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RIOetc entrevista Kel Cogliatti, do InCômodos

Fotos: Wendy Andrade
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Texto: Fernanda Prestes

Apanhou por não dar beijo em desconhecido. Levou três socos enquanto servia o jantar. Foi morta pelo ex com espeto de churrasco. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada. Incomoda ler esses fatos sobre ser mulher no Brasil, né? Esse é justamente o objetivo do circuito cênico – como o chama a diretora e curadora Kel Cogliatti – “InCômodos”. O projeto ocupa a Casa Rio, em Botafogo, até o dia 26 de novembro. Mais de 20 artistas mulheres ocupam os cômodos da casa e, através dos sentidos, fazem com que os espectadores tenham experiências próximas das que as mulheres vivem todos os dias. Conversamos com a Kel sobre o circuito e a importância dele na atual situação política e social das mulheres.

O que é o InCômodos?

É uma ocupação da casa inteira. A ideia é que seja uma ocupação itinerante e bem híbrida, a maioria das artistas não é atriz, nós temos artista visual, bailarina, performer e o público vai sendo levado. Eu gosto de chamar de circuito cênico, as pessoas chama de peça, mas vai muito além. É uma experiência, tanto que chamamos de InCômodos – Um Laboratório Sensorial, você vai sendo guiado por esses cômodos e vai fazendo um processo que culmina na última sala. A gente tenta isolar ao máximo os estímulos sensoriais, então tem uma sala olfativa, outra pro tato, mas é tudo ligado ao que as mulheres passam no cotidiano. São pequenas coisas que a gente naturaliza, mas que não é natural, e o mais legal é que os homens quando vem acham impactante e as mulheres acham legal, mas já conhecem a experiência. E o objetivo é exatamente esse: mostrar pra quem não vive isso, esse desconforto. Através da memória afetiva, geramos empatia. Muita gente diz que tem medo de vir porque acha que vai ser agressivo e não é esse lugar. A ideia é pegar a pessoa pela identidade afetiva. A pessoa sente um desconforto e geramos uma reflexão em cima disso. “Tá vendo esse desconforto? Passo por isso todo dia!” É um mix de incômodos e a celebração do feminino.

Como foi a seleção das artistas e chegar nesse trabalho?

Eu comecei a pensar nesse projeto em 2014 e o projeto inicial é muito diferente do que ele tá aqui na casa. Éramos cinco inicialmente e cada uma de uma área. Uma atriz, uma artista visual, uma fotógrafa, enfim. E hoje somos em vinte. Vinte mulheres ocupando essa casa, a gente deixa os meninos doidos no bom sentido! Rs A gente veio fazendo um processo de três meses de pesquisa e desenvolvimento pra saber como seriam os cômodos, como seriam as casas, e achamos a Casa Rio por acaso. Em um determinado momento, achamos que não estava com toda a representatividade que a gente achava que tinha que ter e decidimos chamar mais mulheres. Fizemos uma chamada aberta e um encontro que foi lindo, maravilhoso. Achei que iriam 10 pessoas e tinham 45 mulheres. Isso há um mês só. Então nosso grupo de 5 virou de 20. O projeto cresceu muito! Eram outras histórias, outros lugares de fala, mulheres completamente diferentes, etnias, idades, pensamentos. Ganhamos muito!

Como é a dinâmica do circuito?

Entram 35 pessoas e fazemos no máximo duas sessões por dia. Tem umas figuras que são os fios condutores, umas sacerdotisas. Não quero dar muito spoiler, mas desde o momento que a pessoa entra pra comprar na bilheteria, já tem cena acontecendo do lado de fora da casa. E elas são levadas pelos cômodos por essas mulheres e vão se espalhando.  As duas sessões até se juntam em algum momento. Posso falar a ordem dos sentidos: olfato, tato, audição, paladar e termina na visão.

Semana passada tivemos uma passeata sobre o aborto. Como você vê esse tipo de trabalho artístico nesse contexto político e social do país?

Eu acho superimportante. A ideia surgiu de um incômodo meu, de uma vivência minha, que eu precisava externar de alguma forma. Metade do nosso elenco estava na passeata. Eu acho que é um posicionamento político, você não silenciar mais esse tipo de coisa e se você quer mudar, de que forma você muda? Eu acredito muito no diálogo e na empatia. E o InCômodos é muito isso: como trazer as pessoas pela empatia. Eu acredito na arte enquanto poder transformador, de diálogo, de tudo. Cada pessoa que vem assistir e se sentir impactada e chamar mais gente pra ver é muito valioso. Dialogar sobre já é um começo, plantar uma sementinha. No tato, por exemplo, usamos a experiência do transporte público. Um amigo meu veio e ficou chocado porque colocaram a mão na coxa dele. Eu perguntei se tinha incomodado e ele disse que sim, muito. Pensei “que bom”, a ideia é essa: incomodar.

InCômodos – Um laboratório sensorial

Horários: Sábados e domingos, às 20h

Temporada: De 04 a 26 de novembro.

Local: Casa Rio – Endereço: Rua São João Batista, 105 – Botafogo, RJ

Ingressos: R$20 (inteira) / R$15 (lista amiga e venda antecipada) / R$10 (meia)

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