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Um espaço com vida

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Gabriela Dore]

Em uma rua de paralelepípedos no Horto, calma e com o canto dos passarinhos, estão os sobrados que restaram da vila operária da América Fabril, antiga fábrica de tecidos. Uma dessas casas abriga o ateliê de Regina Kemp, ceramista e “colecionadora de objetos”, como ela mesma se intitula.

A fachada revitalizada demonstra todo o charme das construções cheias de história. A casa foi comprada por uma amiga que restaurou e decidiu alugar o espaço. Anteriormente, abrigava três famílias, o que havia alterado por completo a planta e as características arquitetônicas da casa: as paredes e o piso receberam massa e a planta foi repartida.

Regina e sua amiga começaram a pensar num plano pra resgatar a história do local e assim foram descascando parede e descobrindo tijolos e estruturas antigas de contenção, restauraram o piso de tábua corrida e reconstituíram a estrutura das janelas. O sobrado foi dividido em dois pisos: o térreo, onde funciona a Hardcuore (estúdio de design que a gente já mencionou aqui) e o segundo andar com mezanino, onde Regina trabalha. O sistema de divisão foi projetado pelo arquiteto Israel Nunes – basicamente o único projeto que foge da restauração do espaço original, com característica moderna e geométrica – realizado em materiais industriais. As escadas, em estrutura metálica com tábuas de madeira, também foram instalados na reforma.

E ainda tem os móveis… Não dá pra acreditar, mas nada ali foi comprado em uma loja tradicional como é de se esperar. Cada objeto foi garimpado em feiras, antiquários, em lojas inesperadas da Lavradio (que hoje em dia já fecharam as portas), ou achado nas ruas. As referências de placas francesas foram resultados de viagens à Paris com o marido, que nasceu na França. A grande maioria dos objetos foram encontrados em caçambas e descartados por outras pessoas – até mesmo um banco Sérgio Rodrigues: “Faltava um pé. Resolvi pegar e consertar”. Os bancos de madeira quadriculadas são originários de todo um sistema de estante descartado em uma rua de Copacabana. “Deu pra  fazer dois bancos e a mesa do computador”, explica. A cama anos 50 de pé palito que serve de sofá também veio do descarte de outro apartamento: “ as pessoas não sabem o valor que os objetos têm”.

– Tem alguma coisa que você comprou de forma tradicional?
– Madeira, pra completar algumas estantes e estruturas de suporte.

E ainda tem os objetos… Bebedouros antigos esmaltados viraram vasos de plantas, assim como uma panela de vapor abriga algumas suculentas em sua área externa. Na decoração é onde seu lado mais criativo transborda. Peças de cerâmica realizadas por ela se misturam com objetos herdados pela mãe e em cada canto é possível ver uma pequena coleção de apetrechos similares: espelhos de interruptores reunidos em um canto de parede; pedaços de rodapé de teto em diversas cores, esmaltes, desenhos e formatos repousam alinhados na beira da escada; bandeirolas coloridas ornam a descida da escada; e lustres de vidro enfeitam o topo de suas estante expositora.

O espaço é uma bela mistura do rústico com o industrial e referências brasileiras estão por toda parte. As tradicionais toalhas de mesa à laise vieram da Bahia e fazem o papel de cortina; entre as janelas encontram-se uma coleção de azulejos com ilustrações de cordel de Jota Borges. A cadeira de painço achada no lixo se integra com a parede de azulejos expostos. As estantes metálicas industriais foram compradas e pintadas de preto e funcionam como expositores de suas peças prontas para venda. Um armário de escritório antigo com gaveteiros foi pintado de amarelo e funciona como organizador de seus materiais de trabalho, no topo pode-se ver sua balança de químicos. Caixotes e engradados espalhados expõem algumas ferramentas. “Desculpa a bagunça”. A “bagunça” – extremamente organizada – é característica de um trabalho que ali acontece, um espaço com vida.

Existe um equilíbrio dos materiais industriais presentes nos móveis e na iluminação feita por gambiarras com o rústico e artesanal dos objetos garimpados e da estrutura da casa. Esse equilíbrio traduz também a essência das peças de Regina: cerâmicas feitas de forma artesanal com um design moderno e arrojado.

Sinta-se convidado a descobrir esse espaço cheio de personalidade e história clicando nas setinhas!

Onde comprar:
Para comprar as peças da Regina entrar em contato pelo site.

Para garimpar peças tão originais quanto as delas sugerimos um pequeno circuito e um olhar afiado :

Praça XV, Centro.
Rua do Lavradio, Lapa.
Feira de antiguidades da Praça Santos Dumont, Gávea.
Shopping do Antiquários na Siqueira Campos, Copacabana. 

Fotos: Tiago Petrik

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