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Aroma de memória: o pão nosso de cada dia

Fotos: @nema.rio
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Texto: Gabriel Boliclifer

De tempos em tempos eu me pego revisitando uma memória bem específica da minha infância. Na volta da escola, no banco de trás do Inácio — fusca creme 74 que era o xodó da família — sempre parávamos na padaria do bairro. Num dia bom, era a gente chegar no balcão que o padeiro vinha lá do fundo com o cesto no ombro, uma fornada fresquinha, recém saída do forno. “Moço, 10 franceses por favor”. Não podia fechar o saco, pra não suar e perder a casquinha crocante. O cheirinho de pão fresco tomava o carro todo antes que minha mãe se desse conta de que o troco tinha virado chiclete escondido no meu bolso. E me diz você, como resistir ao cheiro de pão quentinho? Pois é, não dá. Cada um tinha direito a um biquinho de pão, que era o suficiente pra enganar a fome até chegar em casa. Muitas das minhas memórias afetivas esbarram no pão — seja nas mais antigas, fazendo pão de minuto com meus tios ou nas mais recentes, compartilhando a sova dos pães que meu pai inventa de vez em quando. Eu já não moro na mesma casa da minha infância, inclusive me mudei pela 3ª vez agora, mas independentemente de pra onde formos, tem que ter pão bom em volta. Tem muita coisa que eu vou sentir falta na mudança de Ipanema pra Laranjeiras, mas uma que já deu saudade na primeira manhã foi o pão do NEMA.

Falando em lembrança, lembra quando o Rio tava bombando? Era copa, era olimpíada, a rua não parava, o fervo. Foi no meio dessa confusão que o Rafael chegou aqui. Conheceu Klaus — que já tinha seus arranjos com a panificação — e percebeu uma brecha no mercado: ou era pão gourmet, de fermentação natural e preço mais salgado ou era o pão do supermercado. Queria um trabalho autoral, com liberdade, que pudesse oferecer um contraponto aos pães das grandes redes de supermercados, mas com uma produção mais enxuta, mais simples, focado no ingrediente e no mais importante de tudo, no cliente. Em 2018 o NEMA abriu na Vinicius de Moraes 110 seguindo exatamente a proposta de democratizar a padaria de qualidade. Tem pão quentinho, tem sonho, tem pizza. Inclusive a pizza é super elogiada, embora aqui em casa a mais pedida seja sempre a baguete – o pão nosso de cada dia durante esse 2020 enclausurado em uma casinha de vila em Ipanema.

Aliás, o nome NEMA não vem de Ipanema, choquem. Vem de Neusa Maria e Matilde, avós de Rafael e Klaus. E que melhor nome do que nome de vó pra se dar pra uma padaria, né? Afinal, vó tem tudo a ver com sonhos e quitutes e pãezinhos. Casa de vó me lembra café e pão com manteiga. Tô saudoso. Acho que faz parte da mudança rever tudo, lembrar de coisas esquecidas, achar fotos antigas, de memórias de outros tempos e lugares. Mas acho que nada nunca vai me remeter tanto à infância e me transportar tanto pra dentro daquele fusca 74, como o cheiro de pão quentinho.

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