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RIOetc entrevista David Alan Harvey

Fotos:
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Texto: RIOetc

Texto e fotos: Bruno Machado

Avenida Atlântica, 2946, apartamento 501. Fevereiro, 17, 10h (na verdade, 10h25, porque como um carioca exemplar… bem, vocês sabem). O elevador. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Toc, toc. E então cá estou, tête-à-tête com David Alan Harvey, fotógrafo da Agência Magnum e da National Geographic. Café e Leica sobre a mesa.

“OK, Bruno. Faça-me uma pergunta.”

Inspiro. Expiro. “Beach Games”, o segundo livro do fotógrafo sobre o Rio de Janeiro nascia ali, em ampliações nas paredes da sala. Ipanema, Arpoador e Copacabana logo destacam-se, e mais de 100 fotografias compõem o mosaico. As imagens pulsam. A sala estava vibrante, e de lá para cá caminhavam Roberta Tavares, a produtora do fotógrafo no país, Dasha Gavrylenko, a musa de David neste projeto, e Wayne Lawrence, autor de “Orchard Beach: The Bronx Riviera” que hospedou-se ali também. Roberta, eufórica, contou-nos do workshop que ocorrerá no Rio, em março, com três outros fotógrafos da Agência Magnum (vale a pesquisa!).

Os olhos de David fitam o horizonte. Olhos que viram guerra. Olhos que viram paz. A praia de Copacabana. O fotógrafo vem ao Rio de Janeiro há mais de 10 anos, e fotografou séries e mais séries sobre a Cidade Maravilhosa para a National Geographic e para o New York Times. Em 2012, publicou o boom “(based on a true story)”, um ensaio sobre o Rio, cru e nu, em um misto entre fotografia documental (80%) e ficcional (20%), de acordo com o próprio. Agora, em 2015, David conta-nos sobre os desafios de “Beach Games”:

“Em ‘Beach Games’, por exemplo, não existe a busca pelo real, tampouco existe escolha em ser positivo ou negativo sobre o Rio de Janeiro. O livro será apenas sobre o que vivi aqui. Um diário visual. Deste apartamento à esta praia, por exemplo. Eu não me movo muito, porque acredito que cada local possuiu algo para oferecer, como microcosmos. Logo, eu não mostro tudo, mostro apenas o que aconteceu comigo enquanto estava aqui.”

David acende o cigarro:

“Eu amo os cariocas. Se as pessoas aqui não fossem gentis como são, talvez eu não gostaria tanto do Rio de Janeiro em si. Porém, existe um elemento criminal na atmosfera da cidade. Verdade seja dita, as pessoas que você conhece no Rio são as melhores pessoas que você irá conhecer na vida. Então, é estranho que você preocupe-se em perder a sua câmera em um ambiente familiar como este. Esse seria o único ponto negativo. Mas, mesmo assim, eu venho ao Rio de Janeiro três vezes ao ano, e estou fotografando o segundo livro no mesmo lugar e quase da mesma forma.”

David acende mais um cigarro:

“Artisticamente poderiam dizer que foi um erro. Sim, poderiam. Mas estou consciente da questão sequencial. Por exemplo, em livros. Quando você escreve uma sequência, um sempre será melhor que o outro. Mas, mesmo assim, mesmo que seja um erro, era o que precisava fazer agora. Talvez algo apareça depois, quem sabe? Então, ‘(based on a true story)’ destacou-se, como um sucesso, logo, ‘Beach Games’ será um fracasso. Ou não. Mas estou consciente, você sabe. Precisava acontecer. A partir de então, poderei evoluir. Enfim, o processo. Mesmo que seja um desastre, eu realmente tive uma ótima experiência produzindo esse desastre.”

Acredite: em 70 anos de existência, David Alan Harvey falhou, falhou, e falhou. E, mais do isso, sofreu. Aos 6 anos, o almost carioca” foi diagnosticado com poliomielite. A literatura foi o seu escape, do hospital, e mais do que isso, da solidão. Huckleberry Finn, Robinson Cruzoé, Robin Hood. David imergia na imaginação, e considerava-se um escoteiro. Este período o possibilitou a refletir sobre a própria existência e estabelecer linguagem, e aos 14 era alguém sólido: sabia o que queria, onde queria, e quando queria. Com esta idade, sentou-se a mesa e anunciou:

“Eu vou ser um fotógrafo na National Geographic.”

Ainda aos 14, trabalhou como entregador, e após meses, conseguiu comprar uma Leica. E Papai Noel o presenteou com um filme Kodak de 36 poses.

Aos 21, David venceu o College Photographer of the Year, o que o projetou ao cenário fotográfico, e a National Geographic (sim, a mesma que prometeu alcançar) o contratou. Adivinhem? David explodiu a oportunidade.

“Eu tenho um ego enorme. Acredite. Eu sempre tive muita confiança. Meu pai enlouquecia, porque costumava comprar um rolo de filme, com 36 poses, como presente. Em 30min eu iria ao quarto escuro e traria uma impressão. Então, me perguntava: ‘onde estão as outras 35?’. Logo eu percebi que não deveria imprimir tudo, e sim, a melhor. O êxito em concursos me gerou confiança. Essa confiança foi destruída em inúmeras ocasiões, acredite. Mas, mesmo assim, eu me mantinha sólido. Sim, eu fui rejeitado pela National Geographic. E pela Magnum. Ah, e claro, por mulheres e mais mulheres. Graças a Deus, em alguns casos. (Risos) Sem dúvidas, os erros me fizeram quem sou.”

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