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RIOetc entrevista Julia Michaels+Maria Lago

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Tiago Petrik

[Tiago Petrik]

O pôr do sol de hoje está marcado para as 19h17min. Como se sabe, o mergulho da bola de fogo na água, visto a partir do Arpoador, é um espetáculo digno de aplausos. Mas nossa recomendação para logo mais é outra: é dia de bater palmas para o trabalho de Julia Michaels e Maria Lago. A partir das 18h30, as duas estarão na Casa de Cultura Laura Alvim, ali pertinho, autografando “Arpoador – Homenagem”, livro que não tem a intenção de ser um registro documental (mas não deixa de ser), e sim poético (e é mesmo). Mas se você não resiste à arquibancada natural moldada pelas ondas e pelos ventos ao longo de séculos, OK; dá tempo de ver o show da natureza e depois partir pro lançamento, já que a festa vai até as 22h. Como na vida real arpoadorense, vai ter uma mistura de famosos e anônimos, ricos e pobres. Tipo imperdível (dá play na seta das fotos e vai sentindo o clima).

Por exemplo, espera-se a presença de Carlos Henrique dos Reis, aka King. Nascido no Morro do Cantagalo, aprendeu a surfar na época do Píer de Ipanema. Mas foi no Arpex que conheceu Bob Marley e Jimmy Cliff. “Por que morar na favela quando posso morar aqui, na praia? Tenho tudo que preciso na caverna, até uma TV”, disse o sem-teto mais bem endereçado do país em depoimento a Julia. King tem como “vizinhos” gente como Gilberto Braga, Oskar Metsavath, Walter Salles Jr e Nizan Guanaes. Todos igualmente donos do pedaço. Para organizar essa saudável mistura, nada melhor do que duas “haoles”. Julia Michaels mora em Ipanema e frequenta o Arpoador com seu cão Strüdel, mas é nascida em Boston, nos Estados Unidos. Lançou há pouco “Solteira no Rio de Janeiro – as aventuras de uma gringa cinquentona na Cidade Maravilhosa” (também pela Editora Língua Geral). Maria Lago é do Flamengo, e atualmente mora no Leblon. Mas passou uma temporada de sete anos em Madri, e não se considera a “típica” carioca. Com a ajuda de Carolina Matos, fotógrafa e pesquisadora, cavocaram arquivos de famílias e buscaram na Biblioteca Nacional o máximo de registros iconográficos ainda inéditos. O resultado é um livro de arte emoldurado por histórias deliciosas, colhidas em mais de 30 depoimentos.

Mas não só. De João do Rio (que se encantou pelo aspecto lunar das pedras, no longínquo 1917) a Caetano Veloso (que fez os versos de “Menino do Rio” para Petit, um surfista local), passando por Ruy Castro (que abre os trabalhos com uma grande verdade: a história do Arpoador daria vários livros, mas dificilmente algum tão amoroso quanto este), Drummond, Vinicius e Adriana Calcanhotto, não faltam referências pra lá de honrosas para esse abraço no bairro.

Das muitas histórias, Julia se empolga especialmente pela que conta a chegada do surfe ao país. “Em 1964, o Brasil ainda era muito fechado e distante do resto do mundo. Aqui já se praticava uma espécie de surfe, mas era em tábuas de madeira, estilo “porta de igreja”, e todos usando pés-de-pato. Depois que desciam uma onda, tinham que deixar a madeira secando na areia até usar novamente”, diverte-se Julia. “Até que um dia apareceu um australiano com uma prancha de fibra, que assistia ao desempenho dos brasileiros com um ar de espanto”. O mito Arduíno Colasanti foi um dos que descobriram a prancha de fibra na ocasião, que pode ser considerada a descoberta do surfe pelos nativos, segundo Julia, que em suas muitas andanças pelo Arpoador descobriu uma cruz natural moldada na pedra, em baixo relevo.

“É um retrato feliz, mas também falamos dos problemas”, conta Maria Lago. Assim, tem espaço na narrativa – essencialmente visual – para os verões do arrastão, ou de quando o dono do Cantagalo mandou suspender o surfe por lá. O pico nunca ficou tão vazio. Mas também tem o saudoso verão do Circo Voador (que, Julia confessa, gostaria de ter presenciado, mas na época não morava no Rio), os do píer, o da lata, e personagens como Petit – que foi a Santos tatuar o famoso dragão no braço, já que aqui não havia quem fizesse o serviço –, Bebel Gilberto, Fred D’Orey, além de pescadores, porteiros e outros elementos da fauna local. “A magia e a energia do lugar guiaram o projeto”, diz Maria, que começou a planejar o dia de hoje em maio. “Nos anos 80, quando os ônibus passaram a vir da Zona Norte, o panorama mudou. E essa mistura faz bem. Não tem como isso não trazer bons frutos”, avalia Julia, autora também do blog (igualmente imperdível) Rio Real, em que a cidade é apresentada num tom crítico, porém esperançoso. “Em geral, a transformação é positiva, mas muita coisa precisa mudar”.

Por favor, só não mexam no pôr do sol visto a partir do Arpoador.

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