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RIOetc entrevista Carla Vilardo

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Tiago Petrik

[Tiago Petrik]

Talvez você ainda não tenha ouvido falar da ONG Spectaculu. Mas certamente conhece o resultado do trabalho deles por aí, em exibição em praticamente todos os teatros e museus da cidade. Muito provavelmente, viu também do conforto do seu sofá, assistindo a algum programa de TV. Em 13 anos de atividades, a escola de arte e tecnologia criada por Gringo Cardia e Marisa Orth já colocou no mercado nada menos que 3.500 profissionais. Eles atuam como iluminadores, contrarregras, cenógrafos, aderecistas, figurinistas, maquiadores, vitrinistas e fotógrafos, só pra citar os principais cursos. Ano passado, depois de sete anos no galpão na Zona Portuária do Rio, Carla Vilardo assumiu a coordenação pedagógica da ONG, beneficiada com parte da arrecadação das vendas da nossa coleção Encantos Mil 2013.

Pós-graduada em Engenharia de Produção com ênfase em Gestão da Produção, Carla atua na área social, como produtora e educadora, desde 2001. E assim como seus alunos, está muito mais habituada ao lado de trás das câmeras e às coxias. Isso significa que ainda fica tímida ao posar para fotos. Bem mais à vontade ela fica em suas funções, que incluem o papel de incentivadora. “Temos vários casos de jovens que iam desistir, pois a família não apoiava a escolha de seguir uma área artística, e quando vinham conversar com a coordenação sobre as faltas, a gente incentivava. Os que conseguiram terminar o curso hoje são excelentes profissionais da área”, diz. “O maior desafio é a evasão dos jovens, pois eles se encontram numa idade onde são cobrados a contribuir com a renda familiar”.

Um dos casos recentes mais emblemáticos foi o da aluna Juliana Xavier. Ela havia brigado seriamente com a mãe, que não queria a filha chegando tarde do trabalho (a jovem era camareira de um espetáculo no Fashion Mall). “Convidamos a Ju pra fazer o projeto Friends Of, patrocinado pela Levi’s, e ela quase desistiu. Apesar de muito criativa, não tinha muita habilidade com computadores. Nós incentivamos, falamos para ficar depois da hora e praticar. Resolveu correr atrás do prejuízo e, no final das contas, foi a vencedora com sua estampa Marilyn Black” (clicando na seta dá pra ver o trabalho da Juliana, que virou estampa da marca e foi vendida em Nova York).

A ONG tem como missão integrar o adolescente em situação de vulnerabilidade social, trabalhando sua consciência crítica, autoestima e direitos através de conhecimentos em arte e da preparação para o mercado de trabalho dos espetáculos, da imagem e da tecnologia. Os computadores utilizados na escola são de ponta; os cursos duram o ano inteiro, e os alunos que chegam tão crus saem de lá totalmente capacitados. Juliana não foi a única a ultrapassar as fronteiras. “Um artista multimídia do Reino Unido desenvolveu um projeto com 10 alunos da Spectaculu, e duas alunas foram escolhidas para representar a turma num encontro em Londres, e depois participaram como monitoras desse mesmo projeto replicado em São Paulo”, conta Carla. Outros 10 jovens já fizeram viagens para fora, trabalhando em produções gringas e exercendo as funções técnicas aprendidas na escola.

Como é de se imaginar, a Spectaculu mudou a história de muita gente que parecia escrita sem direito a final feliz. “Temos casos de jovens que estavam ligados ao tráfico e hoje são profissionais reconhecidos e possuem até empresa própria”, orgulha-se a coordenadora. “Oferecemos uma formacão intelectual, de consciência crítica que é essencial para a formação de um cidadão capaz e criativo”, receita.

Atualmente, são atendidos 145 jovens por ano, em 9 cursos. O recrutamento é feito através de anúncios em jornais populares e através das redes sociais.  A  seleção é feita através de uma entrevista filmada, uma atividade de desenvolvimento textual e uma atividade de desenvolvimento criativo. O candidato deve ter entre 17 e 21 anos e ser estudante ou ter concluído os estudos  através da rede pública de ensino. “Gringo faz a direção artística dos trabalhos realizados pela escola durante o ano, e o artista plástico Vik Muniz é nosso diretor convidado e traz parcerias de altíssimo nível para a instituição, como Louis Vuitton e L’Oréal, por exemplo”.

A cada ano a coleção Encantos Mil busca se associar a ONGs que trabalhem com educação, a única maneira de se mudar a cidade pra melhor sem qualquer contraindicação. Carla agradece o apoio das sete marcas envolvidas – Afghan, Cantão, dress to, Maria Filó, Redley, Shop 126 e Wasabi –, e aproveita pra convidar todos os que puderem se juntar. Tem vários jeitos: “Doando 2 horas do seu tempo para um workshop sobre algum assunto que domine ou doando materiais específicos utilizados na instituição, fazendo uma contribuição mensal para colaborar com o auxílio transporte dado a cada aluno, empregando ou indicando para estágio um jovem formado pela Spectaculu, indicando a Spectaculu para alguma instituição que possa se tornar um parceiro mantenedor/apoiador para podermos oferecer mais cursos ou melhorar nossa infraestrutura, divulgando nossa escola”.

Entre as parceiras da coleção Encantos Mil, a Afghan já captou o recado. “Faremos no próximo mês um editorial para o blog da marca. Jovens formados pela Spectaculu  participarão atuando como fotógrafos  e na equipe de beleza que produzirá a maquiagem e cabelo das modelos que serão fotografadas”, conta Carla. “A Shop 126 também nos procurou e encaminhamos currículos de jovens formados em nossa escola para uma vaga de estágio. As duas marcas também estão organizando visitas técnicas para as turmas de vitrinismo e  costura e figurino”.  

E aí, bora todo mundo entrar nessa?

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