Ir para conteúdo

RIOetc entrevista Costanza Pascolato

Fotos:
|
Texto: RIOetc

Fotos: Juliana Rocha

[Fernanda Cintra]

Antes de começar essa entrevista, dá scroll até lá embaixo e um play na setinha – é, preparamos uma soundtrack à la Costanza Pascolato, que vai de Amy Winehouse a Sepultura, passando por Arctic Monkeys e Miles Davis. “Eu gosto de metal, você sabe que ninguém acredita? Eu me lembro que eu ia pros festivais, mas era rock mesmo, não era assim como hoje. E eu ficava lá, na frente dos alto-falantes˜.

Tão surpreendente quanto o gosto de Costanza pelo heavy metal é o fato de, aos 74 anos, ela ainda ser um ícone de estilo tão grande quanto o nosso país. Me gusta apresentar essa Costanza híbrida, que apesar de colecionar uma porção de looks pretos e demorar cerca de 8 anos para trocar o modelo de óculos escuros – sem perder o ar mediterrâneo do tipo Maria Callas, é claro -, é capaz de usar sapatilhas tachadas ou uma calça “cenourão” da Isabel Marant na maior tranquilidade – ou pra dizer o óbvio, na maior elegância.

Costanza vive entre as listas dos mais-mais, mais influentes, mais bem vestidos. Não à toa, planeja para breve uma reedição de seu best-seller “Essencial – o que você precisa saber para viver com mais estilo”, escrito em 97. De lá pra cá muita coisa mudou, ela sabe. Por isso, deixou a pré-disposição para table book na década de 90, e investiu em um guia fácil, de linguagem mais próxima à das plataformas virtuais. A própria figura de Costanza praticamente se limita à capa: “Não queria que fosse um livro sobre mim, mas oferecido por mim”, conta. Quem ilustra mesmo as novas páginas é gente jovem, como ela gosta de chamar. E é com todo o amor do mundo que a gente anuncia: boa parte das fotos é de personagens fotografados pelo RIOetc, tá?  “É o melhor site de streetstyle do Brasil”, diz a musa. Mil <3 <3 <3 pra você, Costanza.

Ainda assim, tanto know-how em moda só com o tempo, né? “É o que eu sempre digo, a melhor parte de se viver muito é que você vive muito, pra caramba!”, brinca. Daí a importância dos clássicos, ou ‘7 itens essenciais’, como você deve encontrar lá. “Quase tudo que a gente vê hoje em dia é filho, neto, bisneto dos clássicos”, avisa. E no fim das contas, quem ilustra a pauta sobre a beleza da idade é a nossa entrevistada. Eis que peço a melhor dica: “Não reclame tanto”, ela entrega, entre um sorriso e outro.

Costanza não é mesmo de reclamar. Poderia, do alto de toda a sua expertise, julgar a geração de blogueiras que tomou conta da web, por exemplo. Mas pelo contrário, reconhece o fenômeno como um momento histórico para a moda, sem se preocupar com o “legado” que vão ou não deixar. Por outro lado, valoriza a vontade de ser diferente como um ato revolucionário: “É como ser um pouco ‘Pussy Riot’ da moda”; afinal, para ela não há nada melhor do que ter a liberdade de se vestir exatamente da forma que se quer. O fato é que de um jeito ou de outro, “aqui no Brasil todo mundo se preocupa com o visual. É como cabelo, mesmo sem dinheiro você dá um jeito”.

Com tanto público, Costanza acabou se lançando online, em uma plataforma virtual própria lançada no início de 2013, e criando uma conta no instagram. Aliás, o costanzapascolato2g é um verdadeiro xodó para ela. “Procurei o site porque queria entender como escrever algo conciso sem encher o saco de ninguém. É diferente de uma coluna de revista com aquele tamanho, aquele assunto. E depois, o instagram eu adoro, é como meu gosto musical, vai do fino ao trash”, ela reconhece. Costanza conta que intercala coisas raras e engraçadinhas, bem kitsch, porque sabe que “o povo gosta”. Quando viaja, acaba reparando em coisas para as quais não olhava, e manda tudo pro instagram. Da última vez que foi a Nova York, por exemplo, ficou encantada com os rapazes de Williamsburg; segundo a própria, até mais interessantes que as meninas locais.

Moda masculina é outro assunto sobre o qual Costanza tem se inteirado. Semana passada, a tecelagem que herdou dos pais e que continua sob a administração da família, a Santaconstancia, lançou sua primeira coleção de tecidos e estampas masculinas. Era um desejo antigo, que só pôde se materializar agora por uma questão de timing; muito embora ela concorde que os brasileiros seguem um tanto tímidos. “Os brasileiros passam longe dos italianos, que por sua vez fazem um tipo quase barroco. Na verdade, meu estilo masculino preferido é o do americano moderno”. A propósito, os cariocas estão perdoados.

Que os paulistas não nos ouçam, mas é que Costanza, lá no fundo, parece ter um crash pelo Rio. Lembra com carinho o dia em que chegou ao Brasil e deu de cara com a Cidade Maravilhosa, toda verdinha e deslumbrante, vista do navio. Do art-déco comum à época aos guarda-sóis ambulantes carregados de biquínis de hoje em dia, tudo a interessa, só depende do olhar. “Mas o que eu mais gosto no Rio é justamente isso que vocês [a gente, RIOetc!] fazem muito, esse olhar de estrangeiro, de potencializar o que a cidade tem de bom”. Coramos.

Comentários