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Fazendo a curva: Boxe do Borel

Fotos:
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Texto: Tiago Petrik

“O campeão olímpico de boxe, Robson Conceição, é da periferia da Bahia. A medalhista de ouro e campeã mundial no judô, Rafaela Silva, é da Cidade de Deus. Então, brother, tá comprovado que não precisa ter a melhor nutrição. Basta a maior dedicação e alguém pra falar o que tem que fazer”.

Essas palavras, proferidas por Uidson Alves Ferreira, ganham ainda mais força.

Ele é campeão carioca de K-1, uma modalidade do muay thai. Mas já passou por muita coisa antes de abrir seu Projeto Social Boxe do Borel, onde ensina a nobre arte para 30 crianças, adolescentes, adultos “e até coroas de idade”.

Seis de seus 32 anos Uidson passou na cadeia. Foi preso duas vezes, uma por porte ilegal de armas e outra por assalto a mão armada. Desta última acusação ele se diz inocente, mas acredita que o cárcere salvou sua vida. “Eu era segurança de um narcotraficante em Manguinhos. Eu estava em ascensão dentro do crime. Ganhava R$ 800 por três dias de serviço, de sete da noite às quatro da manhã”, conta. No presídio, passou a frequentar as aulas de Fábio Leão, ex-campeão de MMA; já praticava artes marciais desde os 7 anos de idade, e resolveu seguir o exemplo de ensinar o que sabia quando saísse de trás das grades.

Ao deixar a prisão, há três anos, foi parar no Borel – voltar para casa não era mais possível, porque uma facção rival à que tinha pertencido já tomava conta da área.

Primeiro, na associação de moradores, e atualmente na quadra da Unidos da Tijuca, é onde Uidson recebe seus alunos – de quem não cobra nada. Conta com o auxílio de Cristiane Sabino (que aparece nas fotos), coordenadora do projeto. E vive das aulas particulares que dá na academia Delfim, na Tijuca.

Neste domingo, a partir de meio-dia, a quadra vai receber um aulão, aberto a todos. O convite é parte do XV Worldwide Instameet, promovido pelo Instagram, que tem como tema “Gentileza”. A ideia é ajudar na arrecadação de artigos esportivos. “Meu sonho era ter um saco de pancadas em cada coluna, ver esse chão coberto de tatames, um par de luvas pra cada aluno e uniforme. Aí meu sonho tá realizado. Quando eu morrer, um aluno meu continua, e leva adiante a outro, e outro e outro. E muita coisa pode mudar por causa desse simples material”, avalia Uidson.

Lembra da primeira frase deste texto? Ele tem toda razão.

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