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Sorvetiño: até quem não gosta, gosta.

Fotos: Andressa Guerra
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Texto: Gabriel Boliclifer

Eu tenho uma coisa pra confessar aqui. Talvez isso mude completamente a imagem que vocês tem de mim, talvez vocês me achem um monstro e eu tenho plena noção disso. Mas eu prometo que eu sou gente boa e minhas dicas ainda valem a pena serem seguidas. Eu nunca gostei muito de sorvete. Eu sei que gostar é quase unanimidade, mas deixa eu explicar meu ponto — lembrando que eu não vou falar de picolé e outras ramificações porque aí são outros 500.
Tem alguns fatores aí na equação So+V.t que me levaram a não fazer muita questão do famoso geladão da galera. Primeiro, o próprio sorvete. Os clássicos baunilha, chocolate e morango nunca me chamaram atenção e eram sempre os únicos que tinham. Daí era escolher entre isso e salada de fruta — que convenhamos, não é sobremesa — e eu acabava abrindo mão da melhor parte da refeição. Depois, temos os acompanhamentos. Se tem uma coisa que eu desprezo nessa vida, é calda pronta pra sorvete. O gosto artificial, a textura bizarra, eu não consigo entender o porquê de estragar as coisas jogando calda por cima, quando você pode só fazer um brigadeiro e comer junto. No final das contas, eu preferia só não comer nada a comer sorvete. Mas como o mundo realmente não gira — calma, terraplanistas — ele capota, tudo mudou numa tarde de verão.

Pistache. Sempre gostei do processo meio ritualístico de comer pistache. Abrindo as casquinhas eu me sentia quase como que preparando um chimarrão ou apertando um tabaco. Mas o que eu nunca imaginei é que ele seria a porta de entrada pra sorvetes mais pesados. A partir daí eu encontrei novos sabores, novas combinações e novas sorveterias. Outra virada muito importante foi quando eu descobri que o sorvete de pistache que eu comia estava muito mais pro artificial do que pro natural. Após provar o pistache da Bacio di Latte, voltei pra casa e vi que tinha um da marca que eu mais consumia. Impossível, não podia ser pistache, tinha gosto quase que de menta com chocolate… É impressionante a diferença que parâmetros diferentes fazem nas experiências. Desde então eu ia seco no pistache sempre. Podia até experimentar um sabor ou outro — romeu e julieta tem meu coração pra sempre — mas nada tira o pistache do primeiro lugar. Em 2019 ainda tive a oportunidade de ouro de provar o melhor gelato do mundo na Itália, em uma micro cidadezinha chamada San Gimignano, na Toscana. Em 3º lugar: damasco orgânico — mais suave e puro damasco que isso, só dois disso. Em 2º, framboesa com alecrim — delicadeza e intensidade da framboesa com o frescor e perfume do alecrim. Em primeiríssimo lugar, eu deixo pra vocês adivinharem. Não sei se já deixei óbvio demais qual seria meu sabor favorito.

Acho que pelo andar da carruagem, já deu pra perceber que eu ainda sou meio chato pra sorvete. Vou sempre nos mesmos sabores, experimento pouco, ainda não acho a melhor sobremesa de todas e não fazia questão de ter em casa. Não fazia. Agora faço desde que descobri o Sorvetiño. Lucas Mariano é o nome do mago por trás da alquimia. Depois de se formar em gastronomia pela UFRJ e começar a fazer eventos espontâneos em casa, onde encantava com sua cozinha autoral, quis focar um pouco na confeitaria e fez um curso de sorvetes — assim, despretensioso mesmo. Se apaixonou e, voltando de viagem, trouxe uma sorveteira pra fazer seus experimentos. 40 minutos foi o tempo que deu pra quem viu o primeiro anúncio de seus sorvetes no Instagram. Esgotou tudo. A notícia correu e hoje em dia é tão difícil de conseguir um sorvetiño, que diz a lenda que dentro do santo graal tem um pouco escondido pra nunca ser encontrado — mas aí já não fui eu quem disse, foi o terraplanista. O que eu tenho certeza absoluta — porque aconteceu comigo mesmo — é que hoje o sorvetiño de leite, caramelo, maçã, canela e avelã ocupa o meu TOP 2 de sorvetes. Inclusive o meu estoque acabou e eu já ativei as notificações pra quando abrir pedido de novo. Que loucura né, um dia você não gosta de sorvete, no outro tá acampando na porta da loja igual show de Sandy & Junior. A vida é sobre isso. E tá tudo bem.

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