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RIOetc entrevista a galera da Void

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Texto: RIOetc

[Tiago Petrik]

“Acreditamos que o mundo pode ser bem mais foda. Basta não se levar tão a sério”. Repetindo esse mantra tão simples, a gurizada da Void festeja dez anos de história. História que começou como revista, em Porto Alegre, e este ano virou loja, no Rio – “por inércia do mercado”, segundo garantem. A primeira, no Leblon, é de janeiro, e a da Barra ainda não completou um mês. Para 2015, a meta é espalhar novos pontos, não apenas aqui no Rio, mas também em São Paulo e nem eles mesmos sabem onde mais (ou pelo menos ainda não dizem). Os rapazes aí da foto são Ricardo Mohr, Pedro Hemb e Kiko Hein. Bruno Tellechea, o quarto elemento, não aparece na imagem porque, no dia desta entrevista, na Olegário Maciel, estava com saudades da Redenção. Pegou um vôo pra Porto Alegre, e tchau.

Não que aqui estejam passando por qualquer baixo astral – longe disso. Mas a decisão de vir pro Rio foi estratégica. “Pra transformar em um grande negócio, precisávamos fazer isso em nível nacional. Tinha que ser Rio ou São Paulo, que têm uma relevância nacional. Decidimos pelo Rio porque a gente curte o Rio, pessoalmente, e queria vir pra cá, aliar essa vontade pessoal com estratégia profissional, e o Rio tem o lifestyle da Void”, resume Pedro. “Não que São Paulo não tenha, mas conhecemos mais gente aqui, o que ia facilitar pro negócio ser certeiro como acabou sendo”, diz Kiko. “E algumas pessoas falaram que a Void tinha que vir pro Rio pelo bom momento do Rio”, completa Rica. A aceitação, como eles definem, foi “foda” e “animal”, superando qualquer previsão.

“A marca Void é uma coisa muito de verdade. Nasceu como uma revista, sem pretensão de ser um business. A gente fazia festas em Porto Alegre, molecão, e achava que faltava uma revista com a nossa cara. Era pra ser uma brincadeira, irreverente. Mas acabou dando certo, talvez até por causa disso: antes de ser um negócio, era uma razão de ser. As pessoas querem fazer parte”, conta Pedro, de 33 anos, o mais velho dos quatro – os outros têm entre 26 e 29 anos. Pedro também é o único economista no meio de publicitários. Todos moraram em algum momento fora do Brasil, e desde o começo do ano adotaram o Rio como residência (dividem-se entre Leblon e Ipanema).

Logo no início da revista, rolou um boato de que o grupo RBS – a Globo de lá – estava querendo comprar a Void. Como provocação, os meninos resolveram fazer uma edição bem mais comedida, e com uma garrafa de champanhe sendo aberta, na capa. A linguagem ficou mais careta, no desenho e no texto. “Muita gente achou que era verdade”, lembra Pedro. Na edição seguinte, a capa era um vômito – o vômito daquele champanhe fake. Perderam o principal anunciante, mas acharam graça. Como no festival de cinema de Gramado (“meio coxa”, segundo dizem), quando decidiram criar o Void Hotel. “A nossa galera não se sentia representada em Gramado. Então a gente decidiu ir pra lá fazer uma festa no nosso estilo, com a cara da Void. A gente fechou um hotel, convidou 300 solteiros e todo dia tinha festa”, conta Kiko. “Enquanto a galera do cinema vai pro tapete vermelho, a gente vai pra Gramado puxar o tapete”, diz Rica.

Fanfarrões, mas nem tanto. “Ano passado, sentimos que nossos negócios estavam mais maduros, e nós também estávamos mais maduros, e resolvemos transformar essa paixão também em negócio”, diz Kiko, falando sobre a criação da loja, um espaço onde se vende parafina, meia, brownie, cerveja, chave de quilha, roupa, tênis e até a própria revista, entre outras coisas. “O mix de produtos tem o que faz sentido pro público da Void. Foi muito orgânica essa construção. E é legal ver essa coisa que a gente imaginou na teoria dando certo na prática”, avalia Pedro, o mais falante dos três. Pedro também é sócio da Slash/Slash, espécie de holding que tem como marcas, além da Void, o Complex (com filiais no Rio, Porto Alegre e na praia gaúcha de Atlântida), uma boate, o Meca Festival, o Mimpi Festival, uma rede de lojas de skate e uma agência de eventos e experiências promocionais. A Void era talvez a grande vitrine, mas não ia muito além de um hobby. “A revista é um next level da diversão e do entretenimento. E acho que as pessoas percebem isso na gente. Vamos fazer uma loja? Então vamos fazer a loja mais doente”, define Pedro. “Não tinha nenhuma loja que a gente achasse que tinha o que a gente precisava”, completa Kiko.

Aqui na cidade de preços surreais, que desafiam qualquer novo negócio (e até mesmo negócios estabelecidos há muito tempo), “a galera de marcas de varejo viu que tinha uma oportunidade, porque tem poucas multimarcas na cidade. E a gente além de ser multimarcas é multicategorias”, segundo avalia Rica. “Algumas coisas estão menos de pernas pro ar do que o carioca acha. A gente é do Sul. Empreender lá é difícil, as coisas são travadas, o mercado é travado, as pessoas são travadas, consomem menos. Então talvez tenha algumas coisas difíceis no Rio, mas ao mesmo tempo tem coisas que aconteceram aqui muito mais rápido do que teriam acontecido lá. Por ser difícil lá no Sul, isso nos preparou pra se dar bem em outros lugares. Óbvio que o Rio tem um monte de problema, mas também tem tanta coisa tão foda que tá na conta”, decreta Pedro. “Não quer dizer que o gaúcho é careta, mas é desconfiado. As Casas Bahia foram pra lá e não deu certo. Aqui no Rio, problemas são naturais, mas a adaptação tem sido muito tranquila. Pô, a gente mora em Ipanema e no Leblon, não vai se sentir bem?”, pergunta Kiko. “Estamos trabalhando pra caralho, mas nos divertindo”, encerra Rica, antes que Pedro complete: “O cara acorda no fim de semana, vê se o mar tem onda e vai surfar. É como estar em São Paulo ou Porto Alegre e ir na esquina tomar café”.

Fotos: Tiago Petrik

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