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RIOetc entrevista Manuela Yamada, do ColaborAmerica

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Texto: RIOetc

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Fotos: Juliana Rocha

[Tiago Petrik]

De tempos pra cá, você certamente ouviu falar de novos modelos de economia, que envolvem sustentabilidade, inovação digital e ambientes de troca e colaboração. Aqui mesmo já falamos do tema, quando foi lançado o Distrito Criativo do Porto. Este mês, de 17 a 19, é justamente nesta região da cidade que terá lugar o ColaborAmerica, evento inteiramente dedicado ao tema. A reunião trará 70 palestrantes de 12 países (veja aqui o programa completo) em um espaço de 2 mil metros quadrados, o Rua City Lab. É aguardado um público de 2.500 pessoas.

Em todos os dias de evento haverá conteúdo gratuito ao público geral. Duas plenárias contarão com conteúdo pago, sendo que o palco principal terá transmissão aberta via streaming no Youtube, graças ao financiamento coletivo em andamento. Até 5 de novembro acontece a pré-venda promocional para o evento, com ingressos a partir de R$ 100. No site do ColaborAmerica já é possível realizar cadastro como voluntário e ainda sugerir propostas de conteúdo.

Conversamos com Manuela Yamada, responsável pela organização, que respondeu às perguntas a seguir.

Que novo modelo de economia o ColaborAmerica pretende propor?

O ColaborAmerica pretende explorar novos modelos econômicos e suas aplicações e desenvolvimento na América Latina. Essas chamadas “novas economias” se caracterizam por serem mais distribuídas, possibilitando a interação entre pares, e por serem sócio-ambientalmente sustentáveis e resilientes. Exemplos dessas novas economias que serão apresentadas no ColaborAmerica são a Economia Colaborativa, a Economia Circular, Economia Solidária, entre outras.

Cite algumas das inovações que serão apresentadas no evento, e seus respectivos agentes.

Muitas inovações serão apresentadas no ColaborAmerica, mas com certeza merecem destaque: a tecnologia blockchain, trazida por vários palestrantes dentre eles o israelense Matan Field e o brasileiro Oswaldo Oliveira; iniciativas de civic tech como o sistema argentino Democracy OS, que permite uma representatividade direta em questões políticas e já usado pelo Partido de la Red na Argentina; novos movimentos educacionais ligados à cultura maker, trazidos pelo Olabi, entre muitos outros.

Vi que, entre os inovadores digitais convidados a palestrar, estão também lideranças indígenas. Que lições eles podem nos dar neste sentido?

A nossa cultura tradicional latinoamerica torna o nosso cenário muito único para o desenvolvimento dessas chamadas “novas economias”, pois nós já possuímos os pilares dessas economias em nosso DNA, digamos assim.

Os indígenas representam isso muito bem. Muito do que hoje em dia é pleiteado pela economia colaborativa, economia circular ou economia p2p já é praticado há séculos pelos povos indígenas.

As pessoas que estão impulsionando essas novas economias, ou economias da transição, falam muito em colaboração, em utilização consciente dos recursos naturais de forma a promover a sustentabilidade, falam em criação de comunidade e confiança, no movimento maker, em produzir o que se consome e em transparência. Mas a verdade é que todos esses pilares tidos como inovadores já são praticados há centenas de anos por comunidades indígenas.

Há três anos atrás eu tive a oportunidade de passar 10 dias em uma aldeia Kayapó e vivenciei esse fato. Por exemplo, enquanto nós falamos em usar os recursos naturais de forma cíclica na economia circular, os indígenas tem isso como base, pois ou eles vivem respeitando o tempo do meio ambiente ou eles não terão esses recursos depois. Eles já praticam desde sempre o que nós hoje vemos como inovação.

É claro que esses movimentos de inovação trazem o aspecto tecnológico, que permite escalonar e conectar essas premissas em nível global. De fato existe um movimento de transição de sistema e ele está baseado na tecnologia digital.

Por este motivo escolhemos como tema para o evento “Da tradição à transição”, pois o ColaborAmerica se posiciona justamente na interseção destes dois universos, acreditando que ambos tem a aprender e a ensinar.

O evento vai acontecer numa região renovada da cidade, que pretende ser um equivalente carioca ao catalão [email protected] Você vê isso como algo possível? O que falta para o Rio neste sentido?

Eu acredito que isso é possível, sim. Toda essa área portuária, que é onde a cidade começou, e agora passa por um processo de revitalização, de desenvolvimento da rede de mobilidade urbana, entre outros. É claro que nem tudo é lindo também, existe uma grande questão de gentrificação acontecendo naquela região.

Eu acredito que, para o projeto deslanchar, a população precisa ainda entender aquilo como uma espaço dela. E isso não é restrito àquela área da cidade, mas ao entendimento de que a cidade é da população e de que precisamos ocupá-la. Mas isso tem muito mais chance de acontecer se a população for chamada para participar do desenho deste espaço. Alguém perguntou aos moradores do entorno o que eles precisam ali? Precisamos garantir é que os espaços construídos sejam amigáveis e propícios para ocupação. Um exemplo claro, perto da Goma, espaço onde o ColaborAmerica tem sede, uma praça foi reformada, no entanto colocaram pouquíssimas árvores, que não fazem sombreamento, poucos bancos e pontos para convivência. Eu te pergunto, esse espaço foi pensado para ser ocupado e vivido? Já em outros pontos, como a própria praça Mauá, todo o desenho do espaço favorece a interação.

Ainda a esse propósito, como o Rio se posiciona em relação à indústria colaborativa? Que exemplos você destacaria? E no resto do Brasil? Qual o esforço que os governos têm feito em incentivar?

O Rio é expoente neste tipo de iniciativa. O Brasil já lidera o ranking da economia colaborativa na América Latina. Segundo relatório recente do BID/FOMIN, 32% da iniciativas do continente estão aqui no Brasil, que é disparado o país mais atuante. Dentro do Brasil temos três grandes polos trabalhando com a economia colaborativa Rio, São Paulo e Porto Alegre, e o Rio tem um papel de destaque. Exemplos disso são o próprio ColaborAmerica, os dois festivais prévios com os quais tivemos envolvidos, o #ColaboraRio que foi nosso e o Reboot (organizado pela Benfeitoria) em 2014, iniciativas como a Goma, empresas como o Tem Açúcar? que nasceu aqui, dentre muitas outras. Porto Alegre possui um lugar de destaque também, foi onde nasceu o Estaleiro Liberdade, que deu origem a muitas das casas colaborativas que encontramos hoje no Rio e em São Paulo.

Com relação ao governo, ao meu ver eles ainda não pegaram o ritmo da coisa e não existe nenhum tipo de política pública para o incentivo dessas iniciativas. Isso inclusive é um tema que precisa ser discutido, pois muitas atividades que poderiam estar rodando não conseguem se desenvolver por falta de fôlego do governo em acompanhar as mudanças. Acredito que a gente ainda vai ver isso acontecer muito.

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