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A Bolha

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Juliana Rocha / Texto: Clara Mazini

No terraço cinzento da antiga fábrica da Bhering (que a gente mostrou aqui) encontramos uma pequena casa amarela. Emoldurada pelo céu fechado, cheio de nuvens carregadas, a construção lembra um pequeno sol que ilumina a paisagem de concreto. Trata-se da editora A Bolha, iniciativa que, de fato, chegou pra dar uma nova luz ao mercado editorial brasileiro.

Fundada pela inflamada Rachel Gontijo, a Bolha, na ativa desde setembro do ano passado, possui oito livros publicados, muitos títulos distribuídos e uma proposta diferente: divulgar autores bons. Incríveis. Imperdíveis. E estranhos. Ousados. Nada convencionais. Em suma: gente da melhor estirpe que dificilmente chegaria por aqui.

A lista de autores (claro) conta com nomes pouco óbvios, como Bhanu Kapil, Nathanaël, Douglas A. Martin e Christopher Forgues, a.k.a. C.F. – trupe gringa que lá fora já faz barulho ao mandar às favas as narrativas convencionais e que tem tudo para conquistar nossos corações tupiniquins, why not?

Foi nos Estados Unidos, aliás, enquanto cursava seu mestrado em Belas Artes na Universidade de Chicago, que Rachel teve a ideia de fundar a Bolha e trazer para o Brasil seus xodós literários. Hoje instalada em um confortável apartamento no bairro da Glória, a editora fez de seu local de trabalho um lar doce lar de boas ideias. “O que mais gosto no espaço é que ele não cheira a formalismos, não é um lugar sisudo”, afirma. Basta entrar na casa amarela para entender o porquê.

 

Era uma casa muito engraçada

Ao entrar na Bolha, prepare-se: você será transportado para uma dimensão paralela, e corre o risco de não querer mais voltar. O espaço, antes um refúgio para os pombos e pássaros que costumam sobrevoar o topo da fábrica, seduz imediatamente pelo visual aconchegante e cheio de surpresas.

Além de editora, a sede da Bolha também faz as vezes de centro de exposição.  Próximas a uma das portas de entrada, misturadas aos livros, ilustrações do artista plástico Virgilio Neto tornam o passeio pelas prateleiras ainda mais agradável – para completar, pequenos vasinhos de flores comprados pelo artista no Saara dão um toque lúdico e pessoal à pequena mostra.

Outros desenhos expostos por ali são os do argentino Federico Lamas, autor do livro “Vá para o diabo”, lançado pela casa. Feitas para enganar o olhar, as ilustras guardam “cenas secretas”, visíveis apenas com um filtro vermelho. Você coloca e… descobre que por trás do pacato universo criado pelo artista existem cenários no mínimo perturbadores.

Há ainda uma pequena copa coberta com ladrilhos coloridos – quem quiser pode imaginar que pela torneira sai uma água azul ou laranja – e no teto um painel de letras decora a entrada do sótão.

Enquanto caminhamos para ver todos esses detalhes somos observadas pelo personagem criado por Leandro Mello, que de seu quadro, pendurado num canto da sala, parece gritar alguma mensagem em plenos pulmões que não conseguimos ouvir, mas podemos imaginar. Bem em frente a ele fica a mesa principal da casa – ela é cercada por caixas de feira recicladas que ao invés de frutas guardam livros não menos suculentos. A vontade é de provar um pedaço de cada, mas nos contemos.

Talvez por saber do gostinho único de seus produtos, Rachel embrulhe cada livro em sacolas de papel que lembram as clássicas embalagens de pão. Nelas, os dizeres “Servimos bem para servir sempre” transmitem o espírito leve e fluído da Bolha.

Antes de irmos embora, recebemos uma visita surpresa: um pássaro, talvez com saudade da antiga casa, arrisca um passeio pela editora, mas logo vai embora. É… foram-se os tempos de Pombal, passarinho!

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