. A propósito, Alice e Letícia já estudam – sem sacanagem! – a possibilidade de trazê-la para uma festa de lançamento da “Nin”.

Fotos: Tiago Petrik

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