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Muito Prazer, Derek Mangabeira

Fotos: Wendy Andrade
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Texto: RIOetc

@terrick_

A gente não precisa apresentar o Derek fotógrafo por aqui. Como um bom ex rioetceterense, vocês já devem ter visto fotos dele por aqui ou até terem sido fotografados por ele pelas ruas. Mas precisamos apresentar o Derek designer de moda que lançou sua primeira coleção “Baile a Beira Mar”, em parceria com a Cerveja Praya. Formado em Rádio e TV pela UFRJ, suas experiências aqui pelo RIOetc  e pelo I Hate Flash deram a ele um contato com a moda e cultura jovem, e foi no IED que ele encontrou uma forma de canalizar toda esse experiência e conhecimentos pra criação. “A Praya tem essa ideia de ser um hub para novos criativos, e o meu case foi o primeiro. Então eu pensei que seria muito foda conseguir trazer a identidade da Praya pra dentro das peças, mesmo eu sendo uma pessoa zero praiana. Eu queria muito que fosse visivelmente praiano, mas que tivesse algum tipo de surpresa”, conta Derek. E o nome veio de uma troca com o Paulo, um dos sócios da cerveja artesanal. “O Paulo me mandou uma peça, uma camisa masculina com aplicações de estampa militar e aquilo me lembrou muito oncinha, que eu amo, porque amo coisa cafona. A coisa mais cafona que eu lembro logo depois de oncinha é casamento e baile de formatura. E aí nasceu o Baile a Beira Mar, um encontro entre um documentário de surf e um filme da década de 90.”

Apesar de terem gênero e serem bastante comerciais, as peças trazem a proposta de poderem ser usadas por qualquer um. A calça que o Derek veste, inclusive, é feminina e até o momento só foi vendida pra homens. Você pode conhecer a coleção de estreia do Derek pela loja online da Praya ou comprar com ele diretamente!

E como parte do especial #sobreserpreto, conversamos com o Derek sobre racismo e suas vivências. A entrevista você confere a seguir:

Em que momento você se percebeu preto? Quando sentiu/percebeu racismo pela primeira vez?

É bem difícil. Meu pai e a família toda dele é branca e minha mãe e a família toda dela é negra, mas eu cresci sem falar sobre racismo em casa. Quando esse assunto aparecia, meus pais falavam que racismo no Brasil não existe, que é muito mais uma questão social do que uma questão de raça. Que quem tem dinheiro não sofre racismo. Eu sempre estudei em escola particular e sempre fui o único preto da sala, mas nunca tive consciência disso. Sempre tinha a piada de que eu era o moreno, zoavam que meu cabelo era ruim, mas nunca foi algo categórico, nada escancarado. E na faculdade, eu era um dos pouquíssimos pretos, pois a política de cotas ainda não havia sido implementada na UFRJ. Não sei se é um privilégio eu nunca ter precisado pensar sobre isso, ou se é uma tristeza, porque nunca também me dei conta da minha identidade racial. Talvez sejam os dois. Até uns quatro anos atrás foi quando me reconheci como negro e comecei a entender que eu tinha sofrido uma série de preconceitos e discriminações ao longo da minha vida, que foram muitas vezes simbólicos e discretos, e que nunca tinha me dado conta. Eu nunca tinha deixado meu cabelo crescer, por exemplo. Esse hoje é o maior cabelo que eu tive na minha vida. Eu não sei ainda como é uma parte do meu corpo. Meu cabelo me pertence, é parte do meu corpo e eu não sei como ele é, porque sempre fui desestimulado a deixá-lo crescer. Por volta dos 18 anos me entendi como gay e comecei a freqüentar baladas, e sempre me senti preterido frente aos meus amigos brancos. Mas nunca me ocorreu que isso poderia ter relação com a raça, então, de quatro anos pra cá, foi um processo de descobrir minha identidade racial, de descobrir o que tá relacionado a isso, a minha existência enquanto sujeito. E é um processo muito doloroso, porque você se vê em uma posição de menos privilégio e é um processo gradativo, lento. Eu todo dia reconheço uma nova faceta da minha identidade. E foi o processo de me entender como gay, me entender como preto, me entender como preto e gay que é uma particularidade. Existem questões particulares do universo masculino gay preto, porque ao mesmo tempo em que você tem um movimento negro muitas vezes um pouco homofóbico, o movimento gay é absolutamente branco, as pautas são brancas, as conquistas foram brancas. Não existe uma preocupação com as questões identitárias do homem negro. Se você vai olhar produções homoeróticas, produções que tratam as conquistas gays sempre são protagonizadas por brancos. As demandas são brancas, por casamento, por representatividade na TV e isso é excludente de certa forma, porque você não coloca em pauta questões urgentes pro universo negro, como o aumento dos casos de AIDS no Brasil que atinge uma população menos privilegiada socialmente, cuja maior parte é negra. Uma vez que me entendi como gay, negro, eu entendi que sou um gay negro de pele clara e, por ter pele clara, eu tenho uma série de privilégios que pessoas com a pele mais escura não tem. Não que eu seja branco, longe disso. Me entendo como preto, mas eu tenho que reconhecer que por ter a pele mais clara, eu tenho uma entrada em alguns lugares que pessoas com a pele mais escura não tem. A questão do colorismo é muito complicada, existem muitas coisas a serem colocadas em pauta. Então eu sou um gay, negro, de pele clara e que teve uma socialização branca. E isso faz muito parte da minha identidade. Infelizmente eu não tive contato com outras pessoas negras até os meus vinte e tantos anos. Até lá, eu vivia só no universo branco, e isso pautou a minha construção identitária. As minhas referências são brancas, as músicas que eu escuto são brancas… E não é uma coisa da qual me orgulho. Eu infelizmente não tenho essas referencias na minha construção e é muito complicado pra mim me ver em outros ambientes. Eu me encontro em uma posição muito interseccional, porque são muitos encontros de identidade particulares que fazem com que eu não me identifique muito facilmente com outras pessoas. Óbvio que a subjetividade é particular, é única pra todo mundo. Às vezes pra mim é complicado me ver em alguém. Eu me vejo muito representado quando alguma dessas identidades é representada. Eu fico muito feliz quando um gay consegue um trabalho de destaque em um filme Hollywoodiano, ou em uma novela da Globo. Fico ainda mais feliz quando vejo um negro foda que passou por cima de muita coisa e chega em um lugar foda. Torço muito por eles, pela gente. Eu to agora conhecendo pessoas que tem essa característica interseccional na construção das suas identidades, mas são poucas.

E de que forma você tenta combater o racismo, seja numa esfera mais familiar, entre amigos, ou numa esfera maior?

Aproveitando a posição de privilégio que eu tenho, de ter acesso a espaços que são negados a maior parte dos pretos – eu fotografo muitas festas de gente rica -, a militância que eu adotei pra mim foi bem paciente e didática. Basicamente eu milito entre gente branca e hétero e é muito complicado. Às vezes escuto uns absurdos sem tamanho. Eu respiro 20 vezes e tento dar outras visões. A maioria dessas pessoas não tem a experiência do outro. A elite carioca, talvez possa expandir pra elite brasileira, vive dentro de uma bolha autocentrada e eles só conhecem espelho. Eles nunca olharam pra outro lugar que não fosse o próprio reflexo. Eles são racistas, óbvio, mas é também porque eles nunca conheceram nada diferente deles, eles não entendem o que é sofrer racismo, eles não sabem o que é ser seguido por alguém no shopping, não sabem o que é não ter o que comer. Eles sabem que isso existe, mas eles nunca foram colocados em confronto com isso. É um processo de aproximar as experiências deles com as de outras pessoas. É fazer um exercício de ponte. Como você não espera que um negro seja reativo quando falam um absurdo pra ele? A gente leva porrada a vida inteira de todo lado. Eu tive o privilégio de não passar por tantas experiências mais categóricas, por mais que eu tenha sofrido racismo sistemático ao longo da minha vida inteira de formas simbólicas. Pra pessoas que não tem tantos privilégios quanto eu, essas ações categóricas, humilhantes, físicas,são diárias. E óbvio que uma pessoa branca que mora no Alto Leblon nunca vai entender isso de primeira. A militância que eu faço é tentar fazer essas pessoas entenderem que existe mais além do universo Ipanema –Leblon, além da Zona Sul, excluindo os morros, porque nem os morros da própria Zona Sul eles têm contato. É um exercício muito louco da minha parte de ter empatia com o opressor. É você ouvir um absurdo e tentar pensar de onde vem isso. Às vezes dá vontade de só sentar no chão e chorar. E eu não peço isso de outras pessoas, é uma militância minha, que eu tomei pra mim. Bato muito palma pra quem é babadeiro e tombador que bate de frente e manda “tomar no cu”, porque ninguém é obrigado a ter paciência, a ouvir e tentar encontrar as palavras certas pra explicar que o que a pessoa tá falando é um grande absurdo.

Que ações você acha que poderiam e deveriam ser tomadas pelo governo pra combater o racismo hoje no Brasil?

Ações políticas são várias que podem ser tomadas: implementação de cotas, políticas afirmativas, investimento em educação, pra dar oportunidade pras crianças negras, dar mais espaço e oportunidade pra pessoas negras, pluralizar as pessoas nas empresas. Numa esfera social, fora do governo, seria ter mais empatia, a capacidade de olhar pro lado, enxergar outra pessoa e se colocar no lugar dela. Eu pediria mais empatia.

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