Ir para conteúdo

Bem-vindos ao Largo do Vidal

Fotos: Tiago Petrik
|
Texto: RIOetc

[Tiago Petrik]

A crise do coronavírus provocou uma quebradeira generalizada de bares e restaurantes, de Norte a Sul do país. Estima-se que 300 mil estabelecimentos fecharam as portas, o que equivale a mais de 30% do que havia. No Rio, casas tradicionais como o Villarino e o Sentaí, no Centro, a Fiorentina, no Leme, e o Hipódromo, na Gávea, não resistiram e tiveram que encerrar seus negócios.

Diante de toda essa tragédia – não apenas sócio-econômica, mas cultural – um oásis de prosperidade é comandando por Raphael Vidal, o barbudo gente boa aí das fotos. E não é no hype da Zona Sul, mas no esvaziado Centro, ou no que restou dele após quatro anos de Crivella e quase um ano e meio de home office. Mais precisamente, ali no Largo de São Francisco da Prainha, onde ficam todos os endereços de sua organização, formada por Casa Porto, Bafo da Prainha e Tendinha. Tudo pé-sujo da melhor qualidade, com cara e alma de botequim, numa linda homenagem/referência a seus congêneres suburbanos: com comida boa, bebida gelada e preço justo.

Vidal não é um Midas (ao contrário disso, conhece bem o outro lado da moeda: em 2018, estava totalmente quebrado, devendo mais de R$ 200 mil). Mas é alguém com visão, uma boa dose de sorte e, sobretudo, vivência de boteco – como cliente. A Casa Porto nasceu em 2013 como centro cultural, mas ganhou corpo mesmo quando ele resolveu colocar as coxinhas de pernil e as moelas à milanesa pra jogo. Mas foi um longo caminho e, àquela altura, estava com duas ordens de despejo em mãos, da casa onde vivia e da própria Casa Porto. “Nunca fui um cara bom de contas. Tava fudido, e precisei abrir a casa como botequim. Era dia 5 de março de 2018. Troquei o pneu com o carro andando. Não tinha cozinha. Era um fogareiro de camping, um micro-ondas e um forninho”, recorda.

O sonho de Raphael Vidal era ser editor de livros. Desde moleque, em Vista Alegre, devorava livros e também se arriscava na escrita. Pra se sustentar, ainda adolescente, imprimia cartões de visita e editou um jornal de bairro no Irajá. Depois foi para uma empresa de sinalização – e lá criou alguns letreiros para bares e botequins. “Meus primos eram da rua. Do bar, da macumba, do samba, e fui nesse caminho também”, lembra.

Foi já durante a faculdade de Filosofia que conseguiu se embrenhar na área editorial, primeiro trabalhando num sebo e depois como assistente de uma casa especializada em Ciência. Também lançou um zine, “Os Sulaicos”, e uma revista literária virtual, “Bagatelas”, que ganharia edições impressas. E vendia suas “Cartas de Resistência” na livraria do Paço e, mais tarde, na Travessa, onde seria responsável pela área de pockets importados, mesmo sem falar inglês. No palacete onde viveu a família real criou encontros literários com escritores renomados, que sentavam para tomar uma cerveja e abrir o verbo em público.

O prazer nessas resenhas acabou fazendo com que descobrisse o ativismo cultural. Coincidiu com outro achado – foi amor à primeira vista –, o do Morro da Conceição, pérola encravada no Centro, que tem o Largo da Prainha a seus pés. Foi lá que criou o Fim de Semana do Livro do Porto, festival literário do Morro da Conceição que teve sua primeira edição em 2011, e que foi parcialmente bancado graças a uma prosaica ligação para o 1746 da Prefeitura. Foi o primeiro evento que fez envolvendo toda a comunidade ao redor, e nunca mais foi diferente. O sucesso lhe valeu um convite para ser produtor cultural do Museu de Arte do Rio, papel que desempenhou até abrir a Casa Porto.

Raphael Vidal não fez nada sozinho. Mas em tudo o que faz, ajuda os outros. A história da Casa Porto na pandemia é emblemática: “Em janeiro de 2020, tinha terminado de pagar todas as minhas dívidas e pensei: “este é o meu ano”. Aí veio a pandemia”, lembra. “A primeira coisa que pensei foi: “Como eu acalmo os funcionários?” A galera de grupo de risco e que pegava transporte público, deixei em quarentena. Cheguei junto da Ambev – eu tinha negado uma parceria no ano anterior – e com isso entrou um dinheiro. Esse dinheiro adiantei 3 meses de salário de cada funcionário. Foi uma forma de comunicar que não era pra se preocuparem”.

Criou o delivery com a frota de motoqueiros do Morro da Conceição, atendendo do Méier à Gávea. Em agosto, adiantou mais 3 meses. Em janeiro, um vizinho que não resistiu à pandemia entregou o imóvel, e depois de uma breve reforma nasceu o Bafo da Prainha, ocupando a pracinha com seu churrasquinho suburbano. “É uma homenagem à rua. O largo voltou a ser um lugar de convívio cotidiano, popular, que os moradores também frequentam. Contrato moradores para trabalhar. É seguro, acessível, barato”, diz, festejando o fato de estar sendo “atropelado pelas oportunidades”. Algumas semanas atrás, a varanda do Bafo recebeu um showzinho de Moyseis Marques; em breve, estará lá Moacyr Luz. Mas não é só isso.

A Casa Porto, mesmo com apenas 10 de suas 40 mesas, não parou de bombar no período pandêmico. “Começamos a fazer um sistema de reservas, um dos funcionários que estavam em casa virou chefe do atendimento. Não é robô no nosso whatsapp, é gente mesmo. E aí a gente conseguiu controlar as reservas. Talvez seja o único botequim do Brasil que você precisa dizer a hora que vai embora ao fazer a reserva. Porque preciso botar outra pessoa 15 minutos depois. Se deixa o tempo indeterminado, não tem como as pessoas esperarem”, explica.

Pra completar, mês passado Vidal abriu a Tendinha, seu terceiro empreendimento na região, e dá os últimos passos pra finalizar seu Pequeno Museu Carioca, que terá três galerias. “Eu podia abrir mais um bar, mas a ideia é um respiro de celebração da ancestralidade afro-brasileira, aqui do Largo da Prainha e da Pequena África. A gente precisa ter essa referência”, avalia.

A gente recomenda a visita ao Largo do Vidal. De preferência, com direito a um papo com ele, regado a petiscos e cerveja. O Largo de São Francisco da Prainha é a prova de que o Rio e a carioquice podem dar certo.

Comentários