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RIOetc entrevista Na Ladeira

Fotos:
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Texto: RIOetc
_DSC3207 cópia_DSC3071 cópia_DSC3086 cópia_DSC3128 cópia_DSC3251 cópia_DSC3165 cópia_DSC3186 cópia_DSC3193 cópia_DSC3234 cópia_DSC3240 cópia_DSC3105 cópia [Fotos e texto por Juliana Rocha]

O pastor soa uma buzina melódica chamando as crianças pro almoço. Elas correm, entram numa pequena sala de mãos vazias e pés descalços, e saem dali minutos depois, chupando laranjas. Uma agarrou a minha perna e disse – “comi tudo, tia!”. Os turistas embalados pelos tamborins da Mangueira nem imaginam que ao lado da quadra mora essa realidade avassaladora: 400 famílias dividem as ruínas do antigo prédio do IBGE, sem luz, água ou saneamento. 14 anos de ocupação testemunharam duas tentativas de remoção, frustradas por pessoas que se recusaram a não ter pra onde ir.

Quem almeja descortinar esse mundo abandonado é o Na Ladeira, coletivo formado por Leonardo Carrato, fotógrafo, Vitor Kruter, cineasta e Augusto Lima, jornalista. Eles uniram forças no projeto de um documentário, o Artigo 6º – Não Queremos Virar Estatística, que está sendo financiado através do Benfeitoria até 28 de junho – participe! O objetivo é sensibilizar a sociedade e organizações políticas para garantir uma moradia digna pra essas famílias e debater o tema da moradia assim como o acesso à própria cidade.

Leonardo e Augusto se conheceram enquanto cobriam as manifestações de 2013 e, como uma das pautas desse movimento era Copa do Mundo, acabaram se envolvendo com as remoções na região do Maracanã. Eles cobriram por três dias a situação no metrô Mangueira e estabeleceram uma relação especial com os moradores, principalmente com o ‘RP da comunidade’, o Paulista. Foi ele quem, um ano depois, avisou que um cano havia estourado no Centro Cultural Cartola e que o prédio do IBGE estava “com água e esgoto até os joelhos”. Vitor entrou no grupo no início desse ano, se envolvendo na produção do documentário.

Boa parte das famílias que moram ali sobrevivem como catadores de lixo. A realidade de suas casas, muitas sem portas e nenhum móvel, foi fotografada por Leonardo, que ganhou um prêmio por esse material. O trabalho – que funciona como um teaser do doc – está exposto na Galeria 80, em Copacabana, até o dia 20 de maio e ali eles recebem  doações de roupas, agasalhos, brinquedos, materiais escolares e alimentos não-perecíveis.

A comunidade ao redor tenta oferecer alguma ajuda também: um vizinho cede uma mangueira pra que as crianças possam tomar banho, o pastor Wagner oferece café da manhã e almoço, alguns agentes de saúde visitam o local… O Na Ladeira começou um cineclube e pretendem realizar oficinas, como de desenho e leitura. Na campanha do crowndfundind existe a opção de ‘apoio não-financeiro’ pra quem quiser ajudar com alguma iniciativa nesse sentido.

Quando eu perguntei qual foi o depoimento que mais marcou até agora, Leo respondeu: “Acho que o de uma mãe de família que tinha o sonho de tomar um banho de chuveiro”.

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