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Muito prazer, Bruno Meyer

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Juliana Rocha

[Fernanda Cintra]

Muito tem se ouvido falar em terapias holísticas, comunidades sustentáveis e na Era de Aquário. Discursos liderados por tais conceitos, aliás, quase sempre costumam se mostrar vagos uma vez encarados pela velocidade do “mundo real” – isso quando não confundidos com qualquer blablablá ou hipponguice. No entanto, há uma juventude empreendedora por natureza e harebô de coração provando justamente o contrário: valores que enxergam a sociedade como um todo podem e devem ser líderes de nossos discursos, sim. Bruno Meyer, 29 anos, é uma dessas pessoas. Sua missão de vida? Distribuir amor pelo mundo em forma de pizza.

Até o primeiro semestre deste ano, Bruno trabalhava (e muito!) produzindo eventos esportivos, e tinha uma rotina que se resumia a cama, chuveiro e escritório. Só que com a Copa das Confederações aportando na cidade, o que inviabilizava seu próprio trabalho (com o evento da Fifa, era impraticável ter concorrência), se viu “obrigado” a tirar férias. Ironicamente foi dispensado pela empresa para qual trabalhava um dia antes de partir para a Bahia, mais precisamente Itacaré, o que ele acredita até hoje ter sido uma mãozinha do universo.

É pertinho dali, na Península do Maraú, que fica a Ecovila Piracanga e seu Centro de Realização do Ser. Entre atividades energizantes como massagens ayurvédicas, leituras de aura e constelações familiares; além de alguns cursos misteriosos, Bruno escolheu o retiro ‘O Processo’ para se “matricular”. O curso durava cerca de duas semanas, sendo 6 dias sem comer ou beber nada. Ragi, líder espiritual da comunidade, era quem acompanhava tal processo, e foi ele quem disse a Bruno no quarto dia, quando estava prestes a desistir da experiência, a ficar mais uma noite – esta seria a mais importante de sua vida. O dia seguinte foi de muita luz e contentamento, além de amor irrestrito, é claro. Bruno tinha acabado de quebrar um dos programas mais importantes da humanidade, que diz que é impossível ficar determinado tempo sem comer ou se hidratar. Quebrar todos os outros programas agora ficaria muito mais fácil. “A gente acha que que mente, espírito e corpo é tudo uma paçoca só.  E não é. A mente é uma ferramenta que a gente não sabe usar, daí tanto remorso e preocupação. Mas a gente só deve se preocupar com esse momento de agora. Na verdade esse de novo, aquele já foi”.

Desempregado e feliz da vida, Bruno decidiu estender as férias por mais um mês, e pouco a pouco foi voltando para o mundo que conhecemos e suas questões habituais. Pediu ao universo, generoso, mais uma mãozinha, porque afinal de contas precisava descobrir o que fazer dali em diante, e a recebeu em forma de sonho. A mensagem (dos anjos) era clara: compartilhar amor através de uma pizza integral, sem glúten, feita com reiki e ingredientes orgânicos, tudo na forma de um coração. Por que pizza? “Ah, porque pizza todo mundo gosta. Até aquela pizza que tá lá, esquecida, do lado do ovo azul no quiosque, no boteco, o povo gosta”. Acontece que o rapaz mal sabia fazer pizza, e ainda por cima, o dinheiro era escasso. O jeito foi pedir socorro a uma amiga e chef de cozinha, a Cocó, sócia do Market Ipanema. Destino ou coincidência, Cocó tinha recém-chegado de um curso para massa de pizzas em Nova York.

E como rapadura é doce mas não é mole, encontrar uma receita integral-sem-glúten para tão amorosa massa logo demonstrou ser mais difícil do que deveria. Então chef Cocó teve uma idéia que podia dar certo, e na noite anterior à sua execução, mais um sonho. “Ela sonhou com a ligação de uma senhora que dizia: ‘Minha filha, anota aí, você vai fazer isso, isso e isso. Bota 100 gramas disso, uma colher daquilo outro…”, conta Bruno, achando graça. Eis que fizeram as duas receitas; uma ficou molenga e outra, muito biscoito. “Daí foi misturar as duas. O que tinha em uma, faltava na outra”. E como 1 + 1 são 2, taí a massa que hoje é puro amor, feita de farinha de arroz integral, farinha de tapioca, fubá de milho sem glúten, farinha de linhaça marrom, gergelim preto e branco moídos, sal marinho e fermento biológico. A tradicional brotinho ganhou o apelido de “amor próprio”, e a família, de “amor partilhado”. O cardápio de sabores também varia em tipos de amor: amor incondicional, amor eterno, dos anjos, e por aí vai. Bruno inclusive está aberto a sugestões de novos sabores-amores. Mas não vale confundir apego com amor, viu? E só pra constar, o amor divino, feito com tomate cereja e pesto verde,  já foi testado – e mais do que aprovado! <3 –  pela rioetceterete que vos fala.

Antes de levar sua pizza ao forno, Bruno prepara todo um ambiente de amor, onde as pessoas envolvidas e até a trilha sonora convergem para essa energia. O símbolo do reiki – técnica de harmonização e reposição energética através das mãos – é desenhado no molho de tomate, a fim de que o rapaz, que teve sua iniciação na prática ainda em Piracanga, possa materializar todo esse amor em alimento. Após um bom número de feedbacks positivos, Bruno garante que não há Mercúrio retrógrado que resista a sua pizza. A vibração de quem experimenta se torna mais amorosa, mesmo que de forma sutil. E para devolver ao universo tanta coisa boa, a Pizza do Amor promete ao final de cada mês levar mais sabor à vida de crianças em instituições de caridade. Para Bruno, este deveria ser o modelo de negócio convencional, onde em tudo o que você consome já está incluso uma minidoação.

Falando nisso, nosso pizzaiolo já planeja para o início de 2014 um crowdfunding para viabilizar sua “Kombi própria”. Sem sócios ou parceiros, quer angariar fundos para reformar e grafitar o carro à la veículo do amor, de forma que possa fazer o que bem entender com ele, especialmente eventos, coisa com a qual Bruno tem a maior intimidade. Uma roadtrip gastronômica também está prevista para breve.

Por enquanto, Bruno está disponível apenas para eventos – uma reunião entre amigos, por exemplo, já é o suficiente para convocá-lo. Na Casa Sou.l, faz planos de promover um voz e violão ou cineminha acompanhado de pizza a cada quinze dias. A título de curiosidade, o combo amor partilhado salgado + amor próprio doce (pense em calda de cacau com banana e farofa de castanha do Pará, hmmm) + poção da alegria (limonada de lima da Pérsia com hortelã super refrescante) custa em média R$ 30. Mas é sempre bom lembrar que o Bruno vende pizza: o amor mesmo vem de graça.

 

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