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RIOetc entrevista Juliana Rocha

Fotos: Bel Corção
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Texto: Fernanda Prestes

Em janeiro desse ano, vi um post da Ju no Facebook. Ela convocava mulheres para um projeto de fotografia analógica que iria abordar nossa relação com o nosso corpo, a nudez, nossos cabelos e a censura. Algumas semanas depois, em apenas dois dias, a Ju fotografou 40 mulheres. As fotos, que se assemelham a esculturas humanas, estarão na Galeria Oriente como parte da exposição Soror, que ela divide com a artista Silvana Andrade e tem curadoria da Simone Rodrigues. Conversamos com a Juliana – que já tem um livro publicado e à venda na nossa lojinha – sobre esse projeto, parte do FotoRio 2017.

Como surgiu a ideia dessas fotos?

Em 2016, eu fui excluída do Instagram por postar a foto que eu fiz de uma amiga minha grávida, porque aparecia um mamilo. Isso sempre foi uma questão, porque como o meu trabalho autoral quase sempre se relaciona com o corpo, quando eu falava do corpo da mulher, tinha que esconder alguma coisa na parte da frente. Então eu comecei a perceber que muitas vezes eu fotografei homens pra alguns trabalhos porque eu não teria o problema da censura, não me preocuparia em esconder peito. Eu decidi que não iria mais fazer isso, que não colocaria mais tarja. Eu tinha quase 30 mil seguidores no Instagram, meu trabalho estava lá todo registrado, eu fiz um livro com as publicações que eu tinha lá, então eles me excluírem. Foi uma coisa muito drástica. A princípio não fiz nada sobre isso, mas essa história ficou na minha cabeça. Essa coisa de existir uma força maior que rege o que a gente pode fazer, ou mostrar, quais são nossas intenções. Se a gente põe uma saia curta o mundo já acha que a mensagem é muito óbvia. E não é. A nossa nudez não tem uma mensagem óbvia. Quem define é a gente. Existe um desejo das mulheres de verem seu corpo funcionando em outro aspecto. O meu corpo nu não está nu só quando eu tomo banho ou estou em uma relação sexual. Eu quero ver meu corpo nu com outra fala. Elas se associaram a mim como uma pessoa que elas confiam, uma outra mulher, que de certa forma daria pra elas um empoderamento nessa experiência de se colocarem nuas na frente da câmera. Isso foi algo que eu senti quando eu estava fotografando. Então pra mim foi uma responsabilidade enorme, porque ainda não tá totalmente claro o que uma mulher quer quando ela quer se sentir empoderada. Ela quer se sentir bonita também. Mas em que padrões ela quer se sentir bonita? Que padrões ainda dizem pra ela o que é bonito? Foi uma série de questões ali que foram fortes pra mim e que tenho certeza que foram fortes pra elas também. E então a ideia dos cabelos foi que eu não queria colocar mais nenhuma tarja em foto e se eu ficasse fazendo isso eu seria excluída pra sempre das redes sociais até que a regra mudasse. Eu decidi usar o próprio corpo da mulher pra simbolizar essa falta de liberdade, essa censura, mas ao mesmo tempo, por ser o próprio corpo dela, é um convite que ela recupere a posse do corpo, esse poder. Eu não queria que a série fosse sobre impotência, mas sobre potência. Eu queria que as fotos fossem um totem delas mesmas, pra que elas entendessem que o corpo delas é sagrado pra elas e é assim que temos que enxergar toda vez que nos olhamos.

E por que o cabelo?

O cabelo é um lugar simbólico em diversos níveis, mas para as mulheres contemporâneas é o lugar onde primeiro se transformam. Quando acontece uma grande revolução interna, elas usam o cabelo pra simbolizar isso pro mundo. Todas as mulheres que eu fotografei falaram sobre o cabelo como lugar de transformação. “Quando eu sinto que mudei muito eu tenho vontade de mudar o cabelo, de pintar” e isso é algo real pra mim também. Eu queria então que o cabelo fosse esse lugar ritualístico. Eu queria que essas fotos simbolizassem o momento em que elas vão marcar essa luta, a volta a ser dona do próprio corpo.

Como aconteceu o encontro com a Galeria e a Silvana?

A exposição surgiu porque eu trouxe as imagens pra escanear aqui no ateliê e uma das sócias, que é a Kitty Paranaguá, viu as minhas fotos, conversou comigo e falou do trabalho de outra artista que ela tinha conhecido, com um trabalho muito interessante e que é um contraponto muito forte pro meu. A Silvana Andrade faz esse trabalho de apropriação de pesquisas no Google onde você vê como a mulher é representada e é chocante. Quando você olha a mulher brasileira, em comparação com as outras, é a mais objetificada. Então juntamos os dois trabalhos. Vai ter uma TV mostrando as imagens dos peitos que ela achou na internet ao lado dos peitos que eu fotografei e foram censurados. Três das minhas fotos da série estarão expostas na parede e as outras serão projetadas na parede do prédio em frente ao ateliê. Vamos mostrar bastante peito pra ver se isso entra na cabeça das pessoas. Aqui não seremos banidas. No evento do Facebook colocamos uma tarja, que é uma homenagem à artista Barbara Kruger, uma fonte de inspiração pra gente. E a estante estará ocupada somente com livros de mulheres. Queremos deixar claro que existe, em todas as estruturas sociais, um apagamento das mulheres que fizeram história, que são artistas.

De onde veio a escolha do nome Soror?

Fraternidade é o amor entre irmãos homens. Vem de fráter. O feminino é soror, irmãs, companheiras. E a gente não usa. Mais uma escolha sexista. Sororidade é o amor entre irmãs, mulheres. Soror é o que a gente quis fazer aqui com esse espaço. Convidar as mulheres pra trocar e nos ajudarmos. Por isso, até o dia 26 de agosto, teremos uma programação toda voltada para discutir e expôr o trabalho de mulheres artistas.

Como você lida com essa censura, principalmente depois de ter seu Instagram banido?

Eu achava que de certa forma isso era ofensivo pra mim como mulher, como mulher artista. Eu ter que alterar o meu trabalho, eu ter que esconder uma coisa que eu não vejo nenhum caráter obsceno. Minhas fotos não são obscenas e o obsceno não é a parte do corpo. Hoje eu entendo isso, o obsceno é uma coisa muito mais relacionada com a intenção, com a abordagem e acho muito bizarro que a nudez seja descaracterizada da sua ideia original que é ser uma parte do corpo de alguém. Eu fico pensando em que grupo que eles me colocaram. Em um grupo de pessoas que estão atingindo de alguma forma o direito das outras pessoas. Teoricamente eu estou num bolo de contas excluídas que ofendem outros usuários de Instagram. E fico pensando: o corpo de uma mulher, um trabalho artístico, ofende outras pessoas? Eu fiquei cozinhando esse pensamento, essa revolta. A vontade era de nunca mais entrar e divulgar meus trabalhos em rede social. E eu entendi que na verdade é uma briga perdida pra eles. Isso vai acabar em algum momento. É uma certeza que eu tenho. Eu tenho certeza que daqui a alguns anos a gente vai achar isso muito bizarro. Como achavam bizarro a mulher mostrar o tornozelo. São ferramentas de controle sobre o corpo da mulher, sobre a sexualidade das pessoas que vão cair por terra. A gente tem visto uma evolução enorme da forma como a mulher se percebe, dos espaços que as mulheres estão conquistando. Mulheres que estão questionando que elas podem ter o corpo que elas quiserem, que podem usar a roupa que elas quiserem, que elas podem se comportar como querem. Em algum momento esse espaço vai chegar também na nossa própria nudez.

SOROR

Galeria Oriente – Rua do Russel, 300/401, Glória

Abertura: Sábado (22 de julho) às 17h

Programação:

– 26 de julho / 18h às 19h30: Há arte feminista no Brasil? com Roberta Barros;

– 05 de agosto / 17h às 21h: Mulheres Veladas com Nana Moraes e Claudia Roquette-Pinto;

– 12 de agosto / 17h às 21h: Corpo como Arte com performances da Silvana Andrade e Tatiana Henrique;

– 16 de agosto / 18h às 19h: Nomes do Amor;

– 26 de agosto / 17h às 21h: Soror e Finissage com Juliana Rocha e Silvana Andrade.

 

 

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