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Muito Prazer, Alexandre Baltazar

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Juliana Rocha

[Fernanda Cintra]

Em tempos de millenials tão infelizes, é sempre um sossego encontrar gente que usa a internet a seu favor, de olho na possibilidade de troca, e não no unicórnio do vizinho. Alexandre Baltazar, 24 anos, é dessa turma que deixou um emprego bacana em uma empresa bacana – com direito a totó, playstation e tudo mais – em troca de tempo e expressão pessoal genuína – e sem direito a mimimi.

Tudo começou na maior adolescência: anos atrás, Alexansdre se apaixonou à primeira vista. Só que por uma marca de óculos, e feito admirador secreto, destinou um e-mail à Sabre Visions pedindo uma atenção e, quem sabe, uns adesivos. Meses depois, eis que chega em sua casa uma caixa carimbada e recheadíssima dos tais adesivos, que tinha, entre outros mimos, até um par de óculos. O que muita gente chamaria de “sorte” virou uma espécie de fórmula que já lhe rendeu alguns trabalhos e colabs geniais. A camisa que ele usa na foto, por exemplo, é fruto dessa história; se amarrava na Läjä Records, gravadora de punk-rock referencial no cenário underground brasileiro. Aí entrou em contato, enviou uma arte, e agora tem um produto licenciado e à venda pela marca (já a marca de camisetas do próprio Alexandre, que se chama Mess Industries e já promete novidades de edição limitada para o próximo verão, é essa aqui).

O mesmo se deu com a banda francesa We Are Enfant Terrible (clica ali embaixo pra ouvir uma música que a gente selecionou!). Depois de algum tempo seguindo o grupo nas redes sociais puramente como fã, Alexandre fez contato e, thum, no maior amor, a capa de ‘Carry On’, lançada em sesetembro, é dele também.

Como se vê, o rapaz não é lá um carioca dos clássicos, e tampouco a brasilidade em pessoa, não fosse pelo trio futebol (é um flamenguista inveterado), feijão e artes plásticas. Ainda que o coração palpite por dadaístas como Raoul Hausmann, Kurt Schwitters e Hannah Höch, admira e estuda a obra de uma boa leva de artistas locais, como Samico, Arthur Bispo do Rosário, e outros tantos mais jovens, tipo a dona da última fachada da Redley, Carla Barth, e Gais Ama – com quem, diga-se de passagem, já troca e-mails e referências de papéis, colas etc. É que ele anda em fase de afinamento de materiais. Pois é, colagem é sim um assunto delicado, especialmente quando feita manualmente e no maior capricho. A princípio, muito por não saber desenhar, as tais colagens nasceram digitais. Com o tempo, a vontade de literalmente por a mão na massa foi crescendo, e o manual aconteceu ávido por texturas reais. Dia desses abraçou um catálogo de manchetes de revista dos anos 50 em um sebo do Flamengo e não o largou mais – virou fonte criativa de primeira necessidade, já que boa parte das colagens parte do acaso, construída em torno de uma imagem específica; embora haja todo o resto que parte mesmo de uma ideia mais ampla, um conceito.

A próxima série já tem título e é fundamentada no conteúdo teórico que adquiriu tempos atrás, quando ainda cursava Comunicação na Estácio de Sá (atualmente ele estuda Design na UniverCidade): um papo sobre a mediocridade dessa vida de todos os dias em sociedade. Lá no fundo, a gente desconfia no que também pode ser um desdobramento dessa vontade de viver a semana por inteiro, vendo o ano passar aos poucos, e não em drops de sábado e domingo.

Do próprio cotidiano, Alexandre também rouba outras coisas, como alguns dos objetos que entram nas colagens (olha o Dadá aí!) – envelope, plástico bolha, jornais – e inspiração. Pra ele, nada como acordar cedo e ir surfar ali no Recreio, onde mora. E já que chegamos no surfe, reparou nas pranchas da foto? É, é ele quem faz, cheio de intimidade. Cresceu na oficina de um tio shaper, e com pai ex-surfista profissional, fica tudo mais fácil, ou pelo menos, em casa. Uma das surfboards da Baltazar Customs inclusive, já quase viajou pra Indonésia com um programa de TV. Parece que, além de bonitinhas, as pranchas não são nada ordinárias. Coisa de Gen Y, que afinal de contas, também não tem nada de ordinária.

Alexandre acaba de se integrar ao Growp, coletivo de jovens criativos do Rio com um interesse em comum: colocar sua arte pra jogo, seja on-line ou em espaços colaborativos. Por isso é pra ficar de olho, viu? Vai que em breve essa galera não tá reunida em um livrão de arte, desses colecionáveis? Editor não vai faltar. O do “The Age of Collage” o Alexandre já tem o contato no Facebook.

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