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RIOetc entrevista Gabriel Klein, da Vice Brasil

Fotos: Wendy Andrade
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Texto: RIOetc

@kleingabriel

Há tempos que se fala e se discute a tal da crise no jornalismo. Uma crise que atinge todos os lados da moeda: jornalistas, empresas e consumidores. Redes sociais, fake news, revolução de formatos: diversos são os motivos que nos trouxeram até aqui. Pensando no futuro da produção de conteúdo jornalístico, a Perestroika Rio elaborou o curso Chronical que pretende unir o jornalismo tradicional – que precisa entender mais sobre contexto e consumo da informação atual – e produtores de conteúdo – que podem utilizar as ferramentas do jornalismo clássico pra produzir com mais embasamento, profundidade e credibilidade. Pra isso, trouxeram profissionais do mercado que estão constantemente pensando em novos formatos e formas de se fazer jornalismo. Entre eles, Gabriel Klein, Head of Creative da Vice Brasil, com quem trocamos uma ideia.

Como você chegou até a Vice? 

Eu não sou jornalista, sou publicitário. Ainda na faculdade, em 2001, eu montei uma agência pra trabalhar narrativas digitais com marcas, a DW. Ela existia no Sul, trabalhava clientes de lá e nacionais. Dentre as clientes, estava a Converse e aí em 2008 a Vice estava vindo pro Brasil fazer o lançamento da revista. Eles fizeram um projeto com a Converse e a gente faria uns eventos de ativação da marca. Isso em 2009. E assim a Converse me aproximou da Vice. Eles estavam sem estrutura no Brasil, montando ainda a operação, gostaram muito do trabalho que a gente fez de conteúdo digital e me convidaram pra ser sócio da Vice no Brasil. Sigo há 8 anos cuidando de duas frentes: os projetos especiais e conteúdo a ser desenvolvido com marcas e para marcas; e a estratégia criativa da Vice no Brasil. Eu não produzo conteúdo editorial, a gente tem uma Head de conteúdo e trabalhamos muito juntos: eu pensando em formatos e linguagens e a Fê com a equipe dela pensando em conteúdo.

Vocês têm dificuldade de unir os dois? Porque hoje percebo uma evolução muito grande de formato, que a Era Digital trouxe, mas que muitas vezes o conteúdo não consegue acompanhar. 

Temos uma forma de trabalhar onde nunca deixamos de dar uma pauta. A gente lança em um formato que a gente tá confortável e vai construindo em cima daquilo. Então muitas pautas que fizeram sucesso como matéria em texto primeiro, depois acabamos fazendo a mesma pauta em vídeo. Ganhando tempo pra construir ela no formato de vídeo, por exemplo.

Mas com o mesmo conteúdo?

O conteúdo na essência é o mesmo, mas com uma outra envelopagem pra trabalhar em outros canais ou plataformas – Facebook, Stories, enfim. A gente nunca deixa de fazer, essa é uma orientação até do Shane, nosso cofundador, CEO da empresa até hoje. Ele diz: “se vocês tiverem uma ideia, façam, não precisam ficar tentando validar, justificar ou encontrar aprovação, porque nesse momento alguém vai fazer na frente e vocês vão deixar de contar a história de vocês”. Então somos sempre orientados pra olhar pras coisas que estamos seguindo e colocar a história na rua.

A Vice tem uma característica muito específica que é a linguagem, voltada pra um público jovem. Como é a construção disso internamente? Vocês definem de fato esse público e só conversam com ele?

A Vice cresceu muito em abrangência de público. Há uns 10 anos atrás talvez a gente poderia ser identificado como uma revista de nicho e mais borderline. Digo revista porque a Vice surgiu de uma revista, ela é a nossa essência. Mas à medida que a Vice foi expandindo pro mundo e crescendo, ela começou a olhar pra outras coisas, abrir as temáticas dela e inclusive já passou por duas revisões de linguagem pra ser um pouco mais aberta, atingir um público um pouco mais amplo, sem perder a essência dela. E embora a Vice seja identificada como uma media company jovem, focada no millennial, a gente diz que a Vice é uma mídia millennial first. Ela é pensada com esse mindset e a partir daí a gente atinge um público que escapa um pouco desse recorte de faixa etária, pra baixo ou pra cima, embora nosso foco esteja ali. A gente lançou, em janeiro de 2016, um canal de televisão que tá chegando a 19 países e tem planos de vir pro Brasil, em parceria com a Globosat, e um dos objetivos do canal é de rejuvenescer a audiência da TV a cabo. Não só o jornalismo, mas o conteúdo como um todo. Nós estamos pensando formatos, espaço de break, como as marcas entram, a linearidade da TV e a forma de consumo dessa geração. E nos primeiros três meses do canal no ar, ele identificou uma queda de 19 anos na idade da audiência e é o canal que mais cresce em audiência globalmente. Na frente de notícias, tem0s uma iniciativa com a HBO (ainda sem versão brasileira) que tem a proposta de ser um noticiário pensado pra jovens. Tem um pensamento de formato aí, que começa com o programa não ter um apresentador, são pautas coladas uma na outra e a forma de apresentar com apoio de gráficos e conteúdo muito quente, como um jornal faz, mas de uma forma muito mais visual. E têm sido um sucesso.

Há um tempo se fala da crise de credibilidade e consumo do jornalismo. Qual o maior desafio hoje do jornalismo e da produção de conteúdo? É o público com novos modos de consumo ou internamente nas redações?

Eu acho que são as duas coisas. Existe um jeito Vice de se fazer conteúdo, mas não existe uma rigidez, um guia de como fazer uma matéria na Vice. Isso tá muito mais na seleção de perfis alinhados com os valores da Vice, das pessoas que a gente traz pra equipe editorial, do que com uma forma de se escrever uma matéria e pensar. Isso vem naturalmente quando selecionamos as pessoas adequadas. Dito isso, as pessoas que escrevem pra Vice são, antes disso, pessoas que consumiam a Vice, que liam a gente e que conseguem entender aquele conteúdo, elas se identificam. Normalmente elas começam enviando sugestões de pauta, são convidadas pra fazer a pauta eventualmente. Nosso modelo de negócios é passar o controle criativo da empresa pros estagiários a cada 10 anos pra manter o conteúdo sempre fresh. Vai muito de saber ler o que estamos experimentando, porque os dilemas são os mesmos. Se a pessoa que tá escrevendo sobre aquilo não entende e não vive aquilo, não sofre as mesmas tensões e os mesmos problemas, dificilmente o conteúdo vai ter um nível de imersão e pessoalidade. Tudo tem que ser muito pessoal. A audiência tem uma forma de consumir, de se envolver com o conteúdo hoje, que tá muito vinculado com a forma de você conseguir atingir, criar um vínculo emocional, sentir próximo do que tá escrito. A gente escuta muito as pessoas falando que quando leem a Vice sentem que parece que é alguém da idade delas que tá escrevendo aquilo. Uma matéria que eu consigo ler em outro veículo, mas que está sendo dito de outra forma. É um pensamento muito horizontal, as coisas saem de um forma muito natural pelo alinhamento de mentes pensando o conteúdo. Não existe uma determinação de que a matéria tem que ser escrita de uma forma ou de outra. O dia que a Vice fizer isso, ela perde a essência dela, a conexão com a audiência.

Falando do curso, qual a ideia da sua aula no Chronical? O que esperar?

Primeiro vou contar a história da Vice, é importante pra entender como a Vice chegou até aqui. Ano que vem vamos chegar a 55 países e é um feito muito impressionante. Vou falar do público, o que mudou no consumo de mídia, que saiu de uma realidade de mídia linear pra um mundo digital, que tem outra velocidade de informação e outra jornada do leitor. Falo também de como a gente se conecta com esse público, quais são os códigos, e como é preciso estar realmente na rua e ter propriedade pra falar sobre os assuntos. E tenho interesse em ter um exercício de desenvolvimento de uma matéria/história e dar uma outra leitura, algo que se encaixaria na editoria da Vice.

 

Serão onze aulas que abordam conceitos e ferramentas. A primeira, com o editor chefe do Huffpost Brasil, Diego Iraheta, vai trazer um apanhado macro pra falar da transição que passamos e principais pontos a serem discutidos. Na segunda aula, o Gabriel Klein fala sobre o Youth Code e como a Vice consegue entender esse público e criar conteúdo que dialogue e se relacione com essas pessoas. Denis Russo, colunista do Nexo e roteirista do Greg News, fala na terceira aula sobre como podemos aprender técnicas de retenção de atenção e usar isso pro conteúdo informativo. Na quarta aula, as meninas do É Nós, uma escola/agência de jornalismo colaborativo de SP, falam sobre a importância da diversidade não só social, mas pro business. O Carlos Denisieski vai abordar a hierarquização da informação e levantar questionamentos sobre formato. Sergio Spagnuolo, no sexto encontro, fala sobre a importância do jornalismo de dados pra criar matérias embasadas e com profundidade e como extrair histórias por trás de dados. A sétima aula será sobre modelos mentais com o Marcelo Quinan que estimula a experimentação de novas metodologias pra chegar a resultados diferentes. Bruno Torturra estuda, entende e tenta aplicar novos modelos de negocio dentro do jornalismo: organização interna, equipes e modelos de monetização. Ainda rola uma aula de audiência e comunidade, sobre feedback e interação com o público, com um professor ainda a ser confirmado. E pra finalizar, as duas últimas aulas com Eugênia Moreira, sobre a estratégia de mudança na produção de notícias da Globonews e Paula Miraglia, do Nexo, sobre o novo momento do conteúdo jornalistico.

Garante logo sua vaga, o curso já começa no dia 23 de outubro!

 

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