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RIOetc entrevista Mulheres de Buço

Fotos: Bel Corção
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Texto: Vivian Melchior

Outro dia meu culpei por ser a “chata” em um grupo de whatsapp na discussão sobre feminismo. No dia das mulheres, soltaram uma piada sobre como as mulheres se atrasam e, por isso, demoraram pra perceber que o dia 8 havia chegado (brincando sobre o esteriótipo das mulheres ficarem horas se arrumando). Pensei em não comentar nada mas, depois, refleti: será que não é importante falar mesmo que as pessoas não entendam? Mesmo que eu seja julgada – como fui – sob acusação de ser chata? Acho que não tem problema ter piada, mas acho importante que elas sejam pensadas, debatidas e problematizadas, principalmente quando a mulher esteriotipada é a protagonista. Confesso que só depois de fazer a entrevista com as Mulheres de Buço, e só depois de ouvi-las, entendi que foi importante ter falado o que eu senti. O que a gente precisa é de conversa, debate, como elas dizem, “papo reto”.

Foi em uma tarde de sexta-feira, em frente ao Tablado, que encontrei com elas: Beatriz Morgana, Carolina Repetto, Clarice Sauma, Joana Castro, Lilia Wodraschka, Lucia Barros e Manuela Llerena. Tive uma conversa tão legal, tão aberta e me senti tão à vontade que fiquei com medo de escrever mais do mesmo. Afinal, escrever sobre elas é escrever sobre mim também, é falar sobre as mulheres, sobre a liberdade ou sobre o que muitos, infelizmente, ainda acreditam ser “mimimi”.

Tudo começou no próprio palco do Tablado, onde elas se conheceram e começaram as Mulheres de Buço. Já fizeram vários shows pelo Brasil: manifestações, festivais, ocupações (como o Ocupa Minc carioca, a Bienal da UNE, em Fortaleza, e o Festival Educação Sem Temer, da UFRJ). Participaram de um concurso de apresentações cujo vencedor ganhava R$ 100 (eleito pela plateia). Cantaram alguns funks que a Clarice e a Joana já estavam escrevendo e, voilà: ganharam! “Apresentamos os funks pras meninas no bar mesmo, na brincadeira”, conta Joana. Incluíram então o funk no repertório. O resultado – e o que você pode ver em cartaz no momento – é uma peça-show, a primeira das meninas, com muito punk-funk-rock, onde, em um cenário de um camarim, conversam e problematizam em textos escritos por elas, sobre a questão do que é ser mulher, da liberdade ao corpo feminino e outros debates.

“Qual é a diferença entre show e teatro? No show, a plateia quer ser chamada, quer participar. Já a plateia do teatro tem medo, e nós, no palco, não podemos quebrar a narrativa. No show a gente para, bebe água, é mais papo reto”, comentam as meninas ao defender que com show o alcance do que elas querem falar é muito maior. “Gostamos desse lugar híbrido, sem quarta parede”, acrescenta Lucia.

A peça-show é, afinal, um desafio tanto para as meninas – que se propuseram a tentar se entender no mundo através do espetáculo – quanto para quem assiste. Não é uma apresentação fácil de se assistir mas tá ai pra isso:gerar reflexões, ser debatido, pensado. A dificuldade se torna ainda maior quando alguns pais e mães se recusam a assistir: “algumas pessoas não concordam e o que a gente tá tentando fazer é justamente trazer este debate pra peça”, explica Bia. Elas estão em cartaz, todos os sábados e domingos, as 21h, até 16 de abril.

“Vem com a mulherada que o momento é agora. Nenhuma amiga é cobra, esquece as recalcadas, as mina toda junta já é a nova parada.”

 

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