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RIOetc entrevista Batman Zavareze

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Juliana Rocha

[Gabriela Dore]

Batman Zavareze é uma dessas pessoas que é gente de verdade, sem estrelismos, acessível, exatamente aquilo que se vê. Há 10 edições ele assina a curadoria do Festival Multiplicidade, evento que se prolonga ao longo do ano abordando o uso de tecnologias nas artes para fins múltiplos. Encontramos com ele no Parque Lage para um bate- papo sobre os 10 anos do evento, que tem seu encerramento neste final de semana, com uma ocupação do Parque Lage a partir de amanhã.

De que forma se deu sua transição do design pra arte?

[Batman] Sou designer, formado pela PUC-Rio, e trabalhei anos na ilha de edição da MTV. Foi onde tive o pontapé inicial para entender a relação entre design e tecnologia. Tudo começou com a vontade de incorporar TV, cinema, design, espaço, produto. Queria usar ferramentas amplas, entender o conceito de portabilidade que a internet já anunciava. A tecnologia propõe questionar o presente, entender o futuro, num momento em que a mídia estava em estado transitório.
Ainda jovem passei um ano numa residência na Fábrica, na Itália (centro de pesquisa e comunicação), onde fui orientado pelo Oliviero Toscani, fotógrafo aclamado e reconhecido por seu trabalho ativista nas campanhas da Benneton. A escola era formada mais ou menos por 30 alunos, eu era o mais velho; um de cada país, e por 10 departamentos de disciplinas diferentes: novas mídias, espaço, cinema, fotografia… O ideal era trabalhar com linguagens em convergência, e o trabalho final tinha liberdade total. Depois disso foi uma ida sem volta, principalmente depois de voltar pro Brasil.

Como nasceu o festival?

Eu me propus a ser um ponto de convergência para reunir várias linguagens na arte que fazem uso de tecnologia. Acredito nisso como “design de experiência”.  A própria geração digital rompe com conceitos de disciplinas separadas. Hoje o festival é considerado inclassificável. Com a parceria com a Oi, pude começar esse sonho. Foi decidido o local onde poderíamos reunir os trabalhos. Foi no Galpão do Lab, ao lado do Oi Futuro, que tiveram início os trabalhos oficiais do Multiplicidade. Depois migramos pra sala de teatro do centro cultural. Tudo começou de maneira romântica, a ideia era se manter dentro do teatro do Oi Futuro por 10 anos para construir uma cena cultural, legitimar e consolidar o nosso nome. Mas tudo muda muito rápido, principalmente quando falamos de novas mídias.

E como surgiu essa vontade de ocupar espaços urbanos?

O festival cresceu, tomou outras proporções, e a vontade de ocupar espaços urbanos surgiu naturalmente, é uma característica da nossa cidade. A primeira ocupação aconteceu na Praça dos Cavalinhos, com a intervenção dos artistas Cadu e Eduardo Berliner, que possuem uma linha híbrida em sua área de atuação. O projeto foi intitulado de “Projeto Cavalo”, no qual eles aplicaram sensores nas patas dos cavalos de brinquedo para se escutar as batucadas deles galopando. Foi um projeto incubador do Multiplicidade,  não só músicos tocando instrumentos, mas um estudo e curadoria musical que se dispunha a romper com o conceito de caixa preta do teatro,  muitas vezes necessário para projeções.

Qual foi o critério para a escolha do Parque Lage para essa ocupação?

Eu estudei no Parque Lage nos anos 90, então já existia uma relação afetiva. E também já dei cursos aqui. O local tem como prato principal a natureza, e uma tradição com a arte contemporânea. A parceria teve iníco há 3 anos, mas sendo um espaço de proteção ambiental, é um lugar cheio de proibições. Então passou a ser uma obsessão ocupar esse espaço, desvendá-lo. Queríamos entrar mais na mata, sempre respeitando a exuberância do lugar e explorando essa relação da metrópole com a natureza. É um marco na história do Multiplicidade, poder estar dentro desse espaço principalmente por ser uma escola, e a gente poder se associar com uma instituição de ensino. Associar a produção cultural independente com uma escola é promover o evento, legitimando-o como promotor de cultura e educação. Esse ano também incorporamos um dia no Planetário, um local que nunca tinha flertado com o universo das artes, e em termos de infraestrutura não precisa de muito, pois já é um local preparado para projeções. Foi um diálogo de dois anos.

O que você acha do nascimento de outros festivais que estão na mesma área de atuação, como o Novas Frequências?

O Chico Dub ficou quatro anos com a gente, fez a Escola do Multiplicidade. Ele começou como estagiário e depois cresceu como produtor. Mas a parada dele sempre foi a música, então nasceu o Novas Frequências, no qual ele se propõe a fazer uma curadoria musical. Até esse intercâmbio entre festivais é interessante!  Saber que a gente fomenta o nascimento de festivais com o mesmo caráter explorador é extremamente gratificante. Mas a gente assina essa iniciativa de trabalhar com novas linguagens, desenvolver novos softwares, aplicações e plataformas.

Como acontece a curadoria dos artistas que se apresentam no Multiplicidade?

Eu recebo muitas propostas, mas também faço pesquisas. Antes tinha convocatória, só que às vezes a gente recebia materiais depois do prazo que valia a pena incluir e dava tempo de articular na programação de acordo com a extensão do festival ao longo do ano. Tem gente que já manda o material pronto, já com uma proposta de apresentação, e outras a gente articula o trabalho de um artista com outros personagens, gerando um novo trabalho a partir da tecnologia, gerando desenvolvimento de software e novas aplicações. E existe também uma outra forma, que é a gente reconhecer o trabalho de algum artista, ou algum projeto embrionário, mesmo que este não seja multimídia, e trazer para uma nova plataforma. Incentivar até a produção do próprio artista, a partir do momento que ele entende que ele possui uma cena que funcione como ponto de contato com o público. A ideia é que a gente seja um verdadeiro laboratório de encontros.

Há alguns anos vocês vêm promovendo parceria com institutos culturais de outros países. Pode contar um pouquinho disso pra gente?

O que a gente percebeu é que o festival já era 50% composto por artistas gringos, e esse intercâmbio já estava sendo construído de maneira espontânea. O que a gente fez foi legitimar essa atuação, o que facilita nossa pesquisa, e hoje podemos nos denominar um festival internacional. Isso também aumentou o número de artistas que conseguimos enviar pra fora, às vezes pra apresentar, às vezes pra residências. Ano passado tivemos como parceiro a Grã-Bretanha, este ano intitulamos de Invasão Viking, pois tivemos parceria com Dinamarca, e no próximo ano já fechamos com a França. Na Dinamarca eu sentei com o ministro da cultura! A diferença é que o Brasil precisa entender que esse tipo de evento, até mesmo o Queremos, deveria ser uma política pública de incentivo à cultura, e não uma iniciativa privada. Mas ainda existe uma carência de gente qualificada pra essa área de atuação profissional. Hoje o Multiplicidade sobrevive por lei de incentivo e através de seus patrocinadores, como o Oi Futuro e a Prefeitura. A Oi entende a continuidade da assinatura e a associação com esse mercado. É nosso grande parceiro.

Quais são os destaques deste ano na ocupação?

Este ano conseguimos expandir nossa área de atuação no Parque Lage e podemos ocupar mais espaços e principalmente sair da casa, que sempre foi um desejo, que já havíamos conseguido ano passado. Então vamos ter ocupação no chafariz, no terraço pela primeira vez, na piscina, na Oca, espaço novo do Parque, na torre e dentro da mata mesmo, com visita guiada. Também vamos ter um mobiliário inflável e workshops. A gente destaca a obra da artista Roberta Carvalho e do Jacob Kirkegaard. A ideia este ano é que o festival seja dinâmico e que a gente possa propor essa interação com o público.

E quais são as suas ambições pro Multiplicidade daqui pra frente, agora que atingiu o marco da 10ª edição?

Queria dominar o Rio, o Brasil e o mundo, mas na impossibilidade de dominar o Rio, eu consegui dominar o Parque Lage. Mas é basicamente seguir fomentando o diálogo entre artistas para criação de novos coletivos e assinatura de obras co-autorais.

A ocupação do Multiplicidade começa amanhã no Planetário e se estende até o final de semana no Parque Lage.

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