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A juventude em rede

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Tiago Petrik

[Elis Vasconcelos]

“Junto e misturado” é uma expressão que Marcus Faustini conhece muito bem e usa há bastante tempo. Filho de nordestinos, ele veio para o Rio ainda criança com a família. Marcus cresceu em Santa Cruz, mas sempre transitou pela cidade, circulando pela casa dos familiares. Foi punk, funkeiro, fez parte de movimentos estudantis e grupos de teatro. Tudo isso aumentou as suas redes de relacionamento, o que fez com que ele tivesse acesso à coisas que pessoas de sua mesma origem não tiveram.  Com isso as oportunidades e possibilidades se abriram; Marcus estudou teatro, dirigiu peças sobre a realidade brasileira, realizou documentários e ficou conhecido como um diretor de teatro político. Mas logo percebeu que poderia transformar a realidade e não apenas representá-la, e criou, junto com seu grupo,  uma organização que criava estética para interferir no território, com o objetivo de mudar a vida das pessoas através de experiências artísticas. Foi daí que surgiu a Agência Redes Para Juventude, que tem como principal objetivo ajudar os jovens a criar rede e repertório, assim como aconteceu com o próprio Marcus, que não enxerga os jovens da favela como carentes, mas sim como pessoas potentes. O objetivo principal da Agência é ajudar esses jovens que têm ideias ótimas mas não possuem rede de relacionamentos nem repertório para colocá-las em prática.  A equipe da Agência RJ procura pessoas de destaque na área em que eles desejam trabalhar e os colocam em contato com elas para ajudar a desenvolver o projeto. No momento são 42 projetos em andamento, entre eles o Boreart, que leva obras do MAM para ficarem expostas na casa de moradores da comunidade do Borel, e que nós vamos mostrar aqui em breve, e a revista Sou Dessas, que retrata a moda e o comportamento dos jovens moradores de favelas cariocas, que nós também vamos apresentar aqui.

Você é considerado um dos principais pensadores da cidade na atualidade. Como você enxerga o Rio, com todos os eventos que estão para acontecer, obras na cidade, favelas pacificadas etc? Acha que tudo isso está, de fato, trazendo melhorias para a cidade na prática? Os moradores da favela estão sendo beneficiados com tudo isso?  Não há dúvida de que falta escutar o morador, né? É um absurdo no Santa Marta ter esgoto a céu aberto depois de quatro anos de UPP, se o projeto é para melhorar a vida do morador. O governo não sabe dizer quem é o jovem da favela. Eu acho que então ainda é um projeto mais para o mercado. Mas não dá para dizer que tirar as armas não foi um avanço. Foi um avanço. Mas não pode ter polícia de comportamento que controla os povos. Então eu acho que a cidade está em disputa. É uma cidade disputada pelo próprio capitalismo. Não é uma coisa única, não tem o Darth Vader sentado, dizendo: “Vamos lá!”. É uma disputa desorganizada, o capitalismo de entretenimento disputa com o capitalismo da infraestrutura.
A questão é que eu acho que quem está saindo no prejuízo são os cidadãos cariocas. A cidade não está diminuindo a desigualdade e depois que o fluxo de dinheiro desses megaeventos for embora eu acho que a gente não vai ter construído coisas sólidas. A cidade não tem mobilidade, tiraram as vans, todas as decisões em relação ao campo popular são autoritárias: “TIRA!”, tudo o que é relacionado aos grandes empresários se negocia. Se cobra sustentabilidade dos projetos de favela e se dá dinheiro para o empresário mais insustentável do país que é o Eike Batista, que fale toda hora.
Ao mesmo tempo tem coisas novas acontecendo em todos os lugares, novos projetos. O RIOetc, a Agência, os coletivos, o Bela Maré, por exemplo, você tem muitos trânsitos na universidade, você tem sociedade civil se organizando para lutar para reclamar, falando que o Maracanã não pode ser transformado apenas num negócio, mas o governo ainda não escuta a sociedade civil, o governo tem medo de participação social. Não escuta os moradores, bota a polícia para ser o interlocutor, aí eu acho que tem uma preguiça escravocrata. Além de um projeto de achar que o mercado resolve tudo, e o mercado não resolve tudo. O mundo já demonstrou isso, a Europa está em crise por conta disso, você tem que ter um meio do caminho, você tem que pensar nas pessoas, tem que pensar no território, 15 mil jovens não estudam nem trabalham na região de Santa Cruz. Isso é um dado alarmante que a gente deveria se preocupar.
Falta espaço para esses novos criadores, eu vejo o estado negociando muito mais com grandes empresários do que com esses inventores cariocas. E a solução da cidade não vai vir de uma tacada só, você precisa dessa ecologia de invenções, de várias invenções ao mesmo tempo. Dá trabalho? Dá! Mas alguém tem que fazer isso senão a cidade não vai se sustentar durante muito tempo, vai ser só uma capa. Essa podia ser uma cidade mais inventiva se apostasse na potência popular. Eu brinco que gambiarra é startup. A maior invenção dessa cidade em termos de transporte é o moto-táxi. E quem inventou? O jovem da favela. Eles tinham que ganhar um prêmio de mobilidade. O governo em vez de ir lá e reconhecer isso, vai lá e reprime. Já para o grande empresário ele abre a porta. Então é uma cultura que a gente precisa mudar.

Mas de alguma maneira isso mudou a autoestima dessas pessoas, concorda?  Sim, acho que um conjunto de situações do Brasil. Acho que é geracional, as políticas de colocar as pessoas dentro da universidade, tem mais gente de origem popular dentro da universidade, eles são formadores de opinião dentro dessas famílias. Acho que tem uma combinação. O país avançou de um modo geral, mas o Rio está perdendo uma oportunidade, porque a gente tá diminuindo menos a desigualdade social em relação a outros lugares do Brasil.

Você é um dos autores de um livro intitulado “O Novo Carioca”. Quem é o novo carioca para você?  “O Novo Carioca” é um livro de artigos que eu escrevi há alguns anos com o Jailson de Souza e Silva, do Observatório de Favelas, e o professor Jorge Luiz Barbosa , a gente juntou esses artigos que são reflexões sobre cultura e cidade. É uma co-autoria, cada um de nós escreveu artigos inéditos para o livro. E eu tenho um outro livro chamado “Guia Afetivo da periferia”, que é mais recente e é um pouco inspirado na minha própria história.
Para mim o novo carioca são os meninos da Agência, são vocês… São pessoas que querem fazer o novo trânsito da cidade, tentando ajudar a diminuir a desigualdade, a invisibilidade da representação popular dessa cidade. Essa é uma cidade popular, não é só uma cidade maravilhosa, é uma cidade que tem uma potência popular, e eu quero ver isso aparecer, eu acho que o novo carioca é quem está hoje se propondo a inventar projetos, ações de encontro na cidade, para que a cidade não seja apartada, desigual, às vezes me preocupa ver que a cidade hoje é uma cidade de oportunidades mas a gente está reduzindo de maneira muito pequena a desigualdade, o resto do Brasil está mais avançado na diminuição da desigualdade. Eu acho que a gente poderia avançar nisso, eu acho que o novo carioca é essa pessoa que se preocupa com isso.  Em transitar, em não ter fronteiras, em andar pela cidade, em romper as catracas simbólicas. No “Guia”, eu escrevo isso, a história de um jovem que só gostava de andar em Ipanema à noite porque tinha medo de frequentar o bairro de dia, então é uma nova cidade que tenta ser inventada.
As meninas do “Sou Dessas”, que querem falar do comportamento delas, esse encorajamento a inventar um novo lugar. Um Rio de Janeiro potente, rompendo a desigualdade, a hierarquização nas representações sociais, de que tal lugar é melhor que o outro. O novo carioca é essa pessoa que está inventando tudo isso.

Quando nós entrevistamos a turma do “Sou Dessas”, eles disseram que resolveram criar a revista porque não se viam representadas nas revistas que já existem. Você acha que elas realmente não são influenciadas pela moda ditada pela mídia e criam suas modas e modos dentro das comunidades ou você enxerga mais um fluxo de informações?  Olha, eu acho que a gente tem um mito de achar que as coisas são puras. Mas todo mundo mimetiza no comportamento social de diversas maneiras, através de experiências afetivas e de repertórios que estão ali. O que a gente está fazendo na agência é encorajar a fazer trânsito e a mimetizar sem culpa e sobretudo com a visibilidade do seu corpo. Então eu acho que elas operam, assim como alguém mais intelectual imita ao tomar um vinho, ao ir para um determinado lugar e às vezes faz um discurso de originalidade. A originalidade para mim é um mito. Eu acho que a gente re-opera, o importante é quando esse corpo se joga.
Então eu acho que elas operam tudo que está em volta delas. A TV, o território… o importante é elas terem o direito de falar disso, de construir a sua representação, de construir a sua representatividade na cidade. Porque qual é a coisa perversa? É alguém dizer como o outro é. Todos têm que ter o direito de dizer como opera, como se sentem, todos têm que ter direito a uma expressão que uso muito na agência: “máquina expressiva”. É potencializar a sua expressão: fazer um filme, criar um projeto, escrever um livro… Você amplifica, então mais importante do que só representar favela, ou só mimetizar algo que é da indústria cultural, é o direito desse corpo ter a sua expressão.
Eu acho que não tem pureza no ambiente popular. Escuto as pessoas falarem em “funk de raiz”, meu Deus, o que eu é o funk de raiz se o próprio funk é uma operação? O próprio cordel é uma operação! Essa ideia de que tudo que é popular tem que ser puro é uma ideia de controle para colocar os pobres no folclore, e no folcore estão as menores verbas, onde estão as melhores verbas? No contemporâneo. Então eu quero que essas meninas sejam contemporâneas, que elas tenham o direito de ser contemporâneas, para ter os melhores estudos, os melhores congressos, os melhores seminários, a melhor visibilidade, eu gosto muito dessa geração. Ao contrário da minha, que é uma geração de rancor, o que eu gosto dessa geração que é uma geração pós-rancor, é uma geração “já é!”, “eu quero fazer!”, que quer aprender fazendo. Eu gosto muito dessa energia, uma energia de “eu vou mostrar como é o meu jeito”, sem uma culpa teórica. Porque não teve uma culpa teórica para falar da pobreza no Brasil. A pobreza também virou uma commodity dos intelectuais. E eu acho que está na hora das vozes se expressarem,  de ver onde isso vai dar, que invenção isso vai trazer, eu acho que o importante no momento é as pessoas poderem se expressar e ganhar dinheiro com isso.

E o trabalho com as comunidades em Londres, como será?  Pela metodologia da agência a gente ganhou o prêmio da Fundação Calouste Gulbenkian no Reino Unido, é o principal prêmio de arte de lá, a gente ganhou 265mil libras para implementar o projeto em Londres e Manchester com parceiros de lá: People’s Palace Project (PPP), Battersea Art Centre (BAC) e Contact Theatre. É a terceira vez que eu tô indo lá para treinar a equipe, os mediadores. A mesma metodologia aplicada aqui será aplicada lá a partir dos parceiros que eu vou conhecer em Londres. É a mesma coisa: jovens querendo ser escutados. A maioria deles é imigritante ou filhos de imigrantes e operários ingleses. Tem asiáticos, africanos, marroquinos….  eu não esperava ter essa experiência na vida. O máximo que eu esperava era um dia falar sobre meu trabalho em outros lugares do mundo, mas trabalhar lá e poder desenvolver a nossa metodologia eu não esperava, me sinto honrado de ter esse reconhecimento e é um grande desafio, é outra língua!
Eu não falo inglês, mas falo a língua mais falada do mundo, o “bad english” (risos). A Agência tem muita emoção, muita singularidade na relação com o jovem e testar isso em outra língua também é um desafio e depois, esse ano ainda, alguns jovens daqui vão para lá, contar para eles como foi a experiência, e alguns de lá vêm no fim do ano para cá. Então vai começar uma rede de intercâmbio entre esses jovens e produção comum também, de troca de conteúdo, de repertório, de vivência. Eu me sinto como numa escola de arte e vejo isso como o Teatro do Oprimido, que já fez essa trajetória de virar uma coisa do mundo. Então eu não me acho extraordinário, eu vejo mais como um tipo de linhagem.

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