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Era uma vez a casa do Hull

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Isadora Barros]

Do corredor de um prédio calmo numa pacata rua de Laranjeiras já se sente um aroma de incenso, daqueles leves, que se espalham no ar com facilidade. A porta se abre e um abraço me convida pra entrar.

– Você quer um café? – ele me ofereceu

– Prova, é uma delícia, de cafeteira italiana. – recomendou a Ju, fotógrafa que já tinha sido recebida antes da minha chegada.

Rodrigo é desses. Gosta de receber mesmo quem ainda não conhece. No cabideiro que fica logo atrás da porta de entrada, bolsas, óculos e objetos do dia-a-dia se confundem com plumas e perucas, numa espécie de painel que já de cara te avisa que tudo nessa casa tem seu lugar – e uma boa dose de humor. Antes de morar sozinho, peripécia inciada há 2 anos, Rodrigo Hull morava com a mãe no Humaitá, bairro que aliás abriga a maior parte de sua família. Os dois se mudaram pra Laranjeiras, ele engatou a Hull, e a casa ficou pequena demais pros 5 – Rodrigo, a mãe, a Hull e os dois gatos: Duque e Nina. A partir daí, o ateliê da mais nova empreitada passou a ocupar dois quartos da casa e Hull começou a criar apreço por cada cantinho da casa. “Trabalhando em casa fica mais fácil pensar na decoração”, explicou. Sorte do namorado, prestes a se mudar pra lá com o pacote completo. E nem precisa de bagagem.

Hull poderia ser chamado de acumulador não fosse um admirável talento pra dispor suas relíquias de família de forma surpreendentemente harmônica. Cada objeto tem história – e ele ama que seja assim. Nas mesas, algumas máquinas de costuras da avó; nas prateleiras, dezenas de livros centenários do bisavô (que ainda conservam suas iniciais estampadas); numa bancada, o presente da antiga proprietária do apartamento  (hoje amiga): um moedor de café bem, bem rústico. Os descrentes diriam que é balela, mas a verdade é que Hull é canceriano com ascendente em câncer. Não poderia ser diferente: há história (íntima) em tudo o que vejo.

Não bastasse o cuidado com a decoração, Hull ainda tem fama de excelente anfitrião (alô, lua em leão!) e ~adora~ receber. Não é difícil perceber: basta contar o número de cadeiras, sofás, banquinhos e almofadas esperando alguém pra ocupar. “Acho que são lugares 19 aqui na sala.”

A Hull cresceu, a demanda aumentou, a criatividade não viu limites e a necessidade fez o designer derrubar a parede que dividia dois quartos do apê pra transformar tudo aquilo em um único grande cômodo destinado às criações da marca. No mural de cortiça, algumas inspirações se confundem com os novos croquis da coleção que tá pra ser lançada – o e-commerce, aliás, acabou de entrar no ar.

Se o ambiente é calmo, a música, sempre presente, faz questão de equilibrar a balança. Enquanto cria, Hull aposta nas batidas mais marcantes e não dispensa Radiohead, por exemplo. Na hora de receber, a mesa de centro se arrasta prum canto e a sala+cozinha=boate vira pista de dança pra quem quiser se jogar.

Então já sabe: se um dia você for convidado pruma reunião na casa do Hull a resposta é “sim”.

Fotos: Juliana Rocha

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